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Os bons desejos do Dr. Júdice

José Miguel Júdice, comentador TVI, tem a sina de se enganar quando trata da esquerda, o que ficou evidente no seu anúncio solene de que o PCP se absteria no Orçamento.

Quem comenta, seus males espanta? Nem sempre. José Miguel Júdice, comentador TVI, tem a sina de se enganar quando trata da esquerda, o que ficou evidente no seu anúncio solene de que o PCP se absteria no Orçamento. Era coisa garantida depois das autárquicas, aí vinha uma orgulhosa abstenção. A conta era esdrúxula, pois implicava que, para que o orçamento ainda assim fosse aprovado pondo-se o PCP de lado (15 votos), o PS votasse com o Bloco, o PAN e os Verdes (108 votos) de modo a que a direita (107 votos) não vencesse. Este cenário sempre foi uma fantasia. Pago para ver o dia em que, numa questão importante, o PCP vota de um modo e outra sua parte vota ao contrário, seria pirueta. Mas o maior obstáculo ainda era político: negociando o Orçamento em detalhe e conseguindo algumas vitórias significativas (redução do IRS para os trabalhadores e pensionistas com rendimentos baixos, aumento das pensões, contratação de professores e medidas sociais), os partidos de esquerda ficam amarrados ao mesmo compromisso que limita o governo e devem viabilizar os seus próprios resultados. Portanto, assunto encerrado, o Orçamento, que ainda tem pela frente um mar de detalhes de especialidade, será aprovado. Júdice arriscou uma previsão e é vencido pelos factos.

Tranquilizem-se os leitores, nada tenho contra este tipo de previsões. Antes à frente de toda a gente, não há palco mais exposto do que a televisão perto de si, do que intrigas palacianas, ou subterfúgios, ou insinuações. Pão pão, queijo queijo, estas afirmações são conferidas nas semanas seguintes por toda a gente que as ouviu.

Mas Júdice resolveu dobrar a parada. Agora já não é o PCP que vai fazer cair a geringonça. O que nos foi revelado na última intervenção é muito mais soturno: o Primeiro-Ministro, homem matreiro, estará a cogitar provocar ele próprio eleições para alcançar a maioria absoluta, ali pela primavera. O cenário é convidativo, eleições internas no PSD, ou vai Rio ou vai Santana, ambos têm as suas vantagens para o PS, ambos lhe prometem “pactos de regime”, o que em Portugal só tem má fama, um levou o PSD à sua maior derrota de sempre e outro acantonou-se, ambos dividem o partido e nenhum deles convence o eleitorado que anda órfão de direita. Vai daí, Costa provoca crise política, sacode a esquerda que atrapalha o governo com exigências e usa o pretexto da Comissão Europeia, que manda recados a este orçamento sobre o pouco ajustamento do “défice estrutural” e outras sandices e quererá contas a meio de 2018.

O aborrecimento é que isto é uma fantasia. Primeiro porque o governo não provoca uma crise invocando uma culpa da “Europa”, seria suicidário quanto à sua história e política. Para o PS, como para o falecido “arco da governação”, a “Europa” é o último recurso de legitimação, não é uma justificação para a recusa de qualquer imposição que seja. Segundo, porque Costa não provocará uma crise política que tenha o aspecto de uma jogada: para satisfazer o desejo de Júdice, teria de se demitir de iniciativa própria, o que arrasta uma factura pesada. Não se confia no Primeiro-Ministro que deita abaixo o seu governo para pedir mais poder, tendo tido maioria estável. Terceiro, essa estratégia divertida entregaria a decisão ao Presidente e o PS nem quer ouvir falar nisso.

Resta então a questão: porque é que Júdice sugere algo tão estapafúrdio, se me perdoam o meu francês? Porque deseja que haja este abanão. A direita, como Júdice, está agora nisto: queremos o poder mas não podendo ser, pelo menos que o PS tenha maioria absoluta, já dormimos descansados. Façam qualquer coisa, atirem-se ao chão, corram com essa esquerda, défice estrutural e nada de corrigir pensões miseráveis, venha a redução do IRC, ora ouçam as clientelas. Natureza de escorpião? Talvez exasperação.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 18 de novembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.

Comentários

Concordo inteiramente com as palavras do Professor Francisco Louça, quer-me parecer a mim que José Miguel Judice está a ser instrumentalizado pela direita para fazer o trabalho sujo, junta a sua voz à de Marques Mendes, outro errático, fanático pelas políticas de direita. O PSD está claramente naufrago, não tem comandante, mas de aí a que o PS arrisque eleições antecipadas para poder conseguir uma maioria absoluta, existe muito caminho a percorrer. Santana e Rio não são consensuais dentro do PSD, de modo que nenhum deles terá uma eleição fácil, ainda que posteriormente tentem transmitir para o eleitorado uma união partidária inexistente. O PCP, não votou contra o orçamento de estado nem se absteve, ainda que imaginasse fazê-lo a aprovação seria uma realidade. No meu ponto de vista será o PCP quem irá roer a corda desta maioria com as suas exigências, por isso há que estar atento às exigências dos Comunistas. No Bloco de Esquerda trabalha-se, para melhorar as condições de vida da população e os debates na especialidade são a prova de que não estamos de acordo com tudo, mas que desejamos alcançar o consenso por forma a viabilizar a maioria de esquerda que tem proporcionado ao país a estabilidade necessária para o seu crescimento económico. Se o PS e António Costa, pensarem em provocar eleições antecipadas, a maioria que esperam alcançar não irá suceder, e terão de recorrer ao Bloco para garantir essa maioria. Ou seja concluindo, em caso de eleições antecipadas o Bloco de Esquerda deverá fazer parte desse governo de maioria de esquerda. O papel que o Bloco desenvolve na estabilidade do país, vai contra todos os prognósticos de azar da direita, que contínua a deambular num país e numa economia utópica que os mesmos não foram capazes de colocar em prática. A força do Bloco é enorme e teremos sempre uma palavra a dizer.

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