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Acesso ao Ensino Superior continua a ser uma questão de classe

Estudo do think tank Edulog analisou origens sociais dos estudantes do Ensino Superior em Portugal: as classes mais altas continuam a ocupar os cursos mais prestigiados e a deixar os menos abastados para trás.
Paços da Universidade de Coimbra. Foto: Vitor Oliveira/Flickr, CC BY-SA 2.0.
Paços da Universidade de Coimbra. Foto: Vitor Oliveira/Flickr, CC BY-SA 2.0.

A escolha de curso superior em Portugal reproduz as desigualdades sociais — uma realidade há muito conhecida, corroborada agora com novos dados apurados num estudo do Edulog, think tank da Fundação Belmiro de Azevedo, divulgado hoje pelo Público e Jornal de Notícias.

O estudo A equidade no acesso ao ensino superior analisou dois indicadores: as qualificações dos progenitores e a percentagem de estudantes que recebem bolsas de ação social para cada curso. Sem surpresas, os cursos considerados "mais prestigiados" acolhem mais as classes abastadas e/ou instruídas. Na área da saúde, por exemplo, 73% dos e das estudantes de medicina têm pais com formação superior, e apenas 15% recebem ação social; já na enfermagem, pelo contrário, 73% têm pais com ensino secundário ou menos e 40% recebe ação social. Apenas os estudantes de medicina da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, destoam desta regra: 20% têm pais e mães com o Ensino Superior. À medida que se passa das universidades maiores para as menores, e do litoral para o interior, baixa a extração social dos estudantes e aumenta a proporção de bolseiros.

A discriminação social atravessa, também sem surpresas, a fronteira entre universidades e politécnicos: tendencialmente. os estudantes de origens mais abastadas rumam às universidades para áreas como medicina, direito e engenharias, enquanto os menos abastados rumam aos politécnicos e a cursos nas áreas da educação e ciências empresariais. Nas universidades, 28% dos alunos são bolseiros; nos politécnicos, 37,4%.

Dentro dos cursos mais elitistas e das universidades mais centrais também há diferenças. O estudo nota que no Porto para cada 100 vagas havia 131 candidatos locais, enquanto em Lisboa se ficavam pelos 90. Alberto Amaral, antigo reitor da Universidade do Porto e atual coordenador científico do Edulog, interpreta em declarações ao JN estes dados como sinal de que em Lisboa as classes mais altas disputam médias, enquanto no Porto disputam simplesmente vagas.

Alberto Amaral considera que o estudo que coordenou mostra que saiu gorada a expectativa de que a expansão do ensino superior reduziria as desigualdades no seu acesso. Ao invés disso, os mais favorecidos são quem mais aproveita a expansão do ensino: "de um modo um pouco brutal", afirmou ao Público, "as classes mais baixas só podem tirar vantagem das oportunidades oferecidas pela expansão quando as necessidades das classes mais altas estiverem completamente satisfeitas". Quem tem mais recursos, usa-os com sucesso para ocupar os lugares mais concorridos, por exemplo pagando explicações para subir as notas, o que faz diferença no acesso a cursos de médias altas.

"Enquanto um determinado nível escolar não é universal, os favorecidos vão assegurar esse nível para os seus filhos", concluiu Alberto Amaral. Um fenómeno para que também contribuem os numerus clausus: "quanto mais os cortarem, mais o fenómeno se agravará". Realidades descritas já na década de 1960 em obras clássicas da sociologia como Os Herdeiros (1964) ou A Reprodução (1970), de Pierre Bourdieu, e que à luz destes dados mantêm toda a pertinência.

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