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Aplicações de entrega: a nova faceta do trabalho infantil

Durante dois meses, repórteres acompanharam o quotidiano de adolescentes que se arriscam no trabalho para aplicações de entrega no Brasil. Por Bianca Muniz e José Cícero da Agência Pública.
Aplicações de entrega e trabalho infantil. Ilustração da Agência Pública.
Aplicações de entrega e trabalho infantil. Ilustração da Agência Pública.

Enquanto um grupo de entregadores, que utilizam bicicletas com a finalidade de trabalhar para empresas de aplicações de entrega, conversava no Largo da Batata, região de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, *Diego dividia a atenção entre a conversa e o telemóvel. O diálogo com os colegas de labuta era sobre a redução de chamadas nos últimos dias e o aumento da concorrência nas ruas. O grupo, que reunia cerca de oito homens, desfazia-se à medida que os pedidos chegavam. Depois de alguns minutos parado, chegou a vez de Diego ir até o estabelecimento para retirar a entrega. Depressa, pegou a mochila térmica – pendurada no galho de uma pequena árvore – , e saiu em disparada até ao endereço, cerca de dois km do restaurante. Em 10 minutos, o entregador tinha executado o pedido e estava livre para a próxima solicitação.

Nesta rotina há quatro meses, Diego mistura-se com milhares de entregadores que utilizam bicicletas para trabalhar em aplicações de entrega No entanto, o que o distingue da maioria dos colegas é a idade: ele tem 14 anos.

Pelo menos três vezes por semana, ele pega o autocarro no Jardim Horizonte Azul, um bairro popular na Zona Sul, em direção ao Largo da Batata, a cerca de 30 km de distância, para fazer as entregas na região de Pinheiros, onde estão alguns dos endereços mais valorizados de São Paulo. “Não dá para ficar lá [no bairro] parado vendo o mundo girar. Como todo o mundo, eu também preciso das minhas coisas.”, justifica, enquanto confere onde será a próxima retirada do pedido que acabara de receber.

Ele não é o único adolescente que tem trabalhado para aplicações de entregas. Durante dois meses, a reportagem da Agência Pública conversou com meninos, com idades entre 14 e 17 anos, sobre a rotina de trabalho como entregadores de bicicletas.

Um deles é *Felipe, que tem 17 anos e mora em Paraisópolis, também na Zona Sul de São Paulo. Diariamente, ele pedala cerca de 10 quilómetros até a região do Itaim Bibi, bairro de classe média onde se concentram diversos hipermercados, restaurantes, snack-bars, prédios residenciais e comerciais.

O adolescente começou a labutar nas ruas há 10 meses, depois de ser mandado embora do trabalho num mercado na Vila Nova Conceição, o bairro com o metro quadrado mais caro da cidade. “Comecei a trabalhar lá como Jovem Aprendiz aos 16 anos. Eles mandaram-me embora por conta da pandemia. Eu era empacotador. Trabalhei lá por uns cinco meses. Até falaram que iam me chamar de novo, mas ficou só na conversa mesmo”, conta.

Após ser dispensado do mercado, Felipe passou a trabalhar às sextas, sábados e domingos fazendo entregas de bicicleta para um restaurante em Paraisópolis, uma das maiores favelas da capital paulista. No entanto, o proprietário, amigo da sua família, foi infetado com a Covid-19 e faleceu. Por conta disso, o estabelecimento ficou fechado por um período e foi neste momento que Felipe se cadastrou como entregador nas plataformas Ifood e UberEats.

Com o dinheiro que recebeu quando saiu do restaurante, o adolescente comprou uma bicicleta usada por 100 reais e uma bag (mochila térmica para entregas) usada por 60 e, com as dicas de alguns amigos, também adolescentes, decidiu arriscar-se a fazer entregas fora da comunidade.

Por conta do cansaço físico, Felipe prefere fazer as entregas no horário do jantar, entre 18h e 22h. Às vezes, ele também se arrisca no período do almoço. No entanto, diz ser difícil manter a rotina de dois turnos, por achar muito cansativa. Trabalhando só na parte da noite, pedala mais ou menos 60 km por dia. Fora o trajeto de ida e volta, que soma cerca de 20 km.

“À noite, a minha perna dói bastante. Hoje mesmo eu não fui trabalhar; os meus joelhos doem-me. É como se você fosse para o ginásio e no outro dia estivesse todo dorido. Há dias com muitos pedidos e com o sangue quente, você nem sente. Porém, quando chego em casa, depois de me sentar, não consigo nem levantar bem. Normalmente nem sento. Já tomo banho, deito-me e morro de tanto cansaço.”

Adolescentes com idades entre 14 e 17 anos trabalham como entregadores de bicicleta; a prática consiste em trabalho infantil e expõem a diversos riscos. Foto de José Cícero/Agência Pública.

Adolescentes arriscam-se nas ruas

Em janeiro deste ano, na segunda semana de trabalho, *Eduardo, de 15 anos, colidiu com um carro, na região da Faria Lima, uma importante avenida de São Paulo, quando estava a caminho de uma entrega. Ele presta serviços para as empresas Rappi e Ifood. “Eu feri o meu rosto, bati a cabeça no vidro e fiquei inconsciente. Chamaram a ambulância, ligaram para o meu pai e levaram-me para o hospital. Quando eu fui para esquadra para dar conta da ocorrência, a motorista do carro em que bati perguntou para o meu pai se eu não era muito novo para trabalhar com isto. Aí o polícia disse para ela: ‘É melhor ele estar a trabalhar do que ele estar em casa a não fazer nada ou até a fazer coisas erradas'”.

A visão do polícia não é um ponto de vista isolado. Isa Oliveira, coordenadora do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), diz que “o trabalho é um valor muito forte na sociedade, então as pessoas banalizam, desconhecem ou acham que o trabalho infantil é um problema menor”. “ A questão é: quem são os adolescentes e crianças envolvidos no trabalho infantil? São crianças de famílias em situação de pobreza, de maior vulnerabilidade e um percentual elevado são negras. Ainda se tem uma questão racial. É racismo mesmo. Esse é um facto muito importante. A banalização é muito forte”, argumenta.

Toda a cadeia produtiva precisa ser responsabilizada, diz MPT

Em agosto passado, o Ministério Público do Trabalho (MPT) de São Paulo, através da Coordenadoria Regional de Combate a Exploração do Trabalho da Criança e Adolescente da 2ª região, encaminhou para os representantes de aplicativos de entrega uma notificação recomendatória em que pede para as empresas se absterem “de contratar ou utilizar, diretamente, ou por meio de terceiros, o trabalho de crianças ou adolescentes com idade inferior a 18 anos em qualquer atividade que implique a permanência nas ruas, avenidas e outros logradouros públicos ou em locais que exponham a situações de risco ou perigo”. O documento também orienta as companhias a “exercerem fiscalização quanto às atividades realizadas por terceiros como prestadores de serviços como: entregadores, estabelecimentos comerciais, inclusive restaurantes, bares, snackbars”, entre outros itens.

As empresas foram notificadas pelo Ministério Público do Trabalho do Brasil. Foto de José Cícero/Agência Pública.

O órgão abriu um Procedimento Promocional para apurar e conhecer os factos relacionados com a denúncia tratada na matéria publicada pela Reuters em dezembro do ano passado, que denuncia o trabalho de crianças e adolescentes em empresas de delivery. As empresas Carbono Zero, 99, Rappi e Ifood foram convidadas para uma audiência que aconteceu no dia 12 de agosto, na capital paulista. Segundo o procurador Bernardo Leôncio, ficou acordado que “as empresas deverão tomar medidas para evitar que menores de idade trabalhem fazendo entregas.” Atualmente, o MPT está a fiscalizar o cumprimento da recomendação. Caso algum adolescente seja apanhado em flagrante a trabalhar com entregas, as partes serão chamadas para discutir o que será feito em cada caso individualmente.

“As empresas de aplicações não podem ficar sem serem responsabilizadas”, diz a coordenadora do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil , Isa Oliveira. O procurador Leôncio do MPT acredita que “toda cadeia produtiva precisa ser responsabilizada”. “Nós entendemos que é uma questão da cadeia produtiva. A partir do momento que existe toda uma rede, quem está em cima, que no caso são as aplicações, tem que se responsabilizar pela legalidade até a entrega do produto”, afirma.

Estado como indutor de violação de direitos de crianças e de adolescentes

São diversos os motivos que têm levado crianças e adolescentes a trabalharem, principalmente durante a pandemia. Para a coordenadora do FNPETI, “a redução do auxílio de emergência está entre os principais. É uma verdadeira piada, esse auxílio, primeiro porque ele é intermitente, ele acontece de vez em quando e não em outros momentos, como se a questão da sobrevivência, da alimentação e do abrigo pudesse parar. A culpa não é das famílias, é da ausência e da omissão do Estado”, diz. Para ela, “na pandemia, as causas estruturais do trabalho infantil se tornaram mais graves e mais fortes”. “Você tem mais desigualdade social, o desemprego vem aumentando, as escolas fecharam e por isso a gente não pode responsabilizar só a pandemia, já havia uma ineficiência do estado, nesse período que antecedeu a pandemia e que ficou mais visível.”

É importante levar em consideração questões estruturais para entender o trabalho infantil no Brasil, aponta a gestora do projeto Criança Livre do Trabalho Infantil, Bruna Ribeiro. “A gente precisa entender que o trabalho infantil é fruto da desigualdade social, do racismo estrutural e da pobreza. Se o trabalho infantil fosse bom, seria privilégio dos ricos. É sim, de facto, um problema social e estrutural do nosso país, que tem uma relação direta com a escravização da população negra”.

Foram justamente alguns desses fatores estruturais que levaram Diego* a começar com as entregas de bicicleta, mesmo sem o consentimento da mãe – que atualmente está desempregada e o cria sozinha junto com os dois irmãos mais novos. *Meire, 34 anos, desde os 17 anos trabalha como manicure e cabeleireira. Desde o início da pandemia não tem conseguido atuar na área como antes e lamenta ter conseguido o auxílio de emergência apenas na libertação da primeira remessa.

Meire, ao falar dos salões de beleza em que trabalhou – todos nas ricas regiões das avenidas Paulista e Faria Lima – diz-se orgulhosa devido à experiência que adquiriu. Para ela, o contacto que teve com bons produtos e a maneira como as clientes eram tratadas inspirou-a para abrir seu próprio salão. “Eu queria levar esse tipo de atendimento para as mulheres do meu bairro e ter o próprio negócio”, conta.

Focada no sonho de empreender no seu próprio estabelecimento, no segundo semestre de 2019, ela investiu em um negócio próprio. Trabalhou todos os dias do mês, incluindo natal e ano novo. Passou o ano na esperança de que o negócio daria certo. Porém, em março de 2020, viu-se obrigada a fechar o salão devido âs medidas de restrição adotadas pelo município. “A minha renda diminuiu e só dava para comprar comida. As contas de água e luz atrasaram. Depois de um tempo, comecei a sentir-me triste. Tranquei-me e não tinha vontade de sair. Só pensava nas contas, bateu-me um desespero que nunca senti antes.”

Para ajudar no orçamento da família, Diego começou a recolher material reciclável, sem a autorização da mãe. “ Houve um sábado em que ele chegou aqui em casa com 12 reais a dizer que era para comprar pão e café. Ele disse que tinha passado a semana a recolher latinhas com mais dois amigos, venderam e conseguiram o dinheiro. Não me contou por medo de eu brigar com ele, porque sempre digo que ele tem que estudar e não trabalhar”, conta Meire.

Diego passou a fazer entregas de bicicleta a convite dos amigos, que também são adolescentes. “Pedi para um primo me cadastrar, mas depois de uma semana eles bloquearam-me. Apareceu uma mensagem que eu tinha descumprido as normas. Depois cadastrei-me com [os dados de] outro amigo e não deu mais problemas”, revela.

Em média, Diego ganhava 500 reais [80 euros] por mês a fazer entregas. “É mais do que eu ganhava quando vendia reciclagem, só que é mais cansativo e mais perigoso”, diz. Por medo de acontecer algo com o filho, Meire o obrigou a sair dos aplicativos. “Ele vai ter que esperar mais um pouco para começar a trabalhar. Pelo menos com 16 [anos] e de uma forma segura”.

A pandemia e a crise económica no Brasil levaram jovens a procurar este tipo de trabalhos. Foto de José Cícero/Agência Pública.

Bruna Ribeiro, gestora do projeto Criança Livre do Trabalho Infantil, reforça que é importante “não criminalizar as famílias” e diz que é necessário um conjunto de esforços para combater trabalho infantil. “Não existe uma bala de prata. Exige medidas intersetoriais de políticas públicas, então é preciso gerar emprego, gerar rendimento, formar os jovens e adultos, profissionalizar esses pais, dar acesso à educação de qualidade e integral. Ter atividades para estas crianças, moradia digna, acesso à saúde. Transferência de rendimento. Porque as políticas públicas são insuficientes para o enfrentamento ao trabalho infantil, a gente fala que não pode trabalhar, mas ao mesmo tempo não responde a altura da necessidade dessas famílias. É a pobreza. Este é o problema!”.

A Pública procurou as empresas Ifood, Rappi e UberEats, citadas por entregadores adolescentes, solicitando entrevistas com seus representantes. Questionamos se as empresas tinham conhecimento de que adolescentes estão a fazer entregas, se têm alguma ação para evitar o trabalho infantil. Também perguntámos se foram notificadas pelo MPT. Até ao fecho da reportagem, somente a Rappi se posicionou.

Por nota, a Rappi informou que “para atuar como entregador é preciso ter mais de 18 anos e cadastrar-se na plataforma com a inclusão de fotos, documentos pessoais e outros dados comprovativos. Aos motociclistas e motoristas também é exigida CNH válida. O sistema faz reconhecimento facial em tempo real, para confirmar a identidade do entregador quando ele realiza o login na plataforma”. A plataforma informou ainda que “não compactua com o trabalho infantil, sendo este um compromisso da empresa, e atua para identificar casos desta natureza, decorrentes do não cumprimento das regras contra o trabalho infantil na plataforma. A empresa criou um canal de auditoria no aplicativo, no qual entregadores, usuários e lojas podem denunciar eventuais casos de menores de idade atuando como entregadores. A plataforma também estabeleceu comunicações periódicas aos seus usuários, nos seus canais oficiais e no próprio aplicativo, sobre o combate ao trabalho infantil.”

Com base na resposta, perguntámos qual o número de entregadores de bicicleta cadastrados na aplicação e quantas denúncias sobre trabalho infantil foram registadas nos canais oficiais da empresa no Brasil. A Rappi não respondeu.

Apps de entrega estão entre as piores formas de trabalho infantil

O trabalho que tem sido realizado por entregadores adolescentes, geralmente em centros urbanos do país, está entre as 93 piores formas de trabalho infantil, de acordo com a Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP). O Brasil é signatário da Lista desde 2008, quando o então presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) ratificou o Decreto 6.481.

O conceito surgiu na convenção 182 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), quando os países listaram as piores formas de trabalho infantil, que são as atividades insalubres, perigosas e que podem causar danos à segurança, à saúde, à moral. O item 73 da Lista aponta que “trabalhos em ruas e logradouros públicos apresentam alguns riscos ocupacionais como: exposição à violência, drogas, assédio sexual e tráfico de pessoas; exposição à radiação solar, chuva e frio; acidentes de trânsito; atropelamento. Causando algumas consequências para saúde das crianças do tipo: ferimentos e comprometimento do desenvolvimento afetivo; cancro de pele; desidratação; doenças respiratórias; hipertermia; traumatismos; ferimentos entre outros”.

Conforme dados do Ministério da Saúde, o Brasil, entre os anos de 2007 e 2019 registou 27.971 acidentes de trabalho com crianças e adolescentes. A maioria das vítimas eram meninos, da região Sudeste e que tinham entre 14 e 17 anos. Entre as crianças de 5 e 13 anos de idade, a maioria eram pardas e pretas, e na faixa etária entre 14 e 17 anos a maioria eram brancas.

De acordo com Isa Oliveira, a máxima de que “trabalhar não mata” não é verdadeira. “O trabalho infantil leva a óbito sim e a mutilações muitos graves. Ele tem consequências psicológicas que são menos percetíveis. Muitas dessas consequências acompanham a criança e o adolescente na vida adulta”, aponta.

Trabalho infantil aumentou durante a pandemia e pode crescer depois dela

No Brasil, os dados mais recentes sobre trabalho infantil são de dezembro de 2020. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) sobre Trabalho de Crianças e Adolescentes, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que 1,8 milhão de crianças e jovens de 5 a 17 anos estavam em situação de trabalho infantil no país antes da pandemia. Desses, 66,4% eram do sexo masculino e 33,6% do feminino. A percentagem de pessoas pretas ou mulatas era de 66,1% e o número de brancas de 32,8%. Havia 706 mil pessoas em ocupações consideradas piores formas de trabalho infantil.

Na perspetiva municipal, em São Paulo, de acordo com os dados coletados pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), houve aumento do trabalho infantil durante a pandemia. O órgão das Nações Unidas realizou o levantamento de dados sobre a situação de rendimento e trabalho com 52.744 famílias vulneráveis de diferentes regiões da capital paulista, que receberam doações da organização e seus parceiros. De abril a julho de 2020, houve um aumento de 26% do trabalho infantil.

São Paulo é um modesto recorte do que poderá acontecer no mundo até 2022. De acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da UNICEF, divulgado em junho passado, cerca de 8,9 milhões de meninos e meninas correm o risco de entrar nessa situação até ao próximo ano. Entre 2016 e 2020, 8,4 milhões de crianças e adolescente entraram para o censo do trabalho infantil, chegando a 160 milhões no mundo, patamar atingido pela primeira vez em duas décadas.

Para Isa Oliveira, o aumento no país já é dado como realidade. “Isso é um prognóstico que se vai confirmar porque não há resposta, não há nenhuma estratégia do Estado para o enfrentamento desta situação do trabalho infantil na pandemia. O Brasil tem uma importância muito grande dentro da América Latina, porque 20% do trabalho infantil que ocorre na região, acontece no Brasil. Claro que é o país mais populoso, país mais diverso, mas isso não justifica a violação de direitos, porque também é o mais rico.”

Para atender o compromisso de extinguir todas as formas de trabalho infantil até 2025, como previsto na meta 8.7 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil criou o III Plano Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (2019-2022). No entanto, no último ano o Brasil não apresentou progresso satisfatório. A meta que visa medidas para acabar com o trabalho infantil foi classificada como “em retrocesso” no “Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030”, estudo feito a partir de dados governamentais analisados por 106 especialistas de diversas áreas, que compõem o Grupo de Trabalho da Sociedade Civil, formado por 57 organizações e fóruns de todo o país.


Depois da publicação da reportagem, a Uber e o Ifood enviaram notas que reproduzimos abaixo na íntegra

Resposta da Uber
“Menores realizando entregas pela plataforma da Uber violam os Termos & Condições de uso do aplicativo, além de infringirem a Lei. Quando identificamos fraude ou tentativa de cadastro de menores, a conta é imediatamente desativada e quaisquer novas tentativas de cadastro dos mesmos indivíduos são rejeitadas. Além disso, podemos notificar o Conselho Tutelar e nos colocamos à disposição para trabalhar com as autoridades para investigar potenciais fraudes, como já fizemos no passado. A Uber tem a segurança como prioridade e está comprometida com a atualização e aprimoramento constante dos seus processos contra fraudadores e os novos esquemas que eles criam para burlar as regras impostas pela empresa. Nossos times de deteção de fraudes usam tanto processos manuais quanto automatizados que analisam mais de 600 parâmetros em busca de comportamento fraudulento. Um deles é a verificação do entregador parceiro em tempo real: de tempos em tempos, o sistema pede que ele tire uma selfie, que é verificada contra a foto cadastrada no sistema. O entregador só consegue prosseguir com as entregas depois de fazer essa verificação. Além disso, o aplicativo também permite a qualquer um – usuário, restaurante parceiro – denunciar se o entregador parceiro não for aquele que se registrou no aplicativo ou notar qualquer irregularidade.  Ao longo do último ano, a Uber implementou novos processos e tecnologias para prevenir fraudes e aprimorou o treinamento de sua equipe, sempre trabalhando para estar à frente dos novos movimentos fraudulentos.”

Resposta do iFood
“O iFood esclarece que não admite nenhuma prática que envolva trabalho infantil e que coloque crianças e adolescentes em situação de risco social, psicológico ou físico. Na plataforma não é permitido fazer o cadastro de menores, sendo obrigatória a apresentação de documento de identidade ou CNH, que constam os dados da pessoa e também a data de nascimento, se os dados são de um menor de idade o cadastro não é liberado. Permitir que menores usem cadastros feitos na plataforma do iFood em nome de outras pessoas é fraude prevista nos termos e condições estabelecidos para os entregadores que atuam na plataforma e leva ao descredenciamento imediato do responsável pela transferência.
Além disso, para evitar que as regras de uso dos cadastros sejam burladas, o iFood investe em reconhecimento facial para a certificação da identidade dos seus entregadores. Essa solução tecnológica solicita aos entregadores que tirem fotos (selfies) em tempo real e compara essas imagens com documentos, sendo que o acesso à plataforma ocorre apenas depois da confirmação da identidade. O reconhecimento facial já está ativo em todo Brasil.
Todas as denúncias de uso de crianças e adolescentes, menores de 18 anos, para a realização de entregas recebidas pelo iFood são investigadas internamente e, caso confirmadas, são tomadas as medidas cabíveis.”


*Os nomes dos adolescentes foram substituídos para preservar suas identidades.


Investigação de Bianca Muniz e José Cícero publicada originalmente na Agência Pública. Texto editado para português de Portugal por Esquerda.net.

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