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Afeganistão e a NATO: Não à Linha Durand!

Padaria em Cabul. Foto de Peter Casier, FlickRA política de escalada de Bush e de Obama não permite um acordo pacífico no Afeganistão ou na região. O resultado que importa é que haja negociações entre os afegãos, sem a interferência estrangeira.

Por Noam Chomsky, La Jornada

Desde a Antiguidade que a região conhecida como Afeganistão tem sido uma encruzilhada para potenciais conquistadores. Alexandre, o Grande, Genghis Khan e Timur-i-Lenk reinarão ali.

Durante o século XIX, os impérios Britânico e Russo tentaram conquistar a supremacia na Ásia Central. Essa rivalidade foi designada por O Grande Jogo. Em 1893, Sir Henry Mortimer Durand, funcionário colonial britânico, traçou uma linha de 500 milhas para definir a fronteira ocidental da Índia, controlada pela Grã-Bertanha. A Linha Durand atravessava áreas tribais de pastuns que os afegãos consideravam como parte do seu território. Em 1947, a parte noroeste da região converteu-se no novo Estado do Paquistão.

O Grande Jogo continua no Afeganistão-Paquistão, ou Afpak, como se chama agora. O limite faz sentido para determinar a região à volta da porosa Linha Durand, cuja população nunca aceitou e ao qual o Estado do Afeganistão, quando ainda funcionava, sempre se opôs.

Um marcador histórico indelével é a razão pela qual os afegãos sempre combateram os invasores.

O Afeganistão continua a ser um prémio geoestratégico no Grande Jogo. Em Afpak, o presidente Barack Obama actuou de acordo com as suas promessas de campanha, aumentando a guerra de forma considerável, fazendo avançar os padrões de escala levados a cabo pelo governo de George W. Bush.

Actualmente, o Afeganistão está ocupado pelos Estados Unidos e pelos seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). A presença militar estrangeira apenas gera confrontações quando o que necessita é de um esforço comum entre as respectivas potências regionais, nomeadamente, a China, a Índia, o Irão, o Paquistão e a Rússia, que podem ajudar os afegãos a enfrentar os seus problemas internos como muito crêem que podem.

A NATO foi muito mais além das suas origens durante a Guerra Fria. Depois do colapso da União Soviética, esta organização perdeu o pretexto para a sua existência: a defesa contra um hipotético ataque russo. Contudo, rapidamente assumiu novas tarefas. O presidente Bill Clinton, violando as promessas feitas a Mikhail Gorbachev, ampliou-a até ao Leste, ameaçando a Rússia, e isso naturalmente aumentou as tensões internacionais.

O assessor de segurança nacional do presidente Obama, James Jones, comandante supremo da NATO na Europa entre 2003 e 2006, é partidário da sua expansão até ao Leste e Sul. Estes passos reforçaram o controlo dos recursos de energia do Estados Unidos no Médio Oriente.

É igualmente partidário de uma força de resposta que dará à Aliança controlada pelos EUA "maior capacidade para efectuar acções com rapidez em distâncias muito longas".

Esta missão da NATO poderia incluir o oleoduto projectado TAPI, que está a ser construído a um custo de 7 mil e 600 milhões de dólares e que transportará gás natural desde o Turquemenistão ao Paquistão e à Índia. As condutas atravessariam a província afegã de Kandahar, onde as tropas canadianas estão estabelecidas. Washington patrocinou o TAPI porque bloqueará um oleoduto concorrente desde o Irão até à Índia e ao Paquistão e reduzirá o controlo da energia da Ásia Central por parte da Rússia. Contudo, não é certo que estes planos serão realistas, devido à actual agitação no Afeganistão.

A China poderia representar a principal preocupação de Washington. A Organização de Cooperação de Xangai, com sede na China e que alguns analistas consideram um potencial contrapeso da NATO, inclui a Rússia e os Estados do centro da Ásia. A Índia, o Irão e o Paquistão são observadores e existem especulações sobre se integrarão a organização. A China também aprofundou as suas relações com a Arábia Saudita, a pérola da coroa do sistema de recursos petrolíferos.

Uma força que se opõe às manobras da grande potência é o vigoroso movimento de paz que está a crescer no Afeganistão. Os activistas pediram o fim da violência e que se iniciem negociações com os Taliban. Estes afegão dão as boas-vindas à ajuda externa para a reconstrução e o desenvolvimento, não para propósitos militares.

O movimento de paz está a recolher tanto apoio popular no Afeganistão que os soldados que os EUA estão a enviar para esse país enfrentam não apenas os Taliban, mas também "um inimigo desarmado, porém igualmente corajoso: a opinião pública", informa Pamela Constable do Washington Post numa recente visita ao Afeganistão. Muitos afegãos dizem que mais tropas estrangeiras "em lugar de ajudar a derrotar os insurgentes, vão exacerbar o problema".

A maioria dos afegãos entrevistados por Constable afirma que preferem "um acordo negociado com os insurgentes". A primeira mensagem do presidente afegão Hamid Karzai a Obama, e ao que parece nunca foi respondido, foi cessar os ataques ao civis. Karzai também informou uma delegação das Nações Unidas que deseja um plano retirada das tropas estrangeiras (isto é, dos EUA). Portanto, perdeu o favor de Washington. Como resultado, passou de um favorito dos media norte-americanos para ser um líder "corrupto" e "pouco fiável", etc. Existem versões jornalísticas de que os EUA estão a planear derrubá-lo em favor de um figura da sua eleição.

A popularidade de Karzai também declinou no Afeganistão, ainda que continue a ser muito superior à das tropas de ocupação norte-americanas.

Uma perspectiva útil provém de um correspondente britânico com muita experiência, Jason Burke, que escreve: "todavia, temos esperanças de construir o Estado que nós queremos que os afegãos desejam, em lugar do Estado que eles verdadeiramente querem. Se se pergunta aos afegãos que Estado desejam ter, muitos respondem: ‘algo parecido com o Irão'...".

O papel do Irão é especialmente importante. Tem relações muito estreitas com o Afeganistão. Opõe-se vigorosamente aos Taliban e ofereceu ajuda substancial para conseguir expulsá-los. Como recompensa, foi incluído no Eixo do Mal. O Irão tem mais interesse num Afeganistão em florescimento e estável do que qualquer outro país, e mantém relações naturais com o Paquistão, a Índia, a Turquia, a China e a Rússia. Talvez, se os EUA continuarem a bloquear as relações entre o Irão e o Mundo Ocidental, aquelas relações poderiam desenvolver-se na Organização de Cooperação de Xangai.

Esta semana, numa conferência da ONU sobre o Afeganistão em Haia, Karzai reuniu-se com funcionários iranianos que prometeram ajudar na reconstrução e cooperar com os esforços regionais para travar o narcotráfico no país asiática.

A política de escalada de Bush e de Obama não permite um acordo pacífico no Afeganistão ou na região. O resultado que importa é que haja negociações entre os afegãos, sem a interferência estrangeira, mesmo que se trate do Grande Jogo ou de outra coisa. Os problemas do Afeganistão devem ser resolvidos pelos afegãos.

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