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Uma bandeja de cinzas

Urge criar um novo paradigma na abordagem aos fogos depois de décadas de Portugal ardido.

António Costa terá uma só oportunidade para fazer o que tem de ser feito no Conselho de Ministros. Em sede fechada e em grupo, abre-se o derradeiro caminho para a demissão de Constança Urbano de Sousa1, uma ministra ainda em negação do seu processo particular de fogo posto. Quando o país voltou a arder como nunca houvera ardido, todos sabemos que a solução dos problemas não passa pela demissão da ministra. Mas não pode ser esse o argumento para que não aconteça.

O histórico de demissões ministeriais, entre veracidades e álibis, serve-nos a realidade em bandeja de cinzas: por muito menos se demitiram muitos mais. Em meados de Julho, a maioria dos portugueses não defendiam a substituição da ministra da Administração Interna. Hoje, perante as absurdas e graves declarações sobre a resiliência das populações e das férias pessoais, dificilmente obteríamos os mesmos resultados. A mesma Comissão Independente que Costa considerou "exemplar no seu processo de constituição e que conta com peritos de grande competência técnica" foi arrasadora no julgamento da reforma da Protecção Civil (PC) por si realizada há cerca de uma década. A realidade atropelou-nos desde domingo. A PC é atropelada com acusações, os seus responsáveis são terraplanados à luz da incompetência e incapacidade próprias, a coordenação de meios é amadora, as comunicações não funcionam. Um comandante da PC ordenou a suspensão da caixa negra que registava os dados do combate aos incêndios em Pedrógão. O contrato com o SIRESP não foi denunciado. O fogo entretanto voltou e é evidente que não aprendemos nada.

E voltamos ao mesmo. Constança Urbano de Sousa não tem de assumir responsabilidades por catástrofes naturais ou mãos criminosas. Mas se é incapaz de sair do foco de incêndio, reiterando com veemência que não se demite enquanto não digerir um relatório do qual já todos retiraram conclusões claras, incapaz de assumir responsabilidades políticas por um sistema sem respostas que - até agora - só mostrou saber perpetuar, a solução existe: se não se demite tem de ser demitida. António Costa enfrentará a realidade dos fogos do próximo ano com as decisões que tomar agora, após as primeiras águas do Outono. Urge criar um novo paradigma na abordagem aos fogos depois de décadas de Portugal ardido. Mas chega de utilizar a ministra como guarda-chuva ou pára-raios. Costa já ultrapassou em muito o prazo para demitir uma ministra que nem de gerir a mágoa humana colectiva é capaz. Na Galiza, multidões saem à rua indignadas com a morte de 4 pessoas nos fogos florestais e, em Portugal, ministros já caíram por oferecer bofetadas a um colunista. No próximo sábado, antes ou depois da manifestação nas ruas, não é admissível que deixe de dizer à sua ministra: obviamente, demita-se.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 18 de outubro de 2017


1 Artigo publicado antes da demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa.

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.

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