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Power Trips

O que poderá ser mais parvo e mais odioso do que a "lista do eco-poder" do Observer?

Há alguma coisa que os jornais de domingo não convertam num festival de celebridades idiota? Há dois dias, o Observer publicou aquilo a que chamou a sua lista do eco-poder. Não será nenhuma surpresa que ela tenha elencado Brad Pitt – que lista não o faz? Foi mais surpreendente encontrar lá Jay Leno, pela razão de ele ter tornado, hã, 240 carros de que é responsável “tão verdes quanto possível”. E o director-geral da Ford, porque acaba de desvelar um Ford Focus eléctrico (tristemente, não se mencionou simultaneamente os sorvedores de gasolina que a Ford continua a comercializar). A maior parte da lista era um catálogo de gente rica e poderosa que agora acrescentou o verde, ou algo nebulosamente semelhante ao verde, aos seus portfolios.

Mas estou menos preocupado com os conteúdos dessas listas do que com o princípio. Para mim, o eco e o poder ocupam esferas diferentes. O ambientalismo que reconheço é um desafio ao poder. Confronta um sistema que permite que um punhado de pessoas domine as nossas vidas e capture os nossos recursos. A fama, a riqueza extrema, a influência desproporcional celebrada pelas listas de poder estão em oposição aos valores e princípios que o pensamento verde adopta.

Mas este não é o único problema com essas listas. Elas são odiosas. Extraem algumas personagens de um esforço colectivo vasto: geralmente aquelas que têm jeito para ficar com o crédito do trabalho de outros.

Uma lista de eco-poder é ainda pior. Primeiro, reforça a história, contada vezes sem fim, por aqueles que odeiam o ambientalismo de que é um couto de figurões e príncipes (o Príncipe Charles, inevitavelmente, consta da lista do Observer). É verdadeiro que alguns dos seus porta-vozes mais proeminentes são ricos e famosos. Mas são proeminentes só porque esta amostra minúscula, não representativa, é celebrada e adulada pelos meios de comunicação, enquanto os milhões de outras pessoas do movimento são ignoradas.

Também encoraja o mito do super-homem: que umas poucas pessoas poderosas podem salvar o planeta. Na verdade, só grandes movimentos sociais, que acentuam a solidariedade e o esforço colectivo, poderão ser eficazes. Aqueles que são já ricos e poderosos enquadrarão o seu ambientalismo em termos que reforçam a sua riqueza e poder, assegurando que o sistema que os recompensou tão prodigamente permanece indisputado. Duvido que alguém que trabalhe para o Observer acredite no mito do super-homem, mas fazem de conta porque as listas de poder – como qualquer outra espécie de trivialidade sobre celebridades – são populares e fáceis de ler.

Pior do que tudo, representa outra tentativa de amansar e embrulhar este movimento. Como Paul Kingsnorth disse:

“O capitalismo, sempre tão eficaz em absorver e tirar as garras aos dissidentes, está a transformar um desafio existencial numa outra oportunidade para fazer compras”.

O ambientalismo é uma das últimas coisas que tentam rejeitar a cultura das celebridade. Não está livre desta peste, mas está mais resistente a ela do que qualquer outro sector. Se os jornais conseguirem o que querem, irão trivializar-nos e capturar-nos, tal como fizeram com tudo aquilo que alguma vez teve substância.

www.monbiot.com

http://www.monbiot.com/archives/2011/01/18/power-trips/

Publicado no Sítio Web do Guardian, 18 de Janeiro de 2011

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

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