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90% dos glaciares nos Alpes podem perder-se até final do século

O aquecimento global continua a ameaçar o futuro dos glaciares por todo o mundo. Os glaciares dos Alpes poderão perder entre dois terços e 90% do seu gelo durante este século, prevê um novo estudo. Por Henrique Cortez.
Glaciar de La Meije visto a partir de La Grave, Col du Lautaret, França. Foto de Pretre/Flickr.
Glaciar de La Meije visto a partir de La Grave, Col du Lautaret, França. Foto de Pretre/Flickr.

Um novo estudo sobre como os glaciares nos Alpes Europeus se vão sair num clima em aquecimento apresentou resultados preocupantes. Sob um cenário de aquecimento limitado, os glaciares perderiam cerca de dois terços do seu volume atual de gelo, enquanto sob o forte aquecimento, os Alpes ficariam praticamente livres de gelo até 2100.

Os resultados, agora publicados na revista The Cryosphere, revista de acesso aberto da European Geosciences Union (EGU), foram apresentados a 9 de abril na Assembleia Geral da EGU 2019, em Viena, Áustria.

O estudo, realizado por uma equipa de investigadores na Suíça, fornece as estimativas mais atualizadas e detalhadas do futuro de todas os glaciares nos Alpes, por volta de 4000. Projeta grandes mudanças a ocorrer nas próximas décadas: de 2017 a 2050, cerca de 50% do volume dos glaciares desaparecerá, em grande parte independentemente de quanto reduzamos as nossas emissões de gases de efeito estufa.

Depois de 2050, "a evolução futura dos glaciares dependerá fortemente de como o clima evolua", diz o líder do estudo Harry Zekollari, investigador do ETH Zurich e do Instituto Federal Suíço de Investigação Florestal, da Neve e da Paisagem, atualmente na Universidade de Delft, na Holanda. “No caso de um aquecimento mais limitado, uma parte muito mais substancial dos glaciares poderia ser salva”, diz ele.

O recuo dos glaciares teria um grande impacto nos Alpes, uma vez que estes são uma parte importante do ecossistema, paisagem e economia da região. Eles atraem turistas para as montanhas e atuam como reservatórios naturais de água doce. Fornecem uma fonte de água para fauna e flora, bem como para agricultura e hidroeletricidade, o que é especialmente importante nos períodos quentes e secos.

Para descobrir como os glaciares alpinos reagiriam num mundo em aquecimento, Zekollari e os seus co-autores usaram novos modelos informáticos (combinando fluxos de gelo e processos de fusão) e dados observacionais para estudar como cada um desses corpos de gelo se alteraria no futuro para diferentes cenários de emissões. Usaram 2017 como referência, um ano em que os glaciares alpinos tinham um volume total de cerca de 100 quilómetros cúbicos.

Num cenário que implica aquecimento global limitado, denominado RCP2.6, as emissões de gases de efeito de estufa atingiriam o pico nos próximos anos e depois declinariam rapidamente, mantendo o nível de aquecimento pelo final do século abaixo de 2° C em relação aos níveis pré-industriais. Neste caso, os glaciares alpinos seriam reduzidos para cerca de 37 quilómetros cúbicos até 2100, pouco mais de um terço do seu volume atual.

Sob o cenário de emissões elevadas, designado por RCP8.5, as emissões continuariam a subir rapidamente nas próximas décadas. “Neste caso pessimista, os Alpes estarão praticamente livres de gelo até 2100, apenas com manchas de gelo isoladas permanecendo em altitudes elevadas, representando 5% ou menos do volume de gelo atual”, diz Matthias Huss, pesquisador do ETH Zurich e co-autor do estudo. As emissões globais estão atualmente acima do projetado por esse cenário.

Os Alpes perderiam cerca de 50% do seu volume atual de glaciares até 2050 em todos os cenários. Uma razão porque a perda de volume é em grande parte independente das emissões até 2050 é que o aumento na temperatura média global devido aos gases de efeito estufa só se torna mais pronunciado na segunda metade do século. Outra razão é que os glaciares atualmente têm gelo "em excesso": o seu volume, especialmente em altitudes mais baixas, ainda reflete o clima mais frio do passado, porque demoram a reagir às mudanças nas condições climáticas. Mesmo que consigamos impedir que o clima continue mais quente, mantendo-o ao nível dos últimos 10 anos, os glaciares ainda perderiam cerca de 40% do seu volume atual até 2050, devido a esse “tempo de resposta do glaciar”, diz Zekollari.

“Os glaciares dos Alpes europeus e a sua evolução recente são alguns dos indicadores mais claros das mudanças em curso no clima”, afirma Daniel Farinotti, co-autor sénior da ETH Zurich. “O seu futuro está de fato em risco, mas ainda existe a possibilidade de limitar as suas perdas futuras.”

Artigo original por Henrique Cortez em EcoDebate.

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