Em 1910, Clara Zetkin propôs o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas. Em 1911 realizaram-se as primeiras marchas de mulheres alusivas ao 8 de Março. Desde aí já passaram 100 anos mas a luta feminista tem mais de um século. Que balanço podemos fazer entre o que foi feito e o que está por fazer?
Um século de lutas feministas é algo para nos fazer pensar. Pensar porque é que, sendo este o século das mulheres, como dizem algumas historiadoras e historiadores, nós continuamos ainda a reivindicar direitos que, por exemplo, as feministas republicanas falavam deles. A Carolina Beatriz Ângelo reclamava iguais salários para mulheres e homens em 1911, e nós, hoje, 100 anos depois, continuamos a ter grandes discriminações salariais entre mulheres e homens. E continuamos a ter não apenas na base daquilo que se dizia antigamente – que existia uma diferença de qualificação entre mulheres e homens – mas até nas novas gerações que são as mais qualificadas sede sempre. Os rapazes e as raparigas saem das universidades, elas muitas vezes com classificações muito superiores às deles, mas depois, em termos salariais e de acesso ao mercado de trabalho elas são muito mais penalizadas. Hoje, a precariedade atinge toda uma geração, mas atinge fundamentalmente as jovens mulheres. E isto tem efeitos colaterais no destino das suas vidas, até nas situações de assédio sexual. Sobre este assunto estamos hoje, na prática, a fazer com que algumas bandeiras das feministas dos anos 60 e 70 passem para a nossa agenda política, porque, ao longo de 30 anos estivémos envolvidas na luta pela despenalização do aborto.
Ora, houve muitas causas que ficaram para trás, como a violência de género – que só nos anos 90 entrou na agenda política. Hoje procuramos que as questões sobre o assédio sexual também entrem na agenda pública e sejam desocultadas. Nós hoje falamos sobre as questões ligadas ao mercado de trabalho, como as discriminações em função da maternidade, nos salários e no acesso às carreiras profissionais, e as tais situações ocultas relacionadas com os assédios nos locais de trabalho - que têm a ver com a hierarquia, sobre quem tem poder sobre aquela pessoa e estão relacionadas com a impossibilidade de levantar a voz, de libertar essa voz oprimida.
Nós hoje encontramos bandeiras de lutas que são velhas causas tornadas novas, com novos contornos, com novas abordagens. Por isso não nos desmoraliza o facto de termos de continuar a batalhar para lá destes 100 anos de história. Isso faz parte da evolução das lutas e dos próprios movimentos sociais. Muitas conquistas consideradas adquiridas estão hoje em causa.
Considero que, apesar das grandes fragilidades que houve em Portugal, houve realmente feminismos – é isso que digo no meu livro ou pelo menos faço essa prova – houve uma agenda feminista e movimentos que se empenharam na luta pelos direitos das mulheres. E isto irá ter continuidade com as novas gerações. Há aquela questão habitual – passados 100 anos tem razão de ser sermos feministas? – é um facto que tem toda a razão de ser. Aquelas jovens que se sentem discriminadas nas escolas, tendo até notas superiores às dos seus colegas, etc, começam a aperceber-se de situações de violência no namoro, depois de dificuldades no acesso a uma carreira profissional, quando ganham consciência – é como tenho dito – acabam por dizer que são mesmo feministas.
No próximo dia 15 de Março será lançado o seu novo livro Feminismos. O que poderemos encontrar neste livro?
Penso que poderemos encontrar uma outra visão da história das mulheres, entrelaçada com a história dos movimentos sociais, com a das lutas das mulheres, durante 60 anos em Portugal. Não se trata apenas de analisar a evolução histórica mas também de pensarmos o futuro, de reflectirmos sobre porque é que em Portugal se diz que não houve movimento feminista, porque demorou tanto tempo a luta pela despenalização do aborto, porque é que continuamos a dizer que o feminismo não é bem amado, que queima ainda. Há um conjunto de questões que procuro dar reposta neste livro, também através das entrevistas que fiz e de um questionário dirigido a alunas e alunos do 12.º ano das escolas do concelho de Almada e Viseu.
Mas há coisas novas que encontrei e que me entusiasmaram muito nesta investigação, como o entender que este medo dos feminismos que ainda existe, até para muitas mulheres, não se reflecte nas jovens raparigas e nos jovens rapazes, não lhes faz confusão. Quando lhes perguntamos o que são os feminismos respondem que é a luta pelos direitos das mulheres, ou seja, esta questão está identificada para eles e sem nenhuns complexos ou medos. Creio que é a minha geração que ficou mais marcada por esses medos porque o feminismo foi negativamente estereotipado, nunca foi encarado de modo abrangente, na sua pluralidade de correntes. Noto que nos e nas jovens da actualidade esses medos não existem, mesmo não havendo grande consciência de início. Isto foi para mim uma novidade.
No entanto, prevalece um certo modelo maternalista na sociedade portuguesa, assente na ideia de que são as mulheres que sabem cuidar dos filhos e que têm de assumir plenamente a maternidade sem haver uma paternidade devidamente assumida também.
Já nos termos da história concluo que houve um corte de memória histórico entre os feminismos do tempo da República e os mais contemporâneos, em particular os que seguiram o 25 de Abril. Muitas mulheres como eu, enquanto jovens, participámos nos movimentos sociais sem ter muito a ideia do que seriam os feminismos. Actuávamos junto das mulheres sem termos consciência de que éramos feministas e de que o que fazíamos era feminismo. Foi preciso uma reflexão sobre o passado e sobre estes momentos de luta, com a ajuda de alguns instrumentos teóricos, para conseguir entender estas questões. Portanto, para mim, este livro foi também um encontro comigo mesma, foi pensar sobre uma geração que é a minha. Entendo agora que este corte de memória histórico não resulta apenas do regime fascista e autoritário, como foi o Estado Novo, assente na imagem ideológica de submissão das mulheres. As próprias oposições tiveram um caminho de naturalização das mulheres, atribuindo-lhes sempre um papel muito de retaguarda, nos apoios às famílias, por exemplo. Podemos dizer que a clandestinidade em Portugal acabou por ter grandes obreiras que foram mulheres anónimas (algumas entrevistei-as), sem visibilidade, mas que foram o sustentáculo da rede clandestina da oposição. Aliás, as oposições não estavam preparadas para entender a multiplicidade dos feminismos e por isso muitas causas ficaram subalternizadas, seja por acção das próprias organizações ou devido às condições objectivas que empurravam para isso. A seguir ao 25 de Abril onde estávamos nós? Estávamos na luta pelo trabalho, pelas creches, pela educação, enquanto outras lutas mais específicas ficaram um bocadinho de lado. Devido a esta marginalização os movimentos feministas nunca tiveram muita força para se implantar.
Penso que o principal contributo deste livro é mostrar que existiu movimento feminista em Portugal, na sua pluralidade de correntes, e a acção de muitas mulheres que contribuíram para a visibilidade disso mesmo. Na prática, este livro abriu-me a mente a mim e irá abrir a mente de outras pessoas com certeza. Porque há um estereótipo colocado nestas questões e nestes movimentos que pode ser desconstruído, mostrando-se que os feminismos podem ser plurais, que cada vez mais a agenda feminista se entrelaça com a agenda de outros movimentos sociais e que na actualidade se pode defender uma corrente feminista de agência ou de intervenção social. Nesta corrente entrelaça-se o feminismo de esquerda, marxista e não-dognmatizado, algumas noções do feminismo pós-moderno (à parte das considerações que entram em contradição com a existência de um sujeito político feminista) e do feminismo radical.
Neste livro faço uma ponte entre o passado, tentando compreendê-lo, e o futuro, com a ajuda de muitas reflexões conjuntas com outras companheiras da UMAR. O facto de eu me ter atrevido a fazer uma certa reconfiguração das correntes do feminismo ou a pôr essa reconfiguração como hipótese, isto já é um pequeno passo para o futuro, onde há uma distinção entre o feminismo institucional-liberal, um neo-conservador (que no nosso país ainda não tem grande expressão, ao contrário dos países nórdicos) e um feminismo de agência onde várias mulheres se podem encontrar, apesar das suas correntes ideológicas, desde que se posicionem à esquerda, até porque é essa a raiz do feminismo (embora o diálogo entre o feminismo e a esquerda tenha sido bastante atribulado ao longo dos tempos). Mas esta nova corrente que chamo de feminismo de agência poderá proporcionar esse reencontro necessário com a esquerda. As ideias da pós-modernidade também não ficam de lado até porque elas ajudam a desconstruir a ideia de um feminismo branco, de classe média ou sem diferenciação entre classes sociais, mostrando que as mulheres são muito diferentes em termos de etnias, classes sociais, orientações sexuais, etc.
Uma corrente onde tudo isto se possa misturar, numa agência feminista muito ligada a outros movimentos sociais poderá ser uma abertura para que possamos ter no futuro novas gerações empenhadas na luta feminista.
Que desafios se colocam ao movimento feminista na actualidade?
Hoje o movimento feminista enfrenta vários desafios. No campo teórico, nos termos da reconfiguração das correntes do feminismo, do debate que está por fazer e que é muito importante que seja feito. Por exemplo, o debate sobre a tal corrente de agência de que falei, que poderá fazer confluir nela as feministas radicais, as marxistas não-dogmáticas e as da pós-modernidade. Mas esse debate será estéril se não se ligar aos activismos, às experiências vividas no dia-a-dia e às reflexões que podemos fazer sobre elas.
Um outro desafio é responder à questão sobre como poderão as jovens raparigas identificar-se com esta causa, e também os jovens rapazes que também podem ser feministas, e entender que esta luta de um século não está concluída. Precisamos de ver como abordar antigas e novas causas numa perspectiva feminista.
Um terceiro desafio traduz-se na compreensão de que o feminismo não é algo guetizado, marginalizado, tem antes de se cruzar numa visão holística do mundo e dos movimentos sociais. Este cruzamento é fundamental. Além disto, continuo a afirmar que há a necessidade da existência de associações de mulheres. Mas estas associações, e uma agenda feminista que deve preservar a sua autonomia e identidade, têm de se cruzar com a dos outros movimentos sociais. Alguns passos já foram dados, com os fóruns sociais, por exemplo, embora agora com alguns retrocessos. Podemos dizer que foram dados passos porque há algum tecido, algumas teias que se começaram a construir. Mas elas precisam de ser mais fortes.
Entrevista por Sofia Roque.