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39 kg de cocaína ampliam descrédito internacional de Bolsonaro

Droga foi encontrada com sargento que integrava tripulação de apoio à comitiva do presidente do Brasil na reunião do G20 no Japão. Imprensa internacional ironiza. Versões diferentes dadas pela Presidência contribuem para confusão. Por Luis Leiria.
Bolsonaro chega ao Japão. Foto de Alan Santos/PR
Bolsonaro chega ao Japão. Foto de Alan Santos/PR

O general Santos Cruz bem tinha avisado: “Todo o dia tem uma bobagem”, disse, em entrevista à revista Época, uma semana depois de ter sido demitido da Secretaria de Governo da Presidência.

Mas nem o próprio general, que presenciou de dentro o “show de besteiras” da gestão Bolsonaro, estaria à espera da cacofonia emitida por diversas fontes, todas oriundas do Palácio do Planalto, em torno do episódio da prisão, na terça-feira 25, de um sargento da Força Aérea do Brasil (FAB) com 39 quilos de cocaína, no aeroporto de Sevilha. O sargento, identificado como Manoel Silva Rodrigues, integrava a tripulação de um avião de apoio à viagem do presidente Jair Bolsonaro ao Japão.

A droga foi encontrada numa mala transportada pelo militar e “não estava nem mesmo escondida entre as roupas”, disseram fontes da Guardia Civil ouvidas pelo El País Brasil.

Ausência de rigor

A partir daqui, “nenhum relato exato sobre o que aconteceu em Sevilha está disponível”, constata o jornal Folha de S.Paulo.

Mourão disse que o sargento iria no voo de regresso, mas depois recuou. Foto de Valter Campanato - Agência Brasil
Mourão disse que o sargento iria no voo de regresso, mas depois recuou. Foto de Valter Campanato - Agência Brasil

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou na manhã de quarta 26 que Manoel Silva Rodrigues fazia parte de uma tripulação que ficaria na cidade da Andaluzia para esperar Bolsonaro voltar do Japão.

O presidente Jair Bolsonaro, no Twitter, apressou-se a esclarecer que nada tinha a ver com o sargento-traficante: “Apesar de não ter relação com minha equipe, o episódio de ontem, ocorrido na Espanha, é inaceitável. Exigi investigação imediata e punição severa ao responsável pelo material entorpecente encontrado no avião da FAB.”

Ainda segundo a Folha, o presidente ficou agastado com a versão de Mourão de que o sargento iria embarcar no mesmo avião que ele nalgum momento da viagem.

Uma nota do Ministério da Defesa esclareceu que “o militar em questão não integraria, em nenhum momento, a tripulação da aeronave presidencial, uma vez que o retorno da aeronave que transporta o presidente da República não passará por Sevilha, mas por Seattle, Estados Unidos”.

Horas depois, Mourão recuou e declarou que o sargento não embarcaria no voo do avião presidencial no regresso ao Brasil. Mas até agora não foi possível saber quantos dos 21 integrantes da tripulação do avião de apoio à viagem presidencial desembarcaram em Sevilha, e por que motivo.

Pela quantidade de droga que o cara tava levando, ele não comprou na esquina e levou, né? Ele estava trabalhando como mula

Mourão disse ainda que “pela quantidade de droga que o cara tava levando, ele não comprou na esquina e levou, né? Ele estava trabalhando como mula. Uma mula qualificada, vamos colocar assim”.

Entretanto, soube-se que depois do episódio, o avião presidencial mudou a rota e em vez de fazer escala em Sevilha, parou em Lisboa. O gabinete de imprensa do presidente não explicou o motivo da alteração do plano de voo.

A tentativa de Bolsonaro traçar um cordão sanitário à sua volta em relação ao sargento falhou em poucas horas: ainda na quarta-feira, a revista Veja divulgou que o mesmo Manoel Silva Rodrigues acompanhara o presidente em viagem de Brasília a São Paulo, em 27 de fevereiro, após a segunda cirurgia a que foi submetido devido à facada de que foi vítima durante a campanha.

Aerococa”

UM Vc2 Embraer 190 da FAB semelhante os usado pela tripulação de apoio à comitiva
UM Vc2 Embraer 190 da FAB semelhante os usado pela tripulação de apoio à comitiva

A imprensa internacional reagiu com estupor a mais este episódio inconcebível envolvendo o governo Bolsonaro. Sob o título “Brésil : Bolsonaro secoué par l’affaire de l’« Aerococa », après la découverte de 39 kg de cocaïne dans un avion officiel” (Brasil: Bolsonaro abalado pelo caso do «Aerococa», depois da descoberta de 39 kg de cocaína num avião oficial), o jornal francês Le Monde sublinhou que o sargento não fazia a sua primeira viagem presidencial, tendo acompanhado o presidente “várias vezes”. E reproduziu os “memes” que não demoraram a percorrer a net ironizando o episódio, como o que anunciaria a nova série do Netflix “Bolsonarcos”.

O The New York Times alinhou no tom irónico: “Pó branco, rostos vermelhos: a carga de cocaína a bordo do avião presidencial de Bolsonaro”, foi o título que escolheu.

"Meme" reproduzido pelo Le Monde
"Meme" reproduzido pelo Le Monde

Já o britânico Financial Times, em tom mais sério, não deixa de considerar a prisão do sargento “um golpe para o direitista sr. Bolsonaro, cujo governo está a tentar endurecer a legislação sobre drogas e que frequentemente elogia as Forças Armadas.” O diário recorda que o filho do presidente Eduardo Bolsonaro acusou recentemente o governo venezuelano de ser uma “narcoditadura” por fazer tráfico de drogas nos aviões militares. E regista que a detenção do sargento ocorreu no mesmo dia em que o ministro da Justiça e ex-juiz Sérgio Moro estava de visita à Drug Enforcement Agency dos Estados Unidos.

Marcelo Freixo: "ir para o andar de cima”

Para o deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL, “o episódio é muito grave e precisa ser esclarecido, mas pode ser um caso isolado e não é possível responsabilizar o presidente”.

Mas Freixo aproveitou para insistir que o caso “mostra o erro de se insistir na política de guerra às drogas nas favelas brasileiras, vitimando os pobres. O tráfico de armas e drogas movimenta fortunas no mundo todo e envolve poderosos. É preciso seguir o dinheiro, ir para o andar de cima.”

Ministro do Turismo sob pressão

Entretanto, para não desmentir o general Santos Cruz citado no início deste artigo, o “show de horrores” continua para o governo. Com autorização da Justiça, a Polícia Federal deteve o braço-direito do atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio, e outros dois ex-assessores, acusados de montar o esquema dos “laranjas” do PSL, partido do presidente Bolsonaro, no estado de Minas Gerais. Candidatos laranjas são aqueles que apresentam formalmente a sua candidatura para receber dinheiro público; não fazem campanha e repassam a verba recebida para o partido, que o usa de outra forma. Neste caso, as laranjas foram todas candidatas mulheres, que recebiam verba devido à lei que impôs uma cota de mulheres nas candidaturas dos partidos.

A Polícia Federal deteve o braço-direito do atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio, e outros dois ex-assessores, acusados de montar o esquema dos “laranjas” do PSL em Minas Gerais

As prisões voltam a pôr pressão sobre o ministro, que parecia estar a conseguir escapar de uma possível demissão porque a investigação do caso não avançava. Em nota oficial, o PSL acusou a Polícia de fazer “uma investigação seletiva, com o objetivo de atingir o partido ao qual o presidente da República é filiado, embora ele não tenha nada a ver com isso.”

No país que mantém preso o ex-presidente Lula, e depois das recentes denúncias de parcialidade evidente e de cooperação ilegal entre o juiz Sérgio Moro e a acusação a Lula, falar de “investigação seletiva” ao PSL só pode ser uma piada de muito mau gosto.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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