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Amazon, o negócio contra a privacidade

A empresa armazena dados como localização e preferências políticas, informações sobre o corpo e etnia, pesquisas, leituras e compras online, imagens de câmaras e até perguntas feitas ao seu assistente virtual. O seu lóbi já conseguiu alterar legislação sobre privacidade em mais de duas dezenas de estados norte-americanos.
Echo dot, aparelho que ativa a Alexa da Amazon. Foto de  ajay_suresh/Flickr.
Echo dot, aparelho que ativa a Alexa da Amazon. Foto de ajay_suresh/Flickr.

Uma investigação da Reuters, publicada na passada sexta-feira, mostra que o lóbi montado pela Amazon conseguiu diminuir normas de proteção da privacidade em dezenas de leis de 25 estados norte-americanos e revela detalhes sobre as informações que a empresa armazena sobre os seus clientes.

A agência noticiosa internacional teve acesso a documentos confidenciais do topo da hierarquia da empresa que revelam que Jay Carney, ex-secretário para a imprensa de Obama e ex-diretor de comunicação de Biden quando este foi vice-presidente, foi o criador a partir de 2015 de uma estratégia para condicionar a legislação estadual, implementada por cerca de 250 trabalhadores e por uma equipa de 180 lóbistas registados oficialmente. Um dos objetivos, presente num documento elaborado em 2018, era “mudar ou bloquear a legislação e regulamentos dos EUA e União Europeia que impediriam o crescimento de aparelhos que utilizam o Alexa”, o assistente virtual da Amazon.

A operação foi bem sucedida em muitos casos. Por exemplo, na Virgínia, foi aprovada este ano uma lei que a própria Amazon esboçara. Para isso, terá contribuído decisivamente a multiplicação por dez dos donativos políticos destinados a este estado. Na Califórnia e em Washington conseguiu-se retirar restrições à recolha e partilha de dados de gravações por parte das empresas de alta tecnologia e alterar regulamentos sobre dados biométricos num sentido favorável às suas pretensões.

Se bem que uma nota de 2015 tenha uma referência mais pesada - “queremos que os decisores políticos e a imprensa nos temam” -, a maior parte da estratégia delineada passava por donativos políticos, reuniões nos armazéns em que os políticos poderiam fazer passar a sua mensagem a centenas ou milhares de trabalhadores, visitas à sede da empresa, aquilo a que se chamava “regar as flores” para ficar com “um bem cuidado jardim” de “influenciadores” categorizados hierarquicamente segundo a sua importância.

Alexa, explica-me o que é privacidade...

Mas, apesar do poder da Amazon, os jornalistas da Reuters encontraram uma brecha legal para investigar a sua política de privacidade. Uma lei californiana de 2018, aprovada apesar da oposição da multinacional, possibilita que os consumidores tenham acesso aos dados pessoais que as empresas do setor tecnológico recolhem sobre si. Foi consultando os seus dossiers que comprovaram que dados como as gravações de voz em interação com a Alexa, vídeos de câmaras de segurança doméstica, informações aplicações de saúde, leituras no Kindle, pesquisas e compras online são guardados pela empresa. Esta terá assim acesso a dados como a localização dos seus utilizadores, visitas que receberam, informações sobre o seu corpo e etnia e até pormenores como preferências políticas.

A quantidade de dados recolhidos é impressionante. Um dos sete jornalistas que pediram acesso aos seus dossiers descobriu que, desde 2017, a empresa tinha guardadas mais de 90.000 gravações de interações com a Alexa dos vários membros da sua família. Apesar do assistente virtual ser ativado quando é chamado, havia registos de conversas mais longas sem que tal tivesse acontecido, o que a empresa garante serem erros de ativação.

A empresa sabia os nomes de cada um dos seus filhos e as suas canções favoritas. Os jornalistas encontraram gravações das crianças a obter uma explicação detalhada da Alexa sobre como convencer os pais a comprar jogos eletrónicos. Outras tinham conteúdos íntimos como crianças a pedir desculpa aos pais depois de terem sido castigados. Ou delicados, como uma criança pequena a perguntar: “Alexa, o que é uma vagina?”. Outro descobriu que no perfil de cliente havia uma descrição das “preferências implícitas de dieta”.

A empresa não estará assim apenas a guardar dados relativos a pesquisas nas suas plataformas mas também de outras aplicações. Um dos jornalistas descobriu que a empresa guardava os seus contactos e conhecia as suas entradas de calendário.

A Amazon justifica que faz tudo isto em benefício do cliente. Ou seja para melhorar a tecnologia e personalizar os seus serviços de acordo com os dados recolhidos, apresentando recomendações de compras, de músicas a passar etc. Também se defende dizendo que, ao fazê-lo, “cria emprego”. Um argumento aliás muito utilizado para influenciar políticos locais no que é descrito pelos membros da Amazon ouvidos pela Reuters como sendo uma “ameaça implícita: estes são empregos da Amazon e podemos acabar com eles”, uma “moeda de troca negocial fundamental” para influenciar.

Para além disso, a empresa acrescenta que, apesar das configurações padrão serem para a gravação de dados, os clientes podem optar por não o consentir. Mas muitos não sabem sequer que o podem fazer, não sabem como o fazer, para além de se jogar com a inércia que faz aceitar o que empresa requer e de se incluírem avisos quando se tenta desativar esta configuração de que “o reconhecimento de voz e novas características poderão passar a não funcionar bem”. As implicações de privacidade da sua atuação são, contudo, óbvias. Daí que a companhia se tenha oposto mesmo às leis que obrigariam a notificar os clientes de que grava as interações com a Alexa.

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