100.000 euros por dia: salário de Carlos Tavares é escândalo em França

19 de abril 2024 - 13:31

O presidente da Stellantis foi aumentado para verbas consideradas obscenas pelos sindicatos. Romaric Godin ajuda-nos a compreender a função social deste tipo de remunerações.

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Carlos Tavares em Genebra em 2018. Foto de Alexander Migl/wikimedia commons.
Carlos Tavares em Genebra em 2018. Foto de Alexander Migl/wikimedia commons.

Carlos Tavares, o presidente português do grupo de fabricantes automóveis Stellantis, que surgiu com a fusão da Chrysler, Fiat e PSA, vai ter um aumento da remuneração potencial para 36,5 milhões de euros relativos a 2023. A concretizar-se serão 100.0000 por dia. Isto corresponde a um crescimento de 35,6% face ao ano anterior e 47,9% face a 2021.

A central sindical francesa CGT contrasta isto com o aumento médio dos salários no mesmo período para os trabalhadores, de 3,7%, que ficou abaixo da inflação, significando assim uma perda de poder de compra, e com a redução do número de trabalhadores em 8,8%. Ou seja, mais de 26.000 postos de trabalho foram cortados pelo administrador agora recompensado.

O próprio responde a este tipo de críticas em tom de desafio: “se acham que não é aceitável, façam uma lei e modifiquem a lei e eu respeitarei”. Joga ainda a cartada da “inveja” que estaria na base da contestação e do “mérito” já que “90%” do salário seriam “resultados da empresa”, o que “prova” que estes “aparentemente não são muito maus”.

Romaric Godin, especialista de Economia no Mediapart, questiona o papel destes “salários astronómicos” na organização social e económica atual. Para além da expressão de “desigualdade social”, começa por notar que “ninguém no mundo pode ter “necessidade” de um tal salário”, ainda para mais quando grande parte das suas despesas quotidianas são faturadas à empresa. Assim, há uma “função simbólica” porque “é o poder de compra que traduz a potência social numa sociedade regulada pela mercadoria”. Estes salários mostram quem detém as rédeas do poder.

Apesar de se inscrever oficialmente como salário, a remuneração de Carlos Tavares deve ser compreendida como “próxima dos detentores do capital”. O seu salário “distingue-se fortemente” do dos trabalhadores, sendo fundado nos mesmos critérios da remuneração do capital. Ou seja, é “um agente do capital” com remuneração “equiparada à dos acionistas”.

Com a financeirização da economia, a propriedade do capital apresenta-se “mais difusa” e “concentra poderes” em alguns “assalariados” que se tornam tão “centrais” como os capitalistas clássicos.

Assim, o salário de Tavares “não é apenas um escândalo moral mas também e sobretudo um lembrete do mecanismo profundo de dominação no qual nos encontramos”. O que estes dirigentes entendem por “mérito” é a capacidade de produzir lucro. A sua remuneração obedece à lógica da acumulação de capital e está portanto ligada às limitações salariais dos trabalhadores e à supressão de postos de trabalho.

O apelo ao “mérito” com o qual se justificam as verbas exorbitantes pagas a este administrador de empresas só poderia funcionar se acreditássemos que aquele aumento de lucros é apenas dependente da sua ação. No caso de Tavares, teríamos de esquecer questões como a procura de automóveis ou o nível tecnológico da produção, já para não falar em toda a cadeia de trabalho subjacente às suas decisões. Seria também preciso esquecer que as empresas que formaram a Stellatis “beneficiaram todas ao longo da década passada de resgates dos Estados”, tendo havido igualmente “ajudas massivas do setor público à produção desde a crise sanitária”. Já para não falar nos apoios às famílias que permitiram manter o nível de consumo.

Aliás, “não é nem um acaso nem fruto da estratégia de Carlos Tavares” que “o essencial dos lucros” deste conglomerado se tenha concretizado nos EUA, mas porque aquele Governo “injetou perto de um quarto do PIB na economia desde 2020”. Outro elemento negligenciado é o pagamento de impostos. Em 2023, o grupo apenas pagou 16,9% do seu lucro operacional em impostos.

O crescimento da remuneração de Tavares é ainda “fundado no curto prazo”, ignorando-se as suas consequências a médio e longo prazo. Colocando-se questões ao nível estratégico como, por exemplo, o atraso das multinacionais ocidentais no desenvolvimento de veículos elétricos que pode resultar num “dilúvio” de carros elétricos chineses no mercado.

Romaric Godin defende ainda que este caso “traduz também a desconexão do capital da realidade vivida da economia” que vive um momento de preços altos e baixos salários.

O especialista conclui que esta remuneração “recompensa uma lógica que hoje está num impasse”, a de que o lucro resolverá tudo. E sublinha que “a questão do salário dos dirigentes das multinacionais é importante” porque “é sistémica” pelo que “a resposta só pode ser da mesma natureza”.