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A obra de arte na era da hipermercantilização

O texto seguinte não se encontra nas páginas de uma revista de moda, nem na página de um museu. Espero, num futuro não muito longínquo, fazer uma versão mais alargada e completa.

A ideia de uma arte que não se preocupa com o mercado e com os seus consumidores tem origem no individualismo romântico e nunca correspondeu à realidade. Arte e mercado estiveram ligados em tempos históricos, embora a ideia do que é “mercado” tenha variado muito. De realeza, igrejas e nobres de tempos mais remotos que encomendavam obras para cumprir as suas necessidades políticas e religiosas, ao mercado capitalista, o dinheiro é fundamental para a arte. Os artistas têm que sobreviver.

O acesso ao original geralmente não era fácil. Só terá um objeto de massas (mesmo limitadas) na Holanda do Século XVII ou nos Estados Unidos depois dos anos 80. Os múltiplos (gravuras, serigrafias) iam chegando a bolsos menos recheados.

Os mercados foram-se diversificando e a obra de arte foi tendo várias formas de se comercializar, reproduções, gravuras, postais, slides e sobretudo livro. O livro de arte democratizou-se nas últimas décadas com os preços irresistíveis da Taschen e outros. É a era da reprodutibilidade da obra de arte de que falava Benjamin.

O Museu também se tornou num espaço de massas, tendo os mais importantes enormes filas para entrar e lojas onde é possível comprar toda uma gama de objetos relacionados com a arte, e aos preços mais variados. A arte tem-se democratizado e todos podem ter o seu objeto de arte (é o ponto de vista positivo), ou pelo lado negativo a arte é cada vez mais um negócio.

Alguns outros objetos têm ganho estatuto de obra de arte. Ferraris a vários milhões, relógios de dezenas e centenas de milhares, roupa a preços astronómicos. O mercado do luxo cresce à medida que cresce o número de ricos, mas também se torna menos sofisticado à medida que os novos-ricos já não são os industriais como no século XIX, mas jogadores de futebol, estrelas da música e poderosos de países como a China e Angola.

A exposição também foi ganhando nova importância. Todos os anos se organizam exposições de artistas que correm museus pelo mundo fora. 2017 foi o ano de Hockney, a sua exposição retrospetiva e comemorativa dos seus 80 anos em Londres, Paris abrindo brevemente em Nova Iorque. Em 2018 vai ser Modigliani a ter uma grande retrospetiva na Tate, isto depois de uma sua exposição em Génova ter fechado por ter alguns quadros falsos. Não são só pintores a ter estas honras, fotógrafos como Walker Evans ou Paul Strand também foram expostos recentemente nos “grandes museus”. Os voos low-cost contribuem para o sucesso destas exposições, tão fácil ir de Lisboa a Paris ou a Londres. Arte é comércio e alimenta o turismo.

Portugal moderniza-se e torna-se um país culto. Miró foi um grande sucesso em Serralves e veio para o Palácio da Ajuda. Amadeu de Sousa Cardoso faz um percurso semelhante e Almada Negreiros também tem direito à sua grande exposição.

A componente audiovisual tem um papel cada vez maior nestas exposições, em Hockney é fácil porque o próprio artista usa estes meios, mas também está prevista a sua utilização na de Modigliani. Mas a utilização de audiovisuais é levada ao extremo na exposição “The Van Gogh Experience”, organizada pelo Museu Van Gogh e que é exclusivamente composta por projeções. No site do Museu existe a possibilidade de marcar a ida da exposição a um local. É o extremo do conceito da reprodutibilidade, mas o espectador que tem acesso ao mesmo (reproduções das obras) pode sentir-se defraudado. Esta exposição será boa para os cofres do Museu. Ainda Van Gogh é o centro de um filme, “A Paixão de Van Gogh”, construído como evocaçãço, a sua pintura.

Se o problema é ter o original, uma rede internacional de galerias, Carré d´ Artistes coloca esse original ao alcance de todos. Obras de arte a metro, com preços razoáveis, é o que se propõe. Os preços começam em menos de 100 euros e aumentam consoante as dimensões. Ser um artista desta galeria talvez seja a "morte do artista" que tem que produzir coisas fáceis e vendáveis, mas pode ser um sucesso financeiro. No site encontra-se como se candidatar a ser um artista da rede de galerias, mas não se percebe qual a percentagem das vendas com que estas ficam. Na fotografia já existia algo semelhantes com a rede Yellow Corner.

Para todos não será, mas é uma nova forma de comercializar a arte. Se Andy Warhol dizia que cada um tinha direito aos seus 15 minutos de fama, agora "todos" podem ser um museu ambulante. Com a Converse era o próprio Warhol a poder estar aos pés de cada um, hoje com o esforço de Jeff Koons uma simples mala Louis Vuitton é um museu com obras dos mais reputados pintores. É verdade que estamos a falar de uns três mil euros (depende do modelo), mas o que é isso para ter a tripla assinatura de Van Gogh, Jeff Koons e Louis Vuitton . Se Van Gogh não agradar podemos ter Da Vinci, Turner, Monet, Manet, Boucher, Gaugin, Rubens ou Fragonard, a escolha é muita. Com preços entre 1 000 e 4 000 euros deve ser apelativo para o novo rico que quer parecer culto. Para as WAGs que não conhecem nenhum daqueles artistas mortos é uma Vuitton, isso basta. Serão difíceis de falsificar, ainda não se encontram na Feira do Relógio, nem sequer em China Town, mas não serão elas próprias uma falsificação?

A heroína da canção de Rufus Wainrigth “The Art Teacher”, diz:

“I married an executive company head
All this having been done, a Turner - I own one”

Não sabemos de que empresa era o executivo, não sabemos se o Turner era afinal um Vuitton. Mas o que importa? É preciso muito dinheiro para o comprar. Com muito ou pouco dinheiro o que é preciso é vender. Arte para todos, do postal ao original. Não é só com os ricos que se tem lucro. Vender a todos, ganhar um euro um milhão de vezes é o mesmo que ganhar um milhão uma vez.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL

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