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O que respondemos hoje a um desempregado que pergunte porquê?

Este é um Orçamento que inicia a recuperação dos rendimentos de quem menos ganha.

O Bloco presta contas por este Orçamento. É o Orçamento do governo do PS, não é o Orçamento do Bloco, mas acaba de ser viabilizado na generalidade com o nosso voto - e não ficamos a meio caminho quando se trata de assumir responsabilidades. Prestamos contas. E o Bloco não presta contas às fontes anónimas de Bruxelas, nem a patrões indignados com o aumento do salário mínimo. Prestamos contas aos maiores credores da nossa confiança, àqueles a quem os deputados do Bloco dedicam e dedicarão o esforço maior deste seu mandato: um milhão de portugueses sem emprego, na grande maioria sem qualquer apoio, um milhão de pessoas com as vidas suspensas pelas opções erradas de uma estratégia injusta, a austeridade.

Se este Orçamento garante alguma tímida mudança positiva é porque foi possível um entendimento com os partidos à esquerda do PS

O que respondemos hoje a um desempregado que pergunte porquê? Porque apoia o Bloco, pela primeira vez, um Orçamento do Partido Socialista? É precisamente aos desempregados que a resposta é mais difícil de dar. Quem vive um dia-a-dia de carências, quem subsiste muitas vezes abaixo do limiar da pobreza, não encontra neste Orçamento mudança que baste.

Mesmo com a introdução na especialidade de melhorias nos apoios sociais - subsídio social de desemprego, abono de família -, propostas pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, mesmo com o acesso automático a uma tarifa social reforçada para baixar a fatura da energia, como prevê o acordo entre PS e Bloco, tudo isso é ainda muito pouco em vidas onde falta tanto. Respostas fortes, que deveriam ser para ontem, como a generalização do subsídio social de desemprego a todos os desempregados, exigem, como o Bloco sempre disse, coragem para transformações mais profundas, como a renegociação da dívida, mudanças de política que a relação de forças ainda não permite.

O Bloco não colocou entre parêntesis a sua principal proposta para defender os desempregados deste país: renegociar a dívida e libertar os recursos necessários para apoiar todos aqueles a quem a austeridade roubou o emprego

Esta é, portanto, a primeira resposta que darei ao desempregado que me pergunte porquê. Se este Orçamento garante alguma tímida mudança positiva é porque foi possível um entendimento com os partidos à esquerda do PS. Fizemos esse entendimento em respeito pelo nosso mandato, mas não o confundimos com o nosso mandato. O Bloco não colocou entre parêntesis a sua principal proposta para defender os desempregados deste país: renegociar a dívida e libertar os recursos necessários para apoiar todos aqueles a quem a austeridade roubou o emprego.

A minha segunda resposta aos desempregados deste país, aos que cá estão e aos que tiveram de emigrar, é que este é um Orçamento que inicia a recuperação dos rendimentos de quem menos ganha. Nas pensões, nos salários, no combate à precariedade, este caminho pode começar a trazer oxigénio a uma economia que a austeridade asfixiou.

Não há emprego num país com a economia de rastos. Não há austeridade criativa, nem redistributiva, e muito menos de esquerda. Austeridade é transferir rendimentos do trabalho para o capital e, por isso, do país para fora. Recuperar rendimentos de quem menos tem, de quem nunca colocará o dinheiro num qualquer offshore, mas sim o gastará aqui no que mais precisa, é o primeiro passo para quebrar o ciclo infernal das falências e da destruição de emprego. Recuperar rendimentos de quem trabalha e trabalhou toda a vida, é recuperar a economia, é recuperar emprego.

Há hoje uma maioria de deputados com um compromisso claro perante o país: repor rendimentos do trabalho e respeitar os direitos constitucionais. É nesta direção que vai o Orçamento do Estado, pela primeira vez em muitos anos e o Bloco orgulha-se do seu contributo para este resultado

Por isso vale a pena perguntar o que seria o Orçamento da direita para 2016. Conhecemo-lo. É o orçamento que estava implícito no plano de estabilidade que o governo PSD/CDS entregou em Bruxelas. Um orçamento que protegia do IMI os fundos de investimento e, entre aumentos de impostos, cortes e congelamentos, retirava às famílias 2 mil milhões de euros.

Pelo contrário, o Orçamento que agora começa a ser debatido na especialidade vai noutro sentido. É certo que é tímido na recuperação de salários e pensões. Que permanecem problemas importantes, - na contratação pública, saúde, educação,cultura -, e que somos críticos de muitas das opções do governo. Que são escassas as respostas a quem mais urgência tem numa mudança. Mas há hoje uma maioria de deputados com um compromisso claro perante o país: repor rendimentos do trabalho e respeitar os direitos constitucionais. É nesta direção que vai o Orçamento do Estado, pela primeira vez em muitos, muitos anos, e, sem falsas modéstias, o Bloco orgulha-se do seu contributo para este resultado.

“Recuperar rendimentos é primeiro passo para quebrar o ciclo de destruição do emprego”

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.

Comentários

Fiquei desempregado, eu e todos os meus colegas, em 2011, por causa da crise e estive um ano e meio desempregado. Neste momento trabalho a recibos verdes e neste processo, perdi cerca de 30% do rendimento que tinha em 2011 e aí começam os tais porquês .

1º. Porque é que eu fiquei desempregado, por falência da entidade empregadora, quando existe um principio na constituição dito Principio da Confiança ? Eu tinha um contrato sem termo, organizei a minha vida em torno disso e, no final, nem contrato, nem emprego nem rendimento e muito menos Confiança. É que sendo eu supostamente português, verifiquei mais tarde que existem outros portugueses, cuja entidade empregadora faliu, como a minha, e a quem esse tal Principio da Confiança se aplicou e nao ficaram desempregados. Mais, assisti a um desfile de ilustres e menos ilustres nos meios de comunicação, a defenderem acérrimamente os empregos dessas pessoas, mesmo estando a sua entidade emprreadora falida como julgo que ainda está. E curiosamente essas pessoas evocavam dois principios constitucionais: o da Confiança, que a mim não se aplicou e o da Igualdade, que também não se me aplicou.

2º - Como referi entre 2011 e agora, perdi cerca de 30% do meu rendimento. Mais tarde verifiquei que as mesmissimas pessoas, empregadas da tal entidade empregadora falida, viram os seus rendimentos, perdidos em parte pela crise, TOTALMENTE repostos para valores de 2011 !!! Ao abrigo dos mesmissimos principios, da Confiança da Igualdade, que a mim e a muitos milhares não se aplicaram ! E sempre defendidos até à exaustão pelas mesmissimas ilustres pessoas, que se revezavam nos meios a defenderem aquele grupo de portugueses eleitos.

E temos agora que empregados dessa entidade falida com ordenados superiores a 1500 euros, viram os seus rendimentos totalmente repostos, os empregos garantidos, haja o que houver,a trabalharem menos horas do que eu alguma vez trabalhei, com direito um sistema de saude privado, que se der buraco, sei de antemão que vou ter de pagar, mesmo nao tendo acesso a ele, e volto ao titulo do seu post:

PORQUÊ ????????????????? Os portugueses estão divididos em categorias, castas ou o que lhe quisermos chamar ??????

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