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Antigo patrão de Passos Coelho na Tecnoforma garante: “O Pedro é que abria as portas todas”

Fernando Madeira conta à revista Sábado que o atual primeiro ministro se rodeou de “pessoas influentes” no Centro Português para a Cooperação (CPPC), uma ONG financiada pela Tecnoforma, para "abrir ou facilitar” a aprovação e o financiamento de projetos. Entre os fundadores do CPPC encontravam-se, entre outros, o então líder parlamentar do PSD, Luís Marques Mendes.
Foto de André Kosters/Lusa (arquivo).

Durante uma entrevista concedida à revista Sábado, Fernando Madeira, ex sócio maioritário da Tecnoforma, explica que a empresa trabalhava sobretudo em Angola e que começaram a sentir que “havia problemas em avançar com alguns projetos na área da formação profissional”.

“Pensámos que poderíamos resolver esses problemas se abríssemos uma ONG, pois estas organizações eram mais baratas e tinham mais facilidade de acesso a verbas e financiamentos da então Comunidade Europeia”, refere. O objetivo do Centro Português para a Cooperação (CPPC) era, nesse sentido, arranjar financiamentos para projetos de formação profissional, para depois contratar a Tecnoforma para operacionalizar esses mesmos projetos.

O objetivo do CPPC era arranjar financiamentos para projetos de formação profissional, para depois contratar a Tecnoforma para operacionalizar esses mesmos projetos.

Foi neste contexto que Fernando Madeira conheceu Pedro Passos Coelho, então deputado do PSD, que lhe foi apresentado como alguém que poderia estar interessado em participar nesta parceria.

O atual primeiro ministro encarregou-se de arranjar “pessoas com influência” para fazer parte dos órgãos sociais do CPPC, entre as quais o então líder parlamentar do PSD, Luís Marques Mendes, e os também social-democratas Ângelo Correia e Vasco Rato, este último recentemente nomeado pelo governo para presidir à Fundação Luso-Americana. Fernando Sousa, à época deputado do PS, e Eva Cabral, então jornalista do Diário de Noticias e atualmente assessora do primeiro-ministro, também estiveram na fundação desta ONG. Fernando Madeira faz ainda referência a outro fundador do CPPC: Júlio Castro Caldas, então bastonário da Ordem dos Advogados, ex deputado do PSD e ex ministro da Defesa do governo PS liderado por António Guterres, e lembra que o próprio Grupo Visabeira esteve envolvido na fundação da ONG.

Segundo o antigo patrão de Passos Coelho, o atual primeiro ministro rodeou-se de personalidades influentes para "abrir ou facilitar a vinda de projetos para a ONG no âmbito da formação profissional e dos recursos humanos, e que depois esses projetos pudessem ter a participação da Tecnoforma".

Questionado sobre se Passos Coelho estava totalmente consciente dos verdadeiros objetivos do CPPC, o empresário garante que sim, descrevendo, inclusive, um encontro, combinado pelo atual primeiro ministro, com o então comissário europeu, e ex ministro da Educação e dos Negócios Estrangeiros em três governos de Cavaco Silva, João de Deus Pinheiro, e de um negócio fechado com Isaltino Morais para a formação profissional no bairro degradado da Pedreira dos Húngaros, em Oeiras.

"O projeto precisava também da aprovação de Isaltino, era o presidente da Câmara de Oeiras. O Pedro desbloqueou isso, fez o papel que se esperava dele".

"O projeto precisava também da aprovação de Isaltino, era o presidente da Câmara de Oeiras. O Pedro desbloqueou isso, fez o papel que se esperava dele. Tivemos uma reunião com o Isaltino Morais que aprovou o projeto e foi essencial para a candidatura a um programa financiado pela União Europeia", exemplifica.

“O Pedro é que abria as portas todas”, frisa ainda Fernando Madeira na entrevista à revista Sábado.

Fernando Madeira afirma não se recordar se pagava qualquer tipo de remuneração a Passos Coelho. Segundo a Sábado, o empresário pediu, inclusive, para parar a gravação nesta questão por cerca de 13 minutos. Na altura em que presidia o CPPC, o atual primeiro-ministro era deputado em regime de exclusividade no Parlamento.

O ex sócio maioritário da Tecnoforma foi ouvido no final do ano passado pelo Ministério Público no âmbito de uma investigação de projetos de formação profissional pagos à empresa com fundos comunitários.

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