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Um verão muito quente e vagaroso

Os incêndios não são a única razão que tornaram este num Verão muito quente, demasiado.

Sim, um Verão muito quente não (apenas) por razões meteorológicas mas porque as expectativas que acalentamos quanto ao nosso futuro coletivo são muito grandes e, no nosso horizonte, está mais uma etapa importante. Tudo em jogo na discussão e preparação do OE 2017. Percebemos o que está em jogo; enquanto uns se vão organizando para construir (contribuindo com sugestões, lembrando promessas eleitorais que urge cumprir, participando em reuniões e encontros) outros, com a história por digerir, tentam desesperadamente um lugar na primeira fila, adotando como modus vivendi o constante morder às canelas do governo e dos partidos à esquerda que o suportam. O azedume parece concentrar-se na pessoa de PPC. Percorre o país de norte a sul, do interior para o litoral e para as ilhas. Não foi às Berlengas. Que sorte a das Berlengas! Organiza as visitas como se tivesse maior representatividade do que aquela que realmente tem; corte à volta, sempre uma comitiva em redor e uma comissão a recebê-lo. Aperceber-se-ão do ridículo da situação? Do enfadonho e despropositado? Com certeza que sim mas na sua imensa pequenez procuram algum destaque e, sobretudo, andam todos em busca do tempo perdido. Na verdade, o que mais gosto é quando se lamentam que até fazem propostas (no âmbito parlamentar) mas a esquerda – ah, esquerda dos diabos! – chumba qualquer iniciativa que venha daquelas bandas. Verbalizam o que lhes dói. Não estavam à espera que a esquerda pudesse concordar com as suas propostas, pois não? Ou estavam?

Vivemos em circuito fechado. Romper com ele é um desafio urgente e bem vindo

Este é o dia-a-dia deste país pequenino. Não teria muita importância se a televisão não desse uma cobertura que repete à exaustão noticiário após noticiário. Perdeste as notícias das 20? Não importa; às 21 são iguaizinhas e, espante-se, às 22 idem idem, aspas aspas. Mesmo com os comentadores a coisa está bem montada. Os locutores interrompem exibindo, nua e cruamente, uma enorme falta de preparação obrigando os comentadores a repetirem o que acabaram de afirmar, corta-se a palavra, interrompe-se o debate, o tempo é sempre curto. As palavras ficam no ar, as ideias baralham-se enquanto se destacam os títulos de caixa alta em notas de rodapé, correndo e desafiando o equilíbrio psicológico do cidadão. É uma versão da liberdade de imprensa. Os comentadores deveriam ter uma palavra nesta matéria contrapropondo outro modelo para os debates no tempo noticioso impedindo que as ideias fiquem truncadas.

Qualquer cidadão percebe o carácter decisivo das medidas de ordem financeira e económica, o que está em jogo. Tanto os 2.700.000 que recebem menos de 600€/mês como os cerca de 27.000 que auferem mais de 3.000€/mês (brutos). A preocupação em perceber como será o OE 2017 é o denominador comum entre uns e outros. Na verdade, o único elemento que os une. Não há-de a luta ser assanhada! O défice que se discute, as décimas que se vão esgrimindo. Mas é nesse terreno que a luta se desenrola: acabar com tanta desigualdade, conseguir as condições para que toda a gente tenha a oportunidade de ser gente. Dizia há dias um jornalista responsável por um programa semanal que a mexida nos escalões do IRS (embora ainda em discussão, ele avançava certezas) iria afastar os mais capazes. Quais mais capazes, onde estão os mais capazes, capazes virou sinónimo de rendimento chorudo? Esta questão do IRS trazendo do futuro imediato receios e interpretações mal intencionadas exige mesmo uma profunda clarificação. A partir de um valor aceitável para viver (qual será?) estabelecer os escalões, aliviando quem ficar abaixo, mantendo outros e taxando, sim, onde houver margem. Não deve ser fácil juntar o dia e a noite, trata-se de um exercício inadiável.

Tudo está dirigido e focado para as questões financeiras, para o problema do défice, para a dívida pública, para os problemas com Bruxelas, para a pesada cobardia europeia, omnipresente. Tudo verdadíssima, enquanto os media não nos deixam esquecer as contas, manipulando-as como podem, acabando por nos tolher. Parece não haver espaço para mais nada mas não é errado ambicionar discutir ou propor outros temas. Sonhar com um futuro que inevitavelmente nos confrontará com o que não fizemos para o acautelar na sua complexidade. É a vida, estúpido.

Na berra, os escalões do IRS provocando uma variedade de declarações e os media a espicaçar a situação na busca de audiências. É indecoroso a confusão e intranquilidade instaladas.

Dizes tu, direi eu. Como a televisão gosta disto! Todos os dias, uma manipulação da informação feita de forma regular e insidiosa que chega a qualquer aldeia ou lugarejo mesmo para lá do Sol posto. Pura propaganda política a exigir mais atenção e uma resposta organizada.

Vivemos em circuito fechado. Romper com ele é um desafio urgente e bem vindo.

É como se vivêssemos em circuito fechado. O nosso desafio é romper esse circuito, incluir no programa outras questões e conquistar para elas a ribalta. Um programa variado, rico e promissor como a vida.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa.

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