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116 presos em protesto contra feira internacional de venda de armas em Londres

Vários grupos de defesa dos direitos humanos e a favor da paz estão a protestar contra a realização de uma feira internacional de venda de armas em Londres. Contestam o apoio governamental a um evento promotor da guerra e em que estão presentes regimes que violam os direitos humanos.
Manifestantes contra a venda de armas.
Manifestantes contra a venda de armas. Foto de Stop the Arms Fair! Twitter.

É a maior feira de venda de armas da Europa e cresceu 7% desde a sua última edição. 35 mil delegados e expositores de 68 delegações internacionais convidadas estarão presentes a partir da próxima terça-feira na zona das antigas docas de Londres. 1700 fabricantes de armas tentarão fazer negócios com estas delegações que incluem Israel e a Arábia Saudita. A Arábia Saudita estará presente apesar de um tribunal britânico ter declarado ilegal a venda de armas para aquele país utilizar na guerra do Iémen. E os israelitas, responsáveis pela ocupação da Palestina, não são apenas compradores: 32 empresas deste país estão entre os vendedores.

O governo de Boris Johnson apoia a iniciativa resolutamente. Liz Truss, secretária de Estado do comércio internacional e Ben Wallece secretário de Estado da defesa, vão ser oradores. Fleur Thomas, quadro dirigente do gabinete de exportações do Ministério da Defesa, apresentou a iniciativa e regozijou-se com “o futuro muito brilhante” do “setor da defesa” no país.

Quem não está satisfeito são as organizações defensoras dos direitos humanos e contra a guerra. Os protestos que organizaram anteciparam-se ao início do evento. Há uma semana que todos os dias têm havido concentrações à porta do centro de exposições. E das tentativas de bloqueio de estradas resultou a prisão de pelo menos 116 manifestantes.

As críticas à feira acontecem também porque se promove a venda de armas a regimes que, na própria avaliação do governo britânico, são problemáticos do ponto de vista do cumprimento dos direitos. Há oito delegações que têm o estatuto oficial e especial de convidadas que foram assim classificadas pelo Gabinete dos Assuntos Estrangeiros do Reino Unido. Para além de Israel e da Arábia Saudita, estarão presentes o Bharein, Bangladeche, a Colômbia, o Egito, o Paquistão e o Uzbequistão. Tinha sido também convidada uma delegação de Hong Kong, o que gerou polémica devido à possível compra de armas para repressão dos protestos populares, mas depois acabou por ser comunicado que afinal não iria comparecer. Alguns manifestantes do território têm exibido latas de gás lacrimogéneo fabricadas pela empresa britânica Chemring depois de terem sido utilizadas pela polícia.

Andrew Smith, da Campanha Contra o Comércio de Armas, resume assim esta questão: “vai-se fazer a chamada aos regimes mais repressivos do mundo junto com as maiores empresas de armas. E vão todos estar cá por uma razão: vender o máximo de armas possível, apesar das consequências.”

O mayor de Londres, o trabalhista Sadiq Khan, juntou a sua voz ao protesto. Em carta ao diretor da feira, revelada pelo jornal The Independent, escreveu que “oponho-me fortemente a este evento que acontece em Londres.” Recordou que Londres é “o lar de pessoas que fugiram de conflitos e sofreram como consequência do uso de armas como as expostas no DSEI” e garantiu que “de forma a representar os interesses dos londrinos, aproveitarei qualquer oportunidade disponível para impedir que este evento aconteça nas Docas Reais em anos futuros.”

A Amnistia Internacional é outra das vozes contra a feira internacional do armamento. Aproveitou a data do evento para tornar público um relatório, intitulado Outsourcing Responsability no qual pretende responsabilizar as empresas que vendem armas, como a Airbus, a BAE Systems, a Boeing, a Lockheed Martin, a Raytheon e a Rosoboronexport, sobre o seu uso em guerras e na repressão de civis em violação dos direitos humanos.

A Amnistia contactou com 22 grandes empresas de fabrico e venda de armas e concluiu que “nenhuma das empresas que responderam foi capaz de explicar adequadamente como lidam com as suas responsabilidades para com os direitos humanos ou demonstrar diligências adequadas e 14 não responderam de todo.” As empresas de armamento “escapam amplamente ao escrutínio”, explicou Patrick Wilcken, investigador da questão do armamento na AI.

 

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