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Após vaga de queixas, TVI suspende rubrica no “Você na TV”

Manuel Luís Goucha anunciou que a rubrica "Diga de Sua (In)Justiça", da autoria de Bruno Caetano, foi suspensa “por quebra de confiança".  Na quinta-feira, a rubrica teve como convidado Mário Machado, elemento da extrema-direita, várias vezes condenado e preso por diversos crimes.

A participação de Mário Machado, várias vezes condenado e preso por diversos crimes de violência, sequestro, posse de arma e discriminação racial, entre os quais a participação no homicídio do jovem Alcino Monteiro, em 1995, no Bairro Alto, foi alvo de várias críticas e queixas junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

O SOS Racismo acusou a TVI de “branquear a violência e normalizar o racismo” e exigiu “às entidades responsáveis pela supervisão da comunicação social, bem como à tutela, que tomem as medidas necessárias para impedir que a comunicação social se transforme numa caixa de ressonância da ideologia racista no país”.

Já o Sindicato dos Jornalistas (SJ) emitiu um comunicado no qual afirma que “a comunicação social – os jornalistas e as direções e administrações dos órgãos de informação – tem o dever de saber que a democracia também tem linhas vermelhas – as da sua própria preservação. Não vale tudo em busca das audiências. Muito menos usurpar e desrespeitar toda uma classe e uma ética profissionais”. O SJ pediu esclarecimento à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e à Ordem dos Advogados.

A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), bem como várias personalidades individuais, também apresentou queixa contra a TVI junto da Entidade Reguladora da Comunicação Social, defendendo que “a presença de Mário Machado, um indivíduo com um percurso associado à extrema-direita e a atos criminosos e de ódio racial e intolerância, bem como a rubrica na qual se perguntava se ‘precisamos de um novo Salazar’, constitui uma ofensa aos valores democráticos e a todos quantos se opuseram ao fascismo em Portugal".

A ERC entretanto confirmou “a receção de participações que visam o programa ‘Você na TV’ emitido, no dia 3 de janeiro de 2019, no serviço de programas TVI”, informando que “estas serão apreciadas pelos serviços da ERC, nos trâmites habituais".

Críticas levam a suspensão da rubrica

Perante esta onda de críticas, Manuel Luís Goucha, apresentador do programa “Você na TV” anunciou esta sexta-feira à noite, no programa Deus e o Diabo, de José Eduardo Moniz, que “a direção de programas da TVI decidiu suspender a rubrica por quebra de confiança".

Manuel Luís Goucha avançou que só soube do convite a Mário Machado poucos dias antes. Admitindo que, "de futuro, é preciso ter mais atenção a quem se convida para os programas naquela estação de televisão", Goucha defendeu, no entanto, a entrevista que fez a Mário Machado, repudiando a forma como foi criticado.

"Ele veio ao programa e eu não me recusei a uma conversa que eu assumi em termos de contraditório. Quem viu a conversa não pode dizer que eu não o fiz o trabalho do contraditório. Eu fiz o trabalho de desmontar aqueles argumentos (...) Perante o facto de eu ter um convidado no estúdio, eu não me inibo de falar com ele, mesmo que existam ideias perigosas veiculadas. Eu acho que é assim, em democracia, que se combate as ideias perigosas", frisou o apresentador.

Goucha quis lembrar ainda que “estas ideias perigosas já não precisam da televisão para singrar. Veja-se o caso de [Jair] Bolsonaro, através das redes sociais e das plataformas digitais".

Já o diretor de Informação da TVI, também convidado de José Eduardo Moniz, afirmou que “a informação da TVI defende a democracia e a TVI faz informação independente e forte. O modelo de sociedade que Mário Machado defende é repugnante. Mas quando é diagnosticado um cancro na sociedade não posso permitir que opinadores inflamados e alguns defensores da moral ataquem quem diagnostica o cancro. Ele existe e já está instalado. Não fomos nós que o criámos".

Sérgio Figueiredo teceu duras críticas ao Sindicato de Jornalistas, que classificou como um grupo de "falsos moralistas", e ao ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, que falou numa atitude incendiária por parte da estação de televisão.

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