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25 de Abril: seis meses antes

O esquerda.net republica as "Recordações da Casa Vermelha" de João Martins Pereira – um conjunto de recortes e memórias dos meses que precederam a Revolução, publicado na revista Combate nos 20 anos do 25 de Abril.
As "Recordações da Casa Vermelha" recolhidas por João Martins Pereira em 1994.

Já chega do que “eles” disseram e hoje não voltariam a dizer. Vamos agora mais atrás, ao “antes da casa vermelha”, em contagem decrescente até ao “mês zero”: Abril de 1974. Factos, histórias, episódios, previsões. O que já se ia anunciando, nas entrelinhas da incerteza – ou nas certezas que raramente se confirmam.

 

Recordações da Casa Vermelha

Mês –6: Outubro 1973

GRANDES TEMAS

 

COLÓNIAS/GUERRA COLONIAL

– Créditos americanos para Moçambique comprar um Boeing

– Protestos da Ass. Comercial de Lisboa: o problema dos “atrasados” (isto é, dos atrasos de pagamento das colónias aos fornecedores “metropolitanos”) só beneficia os exportadores estrangeiros

– A guerra continua, mas o MFA já está em marcha, polarizado contra o decreto (de Julho) que facilita a integração dos oficiais milicianos no Quadro Permanente. Os “camaradas da Guiné” rejeitam a ideia de que se “ofenda o prestígio militar, reduzindo a Academia [Militar], em comparação com as de West Point ou Telavive, a um centro de formação profissional acelerada”. Devagar se vai ao longe

– Proclamada a República da Guiné-Bissau (Setembro), o Ministro Rui Patrício diz, na ONU, que a “Nação Portuguesa caminha para um grande Estado euro-africano com predomínio político da minoria preta” (??!!).

ELEIÇÕES EM PORTUGAL

– Não se repete 1969: a CDE desiste nas vésperas das eleições, a “ala liberal” não se apresenta desta vez

– Média de idades dos deputados da ANP é de 50 anos: a política é para gente madura, de lealdade bem comprovada (era o que eles pensavam…)

– De resto, o costume: sessões da CDE impedidas pela polícia, coladores de cartazes detidos, etc.

GUERRAS ISRAELO-ÁRABE (DITA “DO YOM KIPPOUR”)

– Iniciada este mês, ainda indecisa. Já muito se fala, mas como hipótese pouco provável, da utilização pelos países árabes da “arma do petróleo”. Mal se adivinhava o “1º choque petrolífero” que aí vinha, o verdadeiro parto do mundo que hoje temos. Em 1975, os países industriais conhecerão pela primeira vez em longos anos o “crescimento negativo”. Mesmo sem terem tido nenhuma revolução.

 

FIGURAS

– General Spínola – recebe a Torre e Espada, por “feitos no Ultramar”

– M. J. Homem de Mello – reconduzido nas listas da ANP, sinal de inequívoco “marcelismo político”

– Veríssimo Serrão – novo reitor da Universidade Clássica de Lisboa. Diz na posse ser a Universidade “uma casa aberta ao ideal de cultura” (e aos gorilas, viu-se depois), e que “quem pretender travar lutas políticas, que o faça onde a lei lhe permite” (onde seria?).

 

CURIOSIDADES

– Veiga Simão (Ministro da Educação) prevê que em 1979 estará cumpridas a meta da escolaridade obrigatória fixada na Reforma Educativa.

– Uma sondagem-EXPRESSO indica que as maiores preocupações “dos portugueses” são “os hospitais, a inflação e a Previdência” (antes do “Ultramar”, da participação política e do Mercado Comum).

– Face aos problemas de trânsito, um jornalista interroga-se: “Estará à vista o princípio  do fim do automóvel particular?”

– Outro, sobre o Médio-Oriente, diz que “esta guerra ameaça tornar-se num 2º Vietname”.

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