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A raríssima doença do descaramento

O mapa do mundo do descaramento encontra imensos pontos de paragem turística na caridade.

Há um hábito infeliz nos minutos finais de vida nos mais altos cargos do país, ao qual o Governo e as instituições com carácter público não são imunes: os responsáveis demitem-se mas raramente são demitidos. É assim que a maioria dos "ex-algo" determinam, pela própria pena, o fim da sua mui-nobre-e-distinta-missão. Exoneram-se, não são exonerados. Abdicam, misto de renúncia de perrice ou amuo com travo de má cara, saem pelo próprio pé, a bem deles, pelo melhor de nós, pelo superior interesse do país. Saem com uma aura de superioridade moral, abandonam pelo abandono de que foram vítimas, pela cabala montada, pelo incompreensível cinismo dos outros ou pela transgressão alheia, porque não estão para isto. Saem pelo próprio pé, vociferando com firmeza que o tempo ou a justiça os julgarão, não percebendo sequer que tempo e justiça sempre se confundiram. Desistem, agastados com a causa pública, agarrados às suas razões, armadilhados, ressentidos num misto de altivez e alívio mal disfarçado que fica à espera que a tempestade passe. Pedir a demissão é coisa comum. Demitir em Portugal é coisa raríssima.

Casa de partida. O mapa do mundo do descaramento encontra imensos pontos de paragem turística na caridade. Haverá certamente um bom motivo para que grande parte dos responsáveis de instituições criadas para promover o bem comum e o apoio aos mais desfavorecidos sejam parentes muito afastados do equilíbrio e do bom senso. Os portugueses continuam a fazer um esforço para que a solidariedade não seja traída pelo discurso ideológico do "vivermos acima das nossas possibilidades", "vamos ter de reaprender a viver mais pobres" ou da teoria dos desempregados agarrados ao computador. No caso das IPSS, esta histórica insolência discursiva de Isabel Jonet no "Banco alimentar contra a fome" é um exemplo marcante de como o discurso pode apunhalar a obra. Mas há novos limites. Após as denúncias, Paula Brito e Costa tentou negociar com Vieira da Silva, ministro do Trabalho, um afastamento temporário do cargo. Ou seja, só se afasta da Raríssimas depois de lhe ter sido dito que a suspensão temporária de funções não cabe no regime das IPSS. Para uma instituição cuja maioria da receita provém de transferências do Estado, a notícia que jaz faz lápide. Foi mesmo até ao último suspiro.

A exigência de maior transparência e fiscalização das IPSS não substitui a ideia primordial: o Estado falha por não conseguir, ele mesmo, tratar da causa pública. A admissão do falhanço pelo princípio. Mas admitamos o fim quando é uma entrevista a precipitar a saída de Manuel Delgado. Apliquem-se outros 63 mil euros em consultadoria à causa pública. Para algo de novo. A nova secretária de Estado, Rosa Zorrinho, a avaliar pelo grau de notória felicidade na sua tomada de posse, prestará contas futuras à solidariedade institucional. Mas também não esperemos caridade deste Governo.


Artigo pblicado no Jornal de Notícias, 13 de dezembro de 2017.

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.

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