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Os rostos de Caliban

O objetivo prioritário das lutas contra Trump deve caminhar a par com a capacidade de mostrar a escamoteada continuidade entre este presente envenenado e o passado recente que o engendrou.

O realismo é a raiva de Caliban por se ver ao espelho. O romantismo é a raiva de Caliban por não se ver ao espelho» (Oscar Wilde)

Façamos este exercício de ver nos meios de comunicação de massa (MSM em inglês) um espelho cuja imagem superficial pode servir tanto para embaciar a realidade como para a mostrar a uma luz capaz de distorcer alguns dos seus mais nítidos contornos.

Esse espelho pós-moderno mostra-nos a face de Trump e este irrita-se e irrita-nos com tal visão. Num passado recente, esse mesmo espelho, intencionalmente embaciado, não nos mostrava as outras faces de Caliban, as que antecederam o atual presidente.

As reações de quem olha para a imagem refletida neste espelho são quase unânimes mas só à superfície: quem se situe à esquerda deve saber que nos dois lados em confronto, não há demónios nem santos.

Nós que sempre fomos ferozes críticos do imperialismo, da globalização neoliberal e da financeirização da economia não podemos estar esquecidos das nossas lutas recentes apenas porque entretanto um rosto disforme se revelou diante de um espelho até aí nebuloso. Ou podemos?

Uma tal amnésia ser-nos-ia fatal. Na luta contra Trump e tudo que sua imagem representa, de modo algum devemos colocar o nosso peso do outro lado da desequilibrada balança dos poderes, aliando-nos objetivamente aos nossos inimigos recentes, apenas porque -no dizer de alguns - o atual inimigo representa um maior perigo potencial.

Fazê-lo seria legitimar o regresso do neoliberalismo globalista mas pior do que isso, seria consentir na inutilidade dos nossos anteriores esforços e na irrelevância das nossas anteriores e ainda atuais bandeiras.

Sem fechar os olhos mas também sem aceitar a projeção alucinante dos média comprometidos com “os senhores que estavam antes”, a estratégia da esquerda deverá sempre passar pela exploração da atual situação que enfraquece os dois lados da contenda, estabelecendo a ligação entre a horrível face de Caliban que agora nos é mostrada e a outra que nos foi deliberadamente ocultada, rejeitando a canonização de uns e a diabolização do outro para mostrar a ligação causa-efeito que de facto há, entre ambas.

É importante e até urgente explicar que o romantismo anti-Trump (não ver a face do Caliban oculto) fortalece a imagem hiper-real de um monstro que saiu do nada. Em comum com os seus antecessores, Trump tem ainda e sempre o desígnio imperial que nunca deixou de estar presente nas administrações que o antecederam. Apenas os meios preconizados para atingir esse intuito da hegemonia total foram colocados em causa e mesmo assim nem todos eles.

Persiste à cabeça, a realidade monstruosa do complexo militar industrial que absorve mais de 50% do orçamento federal. E essa face nunca mostrada de um Caliban oculto, tem de ser trazida à luz do dia, juntamente com outras entretanto obliteradas: o extremismo financeirista provocador de desigualdades sociais, a ideologia dominante nos jornais e TVs, o défice democrático que permitiu perpetuar toda esta situação.

O objetivo prioritário das lutas contra Trump e o que ele representa deve caminhar a par com a capacidade de mostrar a escamoteada continuidade que existe entre este presente envenenado e o passado recente que o engendrou.

Outra leitura que não esta, apresentará sempre o atual Caliban como criatura a-histórica, quiçá até sobrenatural, caída no presente depois de um mortal e dupla pirueta, 70 anos depois de um outro Caliban que se julgava derrotado.


Notas:

- Este texto resulta de um artigo de Peter Gaffney no Counterpunch. Não é uma tradução nem segue o mesmo argumentário, porque o artigo me desiludiu um tanto, dada a potencialidade do título. Tentei portanto explorar melhor o assunto, num texto menos colado à realidade americana e eventualmente mais apelativo para quem vive a realidade europeia. Para quem deseje ler esse artigo: http://www.counterpunch.org/2017/02/16/the-rage-of-caliban-identity-politics-the-travel-ban-and-the-shifting-ideological-framework-of-the-resistance/

- Caliban é uma personagem Shakespereana. Sobre Caliban: https://www.google.pt/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=caliban

Sobre o/a autor(a)

Professor. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda no círculo de Viseu, nas eleições legislativas de 2015

Comentários

Os nomes dos rostos depois de desembaciado o espelho.
Artigo muito acertivo. Esperando que a desilusão do autor sobre o artigo que o motivou não tenha sido a de esse artigo ter mencionado os nomes dos rostos desembaciados, aqui vão alguns deles, tão conhecidos: Nos EUA - Obama, Clinton (mulher e marido), etc... Na Europa: Holande, Merckle, Dijsselbloem, Rajoy, Rensi, Blair...

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