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Alternativa de integração à praxe: disputa cultural nas universidades

Texto de João Teixeira Lopes de apoio ao debate “Alternativa de integração à praxe: disputa cultural nas universidades”, que terá lugar no Fórum Socialismo 2019, no domingo, 1 de setembro, às 10 horas, no Porto.

A praxe, na sua origem, traduz uma tentativa de preservação dos costumes estudantis oriundos de um passado que surge mitificado, simultânea à atribuição, a esses mesmos costumes, de uma essência de originalidade e do caráter prescritivo da norma.

Historicamente, o termo “praxe” surge na segunda metade do século XIX, conferindo um novo significado social a um conjunto de práticas que envolviam os estudantes universitários recém-chegados à Universidade de Coimbra, apesar de se verificar, tempos os tempos medievais, um processo de fechamento, autonomização e privilégio por parte da Universidade que facilitava práticas de violência. No século XVIII, por seu lado, surgem as chamadas Investidas, correspondiam a práticas diretamente infligidas aos novatos por parte dos mais velhos, a que se somarão os “canelões”, as “caçoadas” e o surgimento de “trupes”, fenómenos estes inseridos numa atmosfera simbólica em que os estudantes se representavam como possuidores de um  espírito corporativo, boémio e romântico.

Nos anos sessenta do século XX, durante a ditadura, a praxe sofre uma forte politização, associando-se ao luto académico e às greves contra a tutela opressiva que o regime exercia sobre a Universidade e a sociedade em geral. O luto académico traduziu-se na interrupção das festas estudantis e da praxe aos caloiros, só retomadas pós 25 de Abril, em finais da década de 70, num processo de generalização que rapidamente se estendeu a todo o ensino superior. Neste período, a praxe atua como elemento de legitimação e de construção de uma identidade comum num contexto de ação coletiva política e cultural.

A praxe é um ritual de iniciação, passagem e agregação, separando os que sofreram tal processo (a praxe), dos que o não viveram; uma prática frequentemente associada ao assédio moral, intimidação e coação; à violência física e simbólica; ao sexismo, homofobia e machismo, num quadro de vincada hierarquia, mas também à socialização e integração dos “caloiros”. Este caráter dúplice e contraditório associa-se aos dilemas da juventude portuguesa e às tensões sobre a massificação do ensino superior, à inflação dos diplomas e à perda do seu valor relativo, bem como à generalização da moratória nas transições para a via adulta, num cenário de instalação em culturas e modos de vida precários.

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