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Reabrir Abril!

Todos os anos é primordial comemorar Abril, desta vez acresce festejá-lo com a esperança de o reabrir.

Depois de sucessivas orientações políticas a perder conquistas de Abril, com especial ênfase no danoso e fascistoide último governo. Depois da teimosia miserabilista da austeridade e do empobrecimento generalizado que fez com que um povo passasse de remediado a pobre e de pobre a miserável. Depois da intruja e hipócrita caridade que tudo rapina para, ostensivamente, amparar os coitadinhos com a esmola misericordiosa. Depois de uma taxação coerciva sobre rendimentos do trabalho e de dádivas fiscais sobre rendimentos do capital. Temos, finalmente, a esperança da reconquista numa governação puxada à esquerda. Não se pode falhar, sob pena de perder oportunidade única e de retroceder o país, ainda mais e com maior tombo. Exige-se que a orientação política volte a carrilar o trilho da revolução e se reconquiste a dignidade de um povo que heroicamente teima em não abrir mão do que Abril abriu.

Todos os anos é primordial comemorar Abril, desta vez acresce festejá-lo com a esperança de o reabrir. Se por um lado é preciso lutar contra o esquecimento e fazer lembrar os valores daquele “dia inicial, inteiro e limpo” não é menos importante atualizar a grandeza da democracia no exato desígnio de que esta é uma construção permanente. Em nome da memória e da coragem dos que edificaram Abril. Em defesa do legado democrático que urge reconquistar e aperfeiçoar. Em proclamação de um país contemporâneo e novo mas com princípios de sempre. Liberdade, justiça social, igualdade de oportunidades, correção de assimetrias, respeitabilidade pela diversidade de ser e de estar. É premente de fazer acreditar que Abril está vivo, em ação e pujante. Uma sociedade que excluí, que abandona os mais desprotegidos, que alarga o fosso entre os ricos e os pobres, que amedronta os que se lhe opõe, que extorque direitos e desonra a vida, não é democrática. Revolta-me viver num país que financia a banca e protege os banqueiros enquanto recusa crédito aos necessitados e despoja a casa a desempregados. Enraivece-me viver num país que dá cobertura a offshores para fuga ao imposto e lavagem de dinheiro, enquanto taxa parcas reformas e cobra salários miseráveis. Envergonha-me viver num país que alastra grandes fortunas enquanto multiplica o número de pobres. Abril não se fez para isto.

Não podemos só olhar para trás e invocar o dia em que “livres habitamos a substância do tempo” como que justificando no passado a visão cínica do presente. Não podemos renegar o presente, até porque ele é real “… não quero o presente, quero a realidade; Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede”, como que fluindo na inércia do tempo parados à espera que o tempo mude. Não podemos desistir do futuro “a melhor maneira de prever o futuro é construí-lo”, como que passageiros da descontinuidade num mundo de hoje que não tem porvir.

Viver Abril não é, somente, reavivar nostalgias de um gosto lindo que se esfumou ou trautear canções da época de cravo à lapela em jeito de ritual revolucionário. Não é, de maneira alguma, ser indiferente e aproveitar o feriado para prolongamento da passeata domingueira.

Viver Abril é içar bem alto a bandeira da liberdade, é combater o conformismo e a descrença e partilhar constrições e vontades. É promover uma sociedade solidária que exige respeito pelas mundividências e multidiferenças. É alimentar a esperança e a legítima ambição de ser feliz e a viver com direitos e dignidade sabendo assumir as responsabilidades.

Viver Abril é acreditar que os princípios que desencadearam as mudanças sociais e políticas continuam presentes e mais do que nunca prementes, sendo imperioso encontrar caminhos que da política cheguem à ação e da ação à consciência. É por isso que acredito que na atual conjuntura política, podemos reabrir Abril. A ver vamos!

Num registo local, quero, mais uma vez, enaltecer a iniciativa das comemorações públicas do 25 de Abril, mesmo que considere que é preciso reformular o modelo para ser mais atrativo à participação popular. Como Abril é cidadania, quero lembrar ao executivo camarário que, até hoje e passados mais de seis anos de governação, nunca foi cumprido o slogan de campanha de 2009 “Barcelos é dos cidadãos”. Há um longo percurso a fazer para que tal se implemente, mas o problema é que ainda não se iniciou. A ver vamos!

Artigo publicado no “Jornal de Barcelos”

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Professor

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