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Aljube acolhe exposição “Mulheres e Resistência – Novas Cartas Portuguesas e outras lutas”

Por ocasião dos 50 anos do início das “Novas Cartas Portuguesas”, o Museu do Aljube promove uma exposição que associa esta obra “a um processo mais geral e amplo da luta das mulheres pelos seus direitos e por direitos sociais, e da luta pela liberdade no nosso país”.
Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno durante o julgamento. Foto publicada na página pessoal de facebook de Maria Teresa Horta.

A exposição temporária “Mulheres e Resistência – Novas Cartas Portuguesas e outras lutas”, que vai estar patente até ao dia 31 de dezembro, no Museu do Aljube, “pretende relevar o contributo de tantas mulheres que, com origens e percursos diferentes, inventaram e concretizaram batalhas pelos seus direitos, pela justiça social e pela liberdade, desde os anos 30 até ao 25 de Abril”.

O ponto de partida é a obra de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. É na sequência do escândalo provocado pelo livro Minha Senhora de Mim, de Teresa Horta, e da “perseguição feroz” de que a autora foi alvo, que as Três Marias decidiram desafiar o regime fascista e escrever, a seis mãos, as Novas Cartas Portuguesas.

Na obra são denunciadas as várias opressões a que as mulheres estavam sujeitas, o sistema judicial que perseguia as mulheres escritoras, bem como a Guerra Colonial e a violência fascista. A Censura recolheu-a e destruiu-a três dias após o seu lançamento. O regime fascista considerou o conteúdo das Novas Cartas Portuguesas “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública” e ameaçou com uma pena entre seis meses a dois anos de prisão.

“Era altamente político. E foi um processo político, ainda que os fascistas tenham sempre tentado fazer crer que era uma questão de moral e bons costumes”, lembrava Maria Teresa Horta em entrevista ao Esquerda.net, datada de outubro de 2020.

Exposição revela “riqueza da mobilização feminina na luta pelos seus direitos”

“Uma das ideias era abordar a questão das mulheres e da resistência e, a partir daí, associar os 50 anos do início da escrita das 'Novas Cartas Portuguesas', pelas Três Marias, a um processo mais geral e amplo da luta das mulheres pelos seus direitos e por direitos sociais, e da luta pela liberdade no nosso país”, afirmou a diretora do Museu do Aljube Resistência e Liberdade, em declarações à agência Lusa.

Rita Rato explicou que a exposição “Mulheres e Resistência – Novas Cartas Portuguesas e outras lutas” dará conta das várias expressões de resistência popular, desde o início dos anos de 1930 até ao 25 de Abril. Em causa estão as lutas operárias, as lutas camponesas, as lutas antifascistas, as lutas dinamizadas por outras mulheres intelectuais, que contam com uma dispersão no território muito significativa. Rita Rato, que é também uma das curadoras da exposição, a par de Joana Alves, sublinhou que a iniciativa tenta evidenciar que a resistência das mulheres está para lá do que é mais conhecido, particularmente nos campos do sul e na cintura industrial de Lisboa.

“Ao longo desta exposição conseguimos concluir isso, que de certa forma existiram processos paralelos de resistência, de formas muito diversas de participação das mulheres, e isso também revela a riqueza da mobilização feminina na luta pelos seus direitos no nosso país”, afirmou.

Rita Rato: "Vejo o mundo de forma interseccional"

Em entrevista ao jornal Público, Rita Rato afimou que há "uma dimensão muito atual nas questões que a Maria Teresa Horta, a Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa colocavam quanto às questões das mulheres".

"O prazer das mulheres como lugar político foi colocado por elas há 50 anos e hoje continua a ser discutido. Isso mostra todo um caminho que já foi feito, mas também dá que pensar sobre tudo o que falta cumprir", assinalou.

Rita Rato referiu ver o mundo "de forma interseccional, nas questões de classe, de género ou étnico-raciais".

"Hoje, como sempre, as mulheres, e também em função da sua origem étnico-racial, estão na linha da frente contra muitos fenómenos de opressão e exclusão. Poderá é discutir-se, dentro desse campo interseccional, que dimensões é que poderão ter mais preponderância", apontou.

De acordo com a diretora do Museu do Aljube, "é óbvio que existe uma dimensão interseccional em múltiplas questões, quer sejam fatores de discriminação, quer sejam de privilégio".

Uma “luta contínua”

De acordo com Joana Alves, a exposição pretende demonstrar que, antes das Três Marias, houve outras mulheres que também lutaram para que elas pudessem escrever o livro e que as mulheres atuais herdaram as lutas delas, criando um fio condutor, que liga esta “luta contínua”.

A par de inúmeros documentos e materiais associados ao seu processo, quer a nível nacional como internacional, o núcleo expositivo Novas Cartas integra ainda um ponto de escuta, que replica uma sala dos anos 1970, onde as pessoas se podem sentar e ouvir a leitura de algumas das cartas, bem como consultar livremente o livro.

Na exposição são exibidas também várias fotografias de mulheres que, apesar dessa “forte dimensão repressiva do regime”, ideológica, simbólica e física, “lutaram e conquistaram direitos muito importantes”, avançou Rita Rato.

“Houve também uma dimensão muito importante que quisemos valorizar: desde 2015, o Museu do Aljube tem vindo a recolher testemunhos orais de muitas mulheres que tiveram um papel insubstituível na luta pela liberdade no nosso país e constituímos, a partir dessas 16 mulheres e seus testemunhos, um vídeo com excertos das suas partilhas e da sua experiência”. Os testemunhos permitem “revelar uma experiência muito própria da resistência das mulheres: mulheres que foram estudantes, dirigentes académicas, jornalistas, médicas, mulheres que viveram na clandestinidade, mulheres que estiveram presas vários anos, com percursos diferentes”, descreveu a diretora do museu.

A exposição incide também sobre “o enquadramento das mulheres durante o regime fascista, do ponto de vista legal, o enquadramento com propaganda da mocidade portuguesa feminina, com alguns cartazes de como deve ser a mulher ideal, de como se constrói a ideologia em torno da opressão da mulher”, avançou Rita Rato.

Até ao final do ano, será desenvolvida uma programação paralela, que começa já a 16 de maio, com “uma curta-metragem de um ‘work in progress’ de Luísa Sequeira, realizadora do Porto, que está a fazer um filme sobre as ‘Novas Cartas Portuguesas’, e também vai mostrar o filme que fez em 2015, que se chama ‘Quem é Bárbara Virgínia’, que é um filme sobre a primeira mulher que fez uma longa-metragem em Portugal, em 1945 [e que foi selecionada para o primeiro Festival de Cannes]”, explicou Joana Alves.

Existirão ainda sessões de conversa, teatro, música, itinerários, visitas e muito mais.

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