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Alterações climáticas baralham migrações das tartarugas das Galápagos

As tartarugas das Galápagos, celebrizadas pela sua longevidade e por Darwin, não estão a adaptar as suas migrações às alterações climáticas. O "erro de cálculo" não parece ser fatal para elas, mas pode ter consequências para o ecossistema.
Tartaruga das Galápagos. Foto de Daniel Ramirez/Flickr.
Tartaruga das Galápagos. Foto de Daniel Ramirez/Flickr.

As tartarugas das Galápagos são um animal célebre desde o século XIX, quando Charles Darwin se inspirou nelas para elaborar a teoria da evolução das espécies. A sua longa vida, que pode chegar aos 170 anos, também as torna familiares aos graúdos que começam a aprender sobre o mundo natural. Mas há ainda aspectos por conhecer sobre estes répteis. Recentemente, um estudo revelou que parecem insensíveis às alterações climáticas nas suas migrações.

Era sabido que durante a época seca nas Galápagos, arquipélago de clima tropical 900 quilómetros para ocidente das costas do Equador, as tartarugas instalam-se nas encostas altas de montanhas e vulcões, onde uma neblina permanente fornece humidade para a vegetação crescer na falta de chuva. Chegada a época das chuvas, deslocam-se para zonas baixas e mais quentes, onde a vegetação que faltava na época seca começa a crescer. As tartarugas normalmente seguem o mesmo caminho nestas migrações sazonais para economizar energia, essencial dada a lentidão com que se deslocam e o seu peso, que pode ultrapassar 400 quilos.

Mas as alterações climáticas também estão a alterar o padrão das estações do ano nas Galápagos. Uma equipa de cientistas dos EUA, Alemanha e Equador procurou compreender como estão as tartarugas a adaptar-se, instalando dispositivos GPS e seguindo os seus movimentos durante vários anos. Os resultados foram divulgados este mês num artigo na revista científica Ecology.

As questões de partida do estudo eram três: se as tartarugas eram capazes de adaptar as suas migrações a condições ambientais diferentes, que pistas usariam para se adaptar caso o conseguissem, e que consequências haveria se não o conseguissem.

A adaptação de padrões migratórios às alterações climáticas é um fenómeno já verificado em muitas espécies, mas para surpresa dos cientistas não se verificou entre as tartarugas. O momento que estas escolheram para migrar flutua numa janela de dois meses, mas não parece seguir a disponibilidade de alimentos: quando a época seca se estendia e a vegetação crescia mais tarde nas zonas baixas, nem por isso as tartarugas retardavam a sua migração para as zonas baixas. Não é claro se isto se deve a uma avaliação incorrecta das condições, ou se as tartarugas estariam a seguir "de memória" os hábitos do passado.

No entanto, este "erro de cálculo" pode não ser fatal, pois as tartarugas, além de viverem muitos anos, conseguem sobreviver até um ano sem comer. Podem assim sobreviver um ou dois meses sem vegetação, o que seria fatal para espécies com ritmo metabólico mais elevado.

Ainda assim, o atraso migratório das tartarugas pode ter outras consequências para o ecossistema, nomeadamente para árvores e plantas cujas sementes se dispersam através destes animais. Segundo Guillaume Bastille-Rousseau, autor principal do estudo, se as alterações nas estações continuarem a agravar-se, as tartarugas podem eventualmente deixar de migrar por inteiro. Nesse cenário as alterações na flora das Galápagos, uma reserva natural de grande valor, poderão ser substanciais.

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