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Índia: o quotidiano da violência sexual

Vítima de violência sexual, em estado vegetativo há 37 anos, levanta na Índia a questão da eutanásia. Mas a violência sexual, na Índia, é uma coisa tão comum, inserida no quotidiano, que já não é capaz de causar indignação.
Aruna Shanbaug, que se encontra hospitalizada, em estado vegetativo, há 37 anos, foi vítima de violência sexual no hospital onde trabalhava como enfermeira.

A violência sexual, na Índia, é uma coisa tão comum, inserida no quotidiano, que já não é capaz de causar indignação. Provavelmente, na maioria dos casos, causa apenas curiosidade, devido aos métodos utilizados ou à idade das pessoas envolvidas.

Particularmente, não é um assunto ao qual goste de me dedicar, mas alguns casos são tão bárbaros que nos obrigam a conhecê-los. É possível afirmar, sem a menor possibilidade de erro, que, invariavelmente, todos os dias, ocorre algum tipo de violência sexual na Índia. Muitas vezes, a violência sexual não fica registada pelo facto de as vítimas temerem a vergonha de ter passado por essa constrangedora situação.

Nas últimas semanas ganhou os noticiários o caso de uma jovem que, além de ter sido violentada por um parlamentar, ainda foi acusada de roubo e metida na cadeia. Ou seja, foi vítima duas vezes. Há meses atrás, foi o caso de um ancião de setenta anos que violentou a vizinha devido às desavenças com o marido desta.

Não são poucos os casos da violência exercida pela polícia indiana no interior do país. Em particular, pelos paramilitares, utilizados na guerra contra as milícias maoístas, que implementam a Guerra Popular em vários estados do país. Crianças, jovens e idosas não escapam à violência sexual reinante e impune.

Caso de Aruna Shanbaug levanta a questão da eutanásia

Mas chocou-me profundamente ver a foto de Aruna Shanbaug, que se encontra hospitalizada, em estado vegetativo, há 37 anos. Aruna foi vítima de violência sexual no hospital onde trabalhava como enfermeira. No dia 27 de Novembro de 1973, Aruna foi atacada dentro do hospital e sodomizada. Foi atacada com uma corrente de cão, utilizada para asfixiá-la. A asfixia causou uma lesão cerebral e a perda da visão. Desde então, Aruna encontra-se hospitalizada em situação vegetativa no King Edward Memorial Hospital de Mumbai.

Aruna tem agora 60 anos e o seu amigo, o jornalista Pinki Virani, autor do livro “A historia de Aruna”, dirigiu ao Supremo Tribunal um apelo à eutanásia. O pedido, o primeiro a ser feito na Índia, foi julgado pelo Tribunal, que decidiu, em Janeiro, adiar qualquer decisão, instalando um painel de especialistas médicos para analisar o caso.

O governo da Índia tem-se oposto claramente à eutanásia.

Aruna gosta de sopa de peixe e galinha. Não gosta de muito barulho no seu quarto do hospital. Essas manifestações são usadas como argumento pelos que se opõem à eutanásia.

Após o ataque, em 1973, as enfermeiras de Mumbai fizeram uma greve de protesto exigindo melhores condições de trabalho e melhor atendimento para Aruna.

A eutanásia continua a ser um tabu social. Mas, se temos o direito de viver, deveríamos ter também o direito democrático de morrer, já que isso é uma coisa inevitável para qualquer ser vivo.
 

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