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As telas da nossa ilusão

As instituições patrimoniais estão pauperrimamente orçamentadas e a nossa qualificação também passa por aqui.

As instituições culturais patrimoniais portuguesas têm desenvolvido a sua atividade, ao longo do tempo, sempre no fio da navalha. Com orçamentos abaixo de qualquer valor credível, cortam em tudo quanto se possa imaginar. Os seus responsáveis fazem uma gestão de trapezista, sempre com o coração nas mãos, preparados para cair e que alguém os agarre ou que uma qualquer rede estrategicamente colocada os sustenha. Acrobacias que tocam todos os departamentos, envergonhadas e escondidas do grande público.

Mesmo assim, os cargos directivos são preenchidos. Não serão de certeza os ordenados que justificam a teimosia. Talvez seja mesmo um sentido de missão. Ser director de uma grande instituição patrimonial obriga a uma permanente gestão de emergência e de habilidade. Às vezes, o último recurso pode residir na manipulação das verbas da luz ou da água; outras vezes, num mecenato de última hora. Percebe-se quão frustrante é tentar servir projectos patrimoniais com estes pequenos golpes.

As instituições com responsabilidades patrimoniais não existem para se limitarem à gestão do imediato, ao dirimir de questões ligadas aos recursos humanos. Estas instituições são parceiras preferenciais da universidade e nelas devia decorrer uma investigação de carácter académico baseada nos seus próprios acervos. Se uma instituição não fizer isto, o que anda, então, a fazer? Uma instituição patrimonial não se agiganta a guardar o que possui; cresce e afirma-se pelo contínuo enriquecer das suas colecções, pela valorização académica e contextualização dos acervos e pela disponibilização criteriosa destes ao público. Se essa valorização, em conjunto com a dos seus recursos humanos falhar, a seguir também começará a ter dificuldade em recrutar recursos humanos qualificados. O episódio seguinte, é triste e inevitável. As instituições tenderão para um esvaziamento do seu mais poderoso activo, os recursos humanos. Entre a passividade e a criatividade, só a segunda opção interessa. Esta é uma questão que tem sido pouco debatida; é tempo de trazê-la para a ribalta.

 

Com a suborçamentação, faltam os meios para adquirir peças (sejam livros, manuscritos, obras de arte) que enriqueçam e valorizem as colecções. É verdade que em casos envolvendo montantes excepcionais, cabe ao Estado mexer-se acorrendo quando as oportunidades surgem. E isso aconteceu recentemente com a aquisição da tela de Álvaro Pires e com os quadros da Vieira da Silva.

A aquisição destas pinturas teve o condão de me alertar para o verdadeiro problema das instituições patrimoniais. Tudo junto, quase 6 milhões de euros para museus diferentes, âmbitos e públicos diversos mas responsabilidades idênticas. É bom que tenha acontecido. O público de cada museu saberá valorizar o outro porque é de património que se trata. Mas este resultado bem sucedido não deve toldar a questão de fundo que permanece: as instituições patrimoniais estão pauperrimamente orçamentadas e a nossa qualificação também passa por aqui.

Adquirir património pujante como o referido não apaga a questão fulcral e que é política porque implica uma opção e uma estratégia: uma gestão de remedeio não serve, abandona muita coisa pelo caminho – dos recursos humanos ao enriquecimento patrimonial – provocando uma erosão nos nossos activos e na nossa formação – cultural e cívica – cujas consequências mal se podem aferir no imediato. Infelizmente, quando se fizer a avaliação, perceber-se-á então o que se perdeu. A intervenção de cariz patrimonial tem de ser consistente e sistemática. A granel não, obrigada.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa.
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