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Pretensas saudades, memória treslida. Tudo branqueamento

Vários episódios que revelam como o fingimento e o desvirtuamento da memória perturbam a leitura dos dias e acomodam o branqueamento. Três apontamentos para reequacionar a força política da memória contra toda e qualquer tentativa de apagão.

Na sua coluna semanal para o Expresso (30 de Abril) Luís Marques lamentava-se com saudade de uma outra Catarina Martins, dizia ele, identificada com a luta contra a troika numa fase dessa metamorfose que o articulista sugere estar em curso. São palavras suaves, saudosas a evocar um perfil diferente daquele que hoje ele observa. Conclusões do articulista, naturalmente. E faz apelos ao retorno a essoutra personagem que ele tinha por mais combativa, por mais condicente com os princípios do Bloco, menos acomodada. E deixa apelos patéticos a Catarina Martins, e na boleia apanha também Jerónimo de Sousa, para um retorno à prática de um passado recente. O texto é perverso e provocatório. Por várias razões: 1ª Aquela coluna nunca mostrou simpatia pelo Bloco para agora nos levar a acreditar que a sua análise é isenta de segundas intenções e que resulta apenas duma genuína preocupação com as posições do Bloco; 2ª Mistura o Bloco com o PC como se fossem uma e a mesma coisa o que, não sendo verdadeiro, levanta forte suspeita sobre as verdadeiras intenções sobre as preocupações manifestadas; 3ª Ao tentar lançar esta amálgama entre duas forças políticas desiguais, causa a confusão entre os mais incautos e irrita os mais avisados, procura provocar a discórdia. Então, se as saudades invocadas não têm nenhum fundamento, porque diabo aparece aquele texto? Se virarmos o texto do avesso, talvez encontremos o verdadeiro motivo. Trata-se, de facto, de um texto provocatório, agoirento, uma tentativa para incutir a dúvida e o ceticismo sobre a atuação do Bloco procurando fazer crer que o Bloco (e já agora o PC) abdicou dos seus princípios e matriz, tendo-se deixado seduzir pela ribalta. Insinuando que o passado teria sido apagado, como se os dias que vivemos e o presente que hoje construímos pudessem, mesmo que por um instante, esquecer a luta que nos trouxe até aqui. Não acreditando nós em ingenuidades, então, temos de concluir que o mal-estar é real quando a geringonça avança.

Na página semanal do Público (29 de Abril) Pacheco Pereira deixou um belo artigo no qual, sem subterfúgios de qualquer espécie, denuncia as manobras e a manipulação dos media que num esforço continuado têm como prioridade desfazer a esquerda, as alianças do Bloco e do PC com o PS, desacreditar as suas opções e dirigentes. Numa palavra, desestabilizar. Escuso de repetir o artigo do JPP no qual se prova que não há acasos nem coincidências entre os meios de informação, jornalistas e comentadores. Há, sim, uma intenção óbvia e concertada de desfazer, lançar a dúvida, mistificar, recorrendo aos truques mais comezinhos. A intervenção é diária, persistente e obstinada com um objetivo. Ao baralhar e voltar a dar, talvez se consiga confundir o passado, o recente e o menos recente, a partir do que será mais fácil reconquistar posições. Numa palavra, branquear. Como o caso do Expresso acima referido tão bem tipifica.

O camarada Fernando Rosas atingiu a jubilação. Nunca é coisa de somenos mas quando à celebração da carreira académica se pode juntar o testemunho de um passado de intervenção política contra a ditadura, pela democracia e pelo socialismo, então, o nível é superlativo. Cada uma das pessoas que encheram o auditório da Universidade Nova no dia 28 de Abril terá razões próprias para lá ter ido, sejam laços de amizade e consideração, sejam relações académicas ou cumplicidades políticas, sejam elos familiares. A última aula de um professor constitui oportunidade para prestar homenagem maior. Ao convocar os presentes para a responsabilidade que detêm na interpretação da história, na defesa do papel do passado e da memória para a construção do nosso futuro, Fernando Rosas não deixou ninguém indiferente. O seu alerta contra o branqueamento do nosso passado deixou muito claro que as manobras mistificadoras acontecem por todo o lado. E onde quer que possam surgir, venham elas donde vierem, cabe-nos estar preparados para o combate, contra o fim da história.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa.

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