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António Borges mentiu ao atacar funcionários públicos

Na mesma intervenção em que acusou os patrões de "ignorantes", o consultor de Passos Coelho disse que os vencimentos dos funcionários públicos representavam 80% da despesa do Estado. A verdade é que essa despesa em 2012 ronda apenas 20% do total dos gastos totais da Administração Pública.
Depois de mentir sobre os números da RTP, Borges volta a tentar enganar os portugueses. Foto Melanie Map's/Lusa

Segundo António Borges, os patrões que criticaram a descida da taxa social única das empresas para aumentar a dos trabalhadores "não passariam do primeiro ano do curso" da sua faculdade. Mas as contas que o consultor do Governo apresentou em seguida para ilustrar o que diz ser um dos graves problemas do país - as despesas com os salários dos funcionários públicos - dariam um chumbo certo em qualquer aula de matemática do 1º ciclo.

Na sua intervenção perante uma plateia de empresários, o consultor de Passos Coelho para as privatizações prosseguiu dizendo que "80% da despesa do Estado são vencimentos de funcionários públicos. Ou bem que nós resolvemos ese problema ou tudo o resto é para esquecer" (ver vídeo da RTP às 20:19). Um número que não corresponde nem de perto nem de longe à realidade.

O economista Eugénio Rosa fez as contas a partir do relatório que aocmpanhou a proposta do Orçamento de Estado para 2012, que desmente categoricamente as palavras de António Borges. Na realidade, "as despesas com Pessoal nas Administrações Públicas (Central, Local e Regional) representam, em 2012, 21,3% das Despesas Totais das Administrações Públicas em Portugal, segundo dados do próprio Ministério das Finanças, e não 80% como afirmou António Borges", diz o economista.

E se a análise for feita apenas à Administração Central, ou seja, àquilo que Borges se referia como "o Estado", a percentagem de despesas com pessoal desce para os 18,8%. Mais: se levarmos à letra as palavras de Borges e fizermos as contas apenas aos vencimentos (a rubrica das "Remunerações Certas e Permanentes") chegamos à conclusão que afinal em vez de 80%, o consultor deveria ter dito 14,5% da despesa total.

Para Eugénio Rosa, as palavras de António Borges  mostram que o consultor "não conhece nem estuda minimamente os assuntos de que fala, estando mais interessado em utilizar a mentira na campanha contra os trabalhadores da Administração Pública com o objetivo de justificar os ataques do governo ao seus direitos e às suas condições de vida".

O economista, que é membro do Gabinete de Estudos da CGTP-IN e responsável pelo Gabinete Técnico da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública, lamenta que sejam "personalidades deste tipo, com este estofo técnico e ético, que certa comunicação social e certos jornalistas promovem a grandes autoridades". E desmonta os argumentos de Borges em defesa da redução da taxa social única para os patrões, demonstrando que a redução dos custos das empresas não financeiras seria de pouco mais de 1%, uma variação "irrisória e ridícula" que poderia ser facilmente anulada com uma subida da taxa de câmbio do euro.

A única consequência da medida, segundo Eugénio Rosa, seria "a transferência direta de 2.200 milhões € dos bolsos dos trabalhadores para os bolsos dos patrões, reduzindo a procura agregada, o que agravaria a situação económica e financeira de centenas de milhares de empresas que vivem do mercado interno", ou seja, lançaria milhares de empresas na falência por falta de procura com a queda do poder de compra dos trabalhadores.

"Mas este 'economista', formado na escola da Goldman Sachs e do FMI, transformado por certa comunicação social em “guru”, parece não conhecer este principio elementar da economia", conclui Eugénio Rosa. Até ao momento, o único empresário que saiu em defesa de António Borges foi Alexandre Soares dos Santos, o patrão da Jerónimo Martins que emprega António Borges no seu Conselho de Administração desde março deste ano, cargo que acumula com o de consultor do Governo com ordens para privatizar rapidamente as empresas do Estado.

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