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Amazónia passou a emitir mais carbono do que absorve

Nos últimos dez anos, a Amazónia brasileira emitiu mais 18% dióxido de carbono do que aquele que conseguiu absorver. Uma inversão profunda de tendência na região que é conhecida popularmente como o pulmão do mundo.
Floresta Amazónica. Foto de Oregon State University/Flickr.
Floresta Amazónica. Foto de Oregon State University/Flickr.

Um estudo publicado esta quinta-feira na revista científica Nature Climate Change concluiu que a parte brasileira da Amazónia emitiu nos últimos dez anos mais dióxido de carbono do que aquele que conseguiu absorver. Trata-se de uma inversão profunda da tendência na região que é popularmente denominada como o pulmão do mundo.

O conjunto da floresta amazónica, que para além da parte brasileira inclui zonas do Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guyana, Suriname Guyana Francesa e Equador, é, por si só, cerca de metade da área das florestas tropicais do mundo. Os cientistas sublinham que as florestas têm como importante função a absorção dos gases com efeito de estufa, limitando o aquecimento global. E as florestas tropicais, dizem, são muito importantes neste contexto por serem mais eficazes a fazê-lo do que os outros tipos de florestas.

Entre 25% a 30% dos gases com efeito de estufa são absorvidos pelas florestas mas este papel tem vindo a reduzir-se ao longo dos tempos. Segundo os cientistas entre 2010 e 2019, a floresta amazónica brasileira lançou 16,6 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera mas só absorveu 13,9 mil, fazendo com que as perdas sejam 18% superiores aos ganhos.

À AFP, um dos autores do estudo, Jean-Pierre Wigneron, do Instituto Nacional de Investigação Agrícola francês (INRA), admite que os resultados a que a equipa internacional de cientistas chegou já eram esperados. Contudo, “é a primeira vez que temos números que nos mostram que a Amazónia brasileira mudou e é agora um emissor líquido”.

O estudo mostra ainda que 2019 foi um ano de viragem. Nesse ano, o último cujos dados foram tratados pelos cientistas, a desflorestação quase se multiplicou por quatro em relação aos dois anos anteriores e atingindo uma área equivalente a perto do tamanho da Holanda. Como causas, o INRA refere explicitamente “um declínio acentuado na aplicação de políticas de proteção ambiental após a mudança de governo em 2019”, ou seja a eleição de Jair Bolsonaro para presidente do Brasil.

Mas, dizem os dados de satélite utilizados no estudo, a degradação da floresta está a causar muito mais efeitos nas emissões de CO2 do que a desflorestação: se está contribui em 27% para a perda de carbono, aquela contribui em 73%. Por degradação entendem-se todos os fenómenos que causam danos nas árvores mas não as destroem, entre eles o seu enfraquecimento, a seca, incêndios entre outros.

Isto quer dizer que a área degradada é superior à que está já desflorestada. E que, portanto, no entender dos autores do estudo, “reduzir a degradação florestal na Amazónia brasileira deve ser uma prioridade”.

Jean-Pierre Wigneron diz ainda que “não sabemos até que ponto esta mudança se pode tornar irreversível”.

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