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“Ministro faltou à verdade ao parlamento”

Francisco Louçã acusou Miguel Relvas de ter faltado à verdade ao parlamento, referiu que o ministro “está numa situação insustentável” e sublinhou que o essencial neste caso é que “um responsável dos serviços secretos sai para uma empresa privada e continua a ter acesso e a distribuir informação dos serviços secretos”. Alertou ainda que “esta situação não pode continuar. Portugal não pode perder tempo”.
Miguel Relvas mentiu no Parlamento - Foto de Mário Cruz da Lusa

Neste sábado, diversas notícias em vários órgãos da comunicação social dão novos dados sobre o caso das secretas, depois de nesta sexta feira Adelino Cunha, adjunto do ministro Miguel Relvas se ter demitido por ter continuado as relações com Jorge Silva Carvalho, quando já exercia funções no gabinete ministerial de Miguel Relvas.

Segundo os jornais “Expresso”, “Diário de Notícias” e “I” deste sábado, o ministro dos Assuntos Parlamentares encontrou-se com o ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas da Defesa (SIED), pelo menos, três vezes. O primeiro desses encontros juntou também o diretor da Unidade nacional de contra-terrorismo da Polícia Judiciária, Luís Neves.

Outro encontro, foi um almoço a quatro que juntou Jorge Silva Carvalho, Miguel Relvas, Nuno Vasconcelos, patrão da Ongoing, e José Brás da Silva, dono da Finertec, empresa em que Miguel Relvas era administrador até ir para o Governo.

Em 19 de maio de 2011, duas semanas antes das eleições legislativas, Jorge Silva Carvalho sugeriu a Miguel Relvas, por sms, o nome de Luís Neves para dirigir o SIS (Serviço de Informações de Segurança) e também: João Pereira Bicho para diretor do SIED, Filomena Teixeira para sua adjunta e Paula Morais para número dois do SIS. Filomena Teixeira é uma funcionária das secretas, e João Pereira Bicho era também um funcionário das secretas, recentemente exonerado.

O jornal Expresso salienta quatro contradições de Miguel Relvas nas declarações que fez na Assembleia da República:

1. O ministro afirmou então: “Nunca recebi nenhum relatório de reestruturação de serviços, não tenho nenhuma relação estreita com Jorge Silva Carvalho, nunca foi meu conselheiro nesta área, nem tinha de ser porque esta não é matéria que eu acompanhe”. Porém, isso não bate certo com as reuniões havidas e com as sugestões do espião.

2. Disse que só conhecia Jorge Silva Carvalho desde abril de 2010 e, desvalorizando as informações que recebia do espião, citou o primeiro clipping que recebeu: uma notícia da Reuters sobre a visita de George Bush ao México. A notícia é de 2007 e não existe nenhuma outra posterior a essa data.

3. O ministro afirmou que nem ele, nem membros do seu gabinete tinham contactos com o espião, mas nesta sexta feira o seu adjunto Adelino Cunha demitiu-se por ter sido conhecido que manteve vários contactos com Silva Carvalho já depois de ter rebentado o escândalo.

Na comissão parlamentar, a deputada Cecília Honório do Bloco de Esquerda perguntou por duas vezes se o ministro ou alguém do seu gabinete recebia informações ou tinha ligações à questão das secretas. “Era importante que fosse muito claro e dissesse que nem o senhor nem alguém próximo de si, nomeadamente no seu gabinete, não tem de facto contacto com o ex-diretor do SIED, nem tem de facto recebido informação que não seria da vossa competência, e não tem qualquer responsabilidade em matéria de serviços de informações”, questionou a deputada.

Perante a falta de resposta, Cecília Honório insistiu: “Volto a perguntar: o senhor, desde que é ministro não tem contactos, nem informações particulares, nem qualquer espécie de responsabilidade sobre serviços de informações? Nem o senhor ministro nem ninguém do seu gabinete mexe naquilo que diz respeito aos serviços de informações?”.

Miguel Relvas respondeu: “Não, não, não, não e mais um não”.

4. O ministro afirmou que as sugestões que recebeu de Jorge Silva Carvalho não envolviam nomes de funcionários das secretas, o que é mentira.

O jornal salienta que o ministro foi questionado se eram pessoas dos serviços e alertado pela deputada do PS Isabel Oneto de que se fossem pessoas dos serviços se tratava de violação de segredo de Estado, uma vez que a identidade dos funcionários desses serviços é segredo de Estado, afirmou. “Não eram agentes, eram pessoas para responsabilidades, para lugares de topo, que não eram agentes (…) Aqui não há segredos de Estado”. Ora, dois dos nomes sugeridos por sms eram de dois funcionários das secretas: Filomena Teixeira e João Bicho. O ministro mentiu.

Francisco Louçã nesta sexta feira na Trofa, onde esteve numa sessão de lançamento do núcleo do Bloco de Esquerda local, afirmou que o ministro faltou à verdade, que se encontra numa situação insuportável e que o ministro tem de ir rapidamente ao parlamento.

"Quando perguntamos se do seu [do ministro Miguel Relvas] gabinete tinha havido contactos com aquele homem que saiu da espionagem para se dedicar a um alto cargo de uma empresa mas que continuava a ter os documentos do serviço de espionagem sabíamos o que estávamos a perguntar", disse o deputado so Bloco, salientando que “o que o ministro respondeu”, que não havia contactos do seu gabinete com Silva Carvalho, "era falso".

Francisco Louçã afirmou ainda que "a posição do ministro é hoje insuportável", que o país "não pode continuar a perder tempo com tramoias e intrigas" e que "esta situação acabará quando o ministro for ao Parlamento" mas que a "conclusão política a tirar desta situação é que o Governo se intriga a si próprio".

Neste sábado, à margem de uma visita à Feira do Vinho de Monção, Francisco Louçã declarou: “Esta situação não pode continuar. Portugal não pode perder tempo. Portugal não é uma telenovela. Não queremos ser entretidos, queremos soluções, respostas, coragem".

O coordenador da comissão política do Bloco lembrou “que está cá a troika a fazer um exame, a exigir o fecho de hospitais” e o corte de subsídio de férias a centenas de milhares de famílias, salientou que “há quase 200 mil famílias que já não conseguem mês pagar o crédito de habitação” e frisou: “Temos de sair da intriga e preocuparmo-nos com o essencial que é a economia das pessoas, o emprego o respeito pelas pessoas”.

Questionado sobre a notícia do Expresso acerca da hipotética saída de coordenador da comissão política do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã referiu que “o Expresso não se lembrou de me telefonar e eu tenho tanta pena” e afirmou que está “incansável na luta que precisamos para a esquerda”. Referiu que neste sábado estava no Alto Minho , “porque é preciso defender a agricultura e defender a economia das pessoas”, “daqui a uma semana exatamente estarei a discursar em Frankfurt no Congresso do partido da Esquerda alemã e daqui a pouco tempo estarei em Atenas na campanha para que haja o primeiro governo da esquerda que possa rejeitar a troika”. Reafirmou ainda: “Vou pôr todas as minhas forças, como é assim com o Bloco inteiro, para combater esta troika que nos está a destruir para trazer uma solução para a Europa uma esperança para a Europa e tenho muita convicção de que se vai vencer essa batalha”.

Aceda a Destaque: Miguel Relvas: de homem-forte a elo mais fraco do Governo

Notícia atualizada às 19.50h.

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