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Seja feita a nossa vontade

O caminho percorrido pela geringonça é ainda muito modesto. Mas já chegou para indicar um sentido para a política de esquerda, feito de direitos e auto-determinação, dois pilares fundamentais de qualquer democracia.

Quando os antigos sacrificavam animais para ter chuva ou uma boa colheita, a pouca fiabilidade do método tê-los-á certamente levado a pensar que os Deuses eram cruéis, caprichosos e inconstantes, movidos por desígnios incompreensíveis. Bom, as instituições europeias são mais ou menos assim. Talvez isso ajude a explicar porque é que o anterior governo seguia as suas instruções com a devoção que se exige perante uma divindade.

Assim se sacrificou um país. Centenas de milhares de novos desempregados, de novos pobres e novos emigrantes. Passos Coelho dizia que aqueles cujas vidas destruiu estavam “a sair da sua zona de conforto”. Quando a esquerda se uniu toda, Passos Coelho fez uma birra. Que dura até hoje.

Desde então, a direita só tem um plano: que as instituições europeias esmaguem o nosso país, e com ele, este governo e esta maioria. Por isso, Passos Coelho pede à Comissão a máxima força contra os países que falhem as metas de ajustamento orçamental, desde que isso não se aplique ao período do governo da direita, que falhou as metas de ajustamento em todos os anos em que governou. Passos Coelho defende, portanto, um critério para si e outro, totalmente oposto para os restantes. É estranho, mas não é um fenómeno inédito.

Mas as profecias de Passos Coelho tardam em concretizar-se. Se as instituições europeias não escondem o seu desagrado com as mudanças na política económica, a verdade é que o aumento do salário mínimo, a devolução de rendimento, a proteção do Estado social estão a começar a fazer-se e não veio o dilúvio, não se abriram os mares, o país não foi engolido.

No entanto, ainda falta fazer quase tudo. A política que sacrificou o salário em nome da miragem de uma economia movida a exportações vai mostrando as suas limitações com a estagnação europeia e os desastres angolano e brasileiro. O colapso do mercado interno, tão alegremente negligenciado pela direita deixou-nos totalmente dependente das conjunturas externas, ou seja, da sorte. Da nossa e dos outros.

Não tem de ser assim. Não chega devolver os rendimentos para responder à crise, mas essa resposta impõe uma aposta no país, nos seus recursos, no seu trabalho. Exige libertar o país das suas várias dependências: a dependência financeira, a dependência energética, a dependência alimentar. Exige investir no país, mobilizando a geração mais qualificada que a nossa escola pública, apesar dos ataques da direita, conseguiu formar.

É hoje claro que esta estratégia exige reclamar margens de soberania e, sobretudo, rejeitar a postura de subserviência degradante que marcou os 4 anos da governação da direita. As instituições europeias ameaçam o país com sanções por causa dos resultados das políticas que essas mesmas instituições europeias impuseram. Hoje, ceder a essa chantagem é trair o país.

Se uma Europa diferente é possível, ela só poderá ser construída a partir de revoltas cidadãs que rejeitem esta lógica interminável e a obsessão de gente que ninguém elegeu. O caminho percorrido pela geringonça (que belo conceito que a direita nos forneceu!) é ainda muito modesto. Mas já chegou para indicar um sentido para a política de esquerda, feito de direitos e auto-determinação, dois pilares fundamentais de qualquer democracia. Não mais dependeremos da bondade de comissários. Será feita a nossa vontade.

Artigo publicado em “Jornal de Negócios” a 31 de maio de 2016

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.

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