Obrigado, mas escusam de se preocupar

Um exército de comentadores políticos tem desenvolvido uma tese de grande interesse. O Bloco está encurralado com o seu apoio à candidatura de Manuel Alegre.

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Um exército de comentadores políticos tem desenvolvido uma tese de grande interesse. O Bloco está encurralado com o seu apoio à candidatura de Manuel Alegre.

Nas últimas semanas, o exército de comentadores políticos que nos bafeja com a sua lucidez e seriedade intelectual tem desenvolvido uma tese de grande interesse. O Bloco está encurralado com o seu apoio à candidatura de Manuel Alegre. Sufocado num espaço político de uns quantos milhões homens e mulheres das muitas esquerdas que tem a esquerda. Encolhido numa candidatura que luta pela maioria do país. Os mesmos comentadores que, no passado, arrasaram as candidaturas partidárias, para “cumprir calendário”, “picar o ponto”, ou mesmo “fragmentar a esquerda”, acham agora que o melhor para o Bloco era uma candidatura nesse mesmo registo que criticaram e mostram uma surpreendente preocupação com as consequências nocivas que o apoio a Manuel Alegre poderá ter para a capacidade do Bloco de se diferenciar… em relação a Sócrates. A preocupação é simpática, mas desnecessária.

Ninguém neste país confunde a política do Bloco com a política de Sócrates. Nem uma pessoa. Não acontece. Ninguém acredita nisso, nem que os comentadores o repitam 1000 vezes. Há mentiras que nem assim se tornam verdade. E o debate do orçamento mais uma vez o demonstrará. Quando Francisco Assis diz com todas as letras que está fora de questão negociar o orçamento com a esquerda, o que está a enunciar é a escolha política que o PS fez desde o dia em que chegou ao Governo: Conduzir a política económica no quadro do grande consenso do Bloco Central, dos maiores interesses económicos (não os da economia, bem entendido), apadrinhado pelo actual Presidente.

Sobre esse grande consenso, Manuel Alegre tem sido claro como água. A política de austeridade faz parte do problema e não parte da solução. Cito um, entre outros dos seus discursos. Os sucessivos posicionamentos de Manuel Alegre, em palavras e actos, tornaram a sua candidatura insuportável para a direcção do PS. Sócrates apoiou-o depois do Bloco, a contra-gosto, contra a opinião de muitos dos seus próprios dirigentes. A narrativa que agora é nos é vendida pode resumir-se na seguinte ideia: o Bloco obrigou o PS a encurralá-lo. É engenhosa, mas pouco credível.

O Bloco de Esquerda fez um caminho com Manuel Alegre e os que o apoiam. Esse caminho foi feito de reflexão e desenvolveu uma hipótese de unir num movimento todos aqueles que defendem uma política económica centrada no crescimento e na criação de emprego, a oposição à pilhagem do sector empresarial do Estado, o combate contra todas as estratégias de privatização dos serviços públicos, as mais abertas e as mais matreiras. Como todas as convergências, esta não se faz sem dificuldades. Não se faz sem riscos. Não se faz sem contradições. Mas uma Esquerda que falte a esse combate não tem responsabilidade, não tem futuro, não tem desculpa.

No entanto, toda esta ansiedade destes amigos que nos avisam é, sem dúvida, reconfortante. Ela exprime uma dupla preocupação: 1. A preocupação com o impacto da campanha de Manuel Alegre e a necessidade de lhe retirar qualquer potencial agregador contra a candidatura da Direita unida. 2. A preocupação com a participação do Bloco no bloco anti-liberal que a candidatura de Manuel Alegre representa. E não nos enganemos: na primeira linha deste exército de ansiosos, está o núcleo duro do Governo de José Sócrates. Porque a esquerda política que este Governo e a Direita preferem (e os seus comentadores não fazem disso segredo) é a que decidiu estar bem metidinha no seu canto. Quanto mais metidinha no seu canto, melhor. Segura, isolada e absolutamente inofensiva.


Comentários

Caro Armando Carvalho: o «único partido...», aspirante a partido único, exige respeito. E tem-no, até numa certa razão inversa do que mostra pelos outros.
João: definitivamente a história não existe. Serão comparáveis as situações nas candidaturas de Rosas e Louçã com a actual? Nada mudou?
O reforço da convergência PS/PSD que exige mais minúcia na acção de explorar contradições nas bases eleitorais; o movimento de opinião e convergência criado depois do resultado sem precedentes de Alegre, há 5 anos, representando muito povo de esquerda e nenhum de direita concerteza,na base de uma política ampla em que temos tido e mantemos um papel central de diferenciação e de aprofundamento num sentido irreversível de suporte da democracia no serviço público universal e nas prestações sociais equitativas?
E depois o apelo ao amor à camisola - até parece...

De facto, não há vez na nossa democracia, em que sempre que o Bloco de Esquerda se sai bem (nas tv´s por exemplo)não venham logo os opinion makers do sistema apressadamente e empurrando todos à sua frente, sentar-se a tentar intoxicar a coisa, para a opinião publica.
Lamentavel numa democracia
Enquanto os fanfarrões do centrão se revezarem no poder os dados estão viciados.

Notícia do PÚBLICO:
“Está aqui um PS muito unido”, garantiu Alegre, ao início da noite de ontem, à margem de um jantar com dirigentes socialistas do distrito de Braga. “Em todo o país não temos tido problema. Não há nenhuma divisão”, assegurou o candidato, depois de, na véspera, Francisco Louçã ter afirmado que o BE é o único partido comprometido em derrotar Cavaco.
No jantar não esteve presente o presidente da Câmara de Braga, Mesquita Machado. Manuel Alegre desvalorizou a ausência, afirmando que o autarca é um “velho camarada” que a seu tempo vai mostrar apoio à sua candidatura.

Então Alegre devia confrontar um dos partidos que o apoia, o seu próprio, do qual se tem demarcado em questões essenciais e, por isso mesmo, tem contribuído, com o outro partido que o apoia, o BE, para criar factores de convergência na esquerda que combate o Bloco Central e o seu profeta, Cavaco Silva,e abrir a possibilidade, com a derrota de Cavaco, de travar o frenesi de mercado e destruição dos serviços públicos, de liquidação da democracia? O movimento de apoio a Alegre tem como objectivo estratégico chamar à luta os que ainda não encontraram motivo e força para se deslocarem, ou seja, apresentar uma alternativa séria, consequente e viável, no sentido do senso comum, que comanda as grandes decisões populares, para a esquerda ganhar a eleição presidencial e acabar com o situacionismo iniciado há 30 anos com a AD.
Qual o caminho?o do candidato de propaganda para o PCnão ficar sozinho;ou estratégia,que aprovámos com enorme maioria,de ganhar para a luta aquela massa espectante?

Candidato de propaganda? O PCP ficar sozinho? Massa expectante? Mas ele há gente que, definitivamente, não se mede... Aconselho a ler o artigo de hoje in JN - ou este jornal também é "hostil" ao BE? - sob o título "Alegre apoia Sócrates". Acredita, é interessante, pressupõe -imagine-se o anti-neo-liberalismo do candidato - a emissão de um cheque em branco ao governo em sede de OGE. Tudo para manter "patrioticamente" os interesses da alta finança "democraticamente" representados pelo seu partido. Não é novidade.Alegre votou contra o Código de Trabalho sem uma única intervenção (na A.R) que sustentasse o seu voto. Idem na discussão do OGE, PEC I e II. Agora, vir esse senhor Gusmão insinuar que há uma esquerda acantonada por uma questão de segurança, não chega a ser insultuoso por falta de idoneidade, mas é definitivamente prova de que no BE qualquer "Zé" serve para desviar a atenção das suas bases para a falta de projecto social de classe que caracteriza a sua amálgama ideológica.

Candidato de propaganda? O PCP ficar sozinho? Massa expectante? Há gente que não se mede, mesmo ...Há alguma intervenção de Manuel Alegre no órgão de soberania para o qual a "massa expectante" - deve ser uma neo -terminologia neo-marxista... -o elegeu, sobre o Código do Trabalho? Há, e passo a citar: Senhor Presidente da A.R, é favor fechar as portas da galeria que está aqui um frio que não se pode! É verídico, vejam as imagens de arquivo da ARTV! Votou contra? Votou sim senhor, talvez para ficar "acompanhado" futuramente. Alguma intervenção sobre o OGE, PEC I e II? Na A.R. não conheço, mas no telejornal é provável que sim. Eu já nem apelo ao respeito para com o PCP, faço apenas lembrar o imperativo da idoneidade necessária para abordar a linha de combate do único Partido de classe Português! Operário, claro, como o seu candidato.

"Candidato de propaganda"? É assim que se classificam agora as candidaturas de Fernando Rosas e Francisco Louçã? Eu prefiro considerá-las candidaturas de afirmação de um projecto político. No caso de Fernando Rosas era inevitável a vitória de Sampaio, mas no caso de Francisco Louçã foi uma candidatura essencial para congregar o máximo de votos à esquerda, o que quase impediu a vitória de Cavaco.
Quem quiser que apoie agora um candidato em conjunto com PS (um candidato que apela ao apoio do insigne autarca Mesquita Machado), mas haja pelo menos a decência de não arrasar a estratégia do Bloco nas duas últimas eleições presidenciais.

Até aqui... penso que não há surpresas! Os lacaios, caciques, lambe-botas e cães de fila, estão a jogar em contra-ataque! Como temos uma defesa que não vacila só temos que jogar em ataque continuado! Os avançados é que não podem tremer, seja em que momento fôr!
Um grande abraço!

Excelente artigo. Porque será que todos estes comentadores políticos (tão habilmente escolhidos para comentar) criaram e ste discurso que multiplicam sempre que têm tempo de antena? Porque sabem que a candidatura de Manuel Alegre tem tudo para vencer o conservadorismo, o situacionismo económico e o condidato natural da burguesia e da direita Portuguesa.

Sim, é isso msm! Bom artigo! Abraço

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