O conservadorismo agita-se

Nas últimas semanas temos assistido ao redobrar de esforços de alguns defensores do ‘Não' no sentido de aplainar a derrota e subverter o sentido do voto de 11 de Fevereiro. Primeiro foi o CDS a agitar a bandeira do carácter não vinculativo do referendo. Seguiu-se a exigência da cúpula do PSD, acompanhada por algumas eleitas PS, de introduzir na nova lei o pressuposto do aconselhamento obrigatório, numa tentativa de transformar o seu ‘Não' em lavagem cerebral mascarada de ‘Sim'.

Nas últimas semanas temos assistido ao redobrar de esforços de alguns defensores do ‘Não' no sentido de aplainar a derrota e subverter o sentido do voto de 11 de Fevereiro. Primeiro foi o CDS a agitar a bandeira do carácter não vinculativo do referendo. Seguiu-se a exigência da cúpula do PSD, acompanhada por algumas eleitas PS, de introduzir na nova lei o pressuposto do aconselhamento obrigatório, numa tentativa de transformar o seu ‘Não' em lavagem cerebral mascarada de ‘Sim'.

Os porta estandartes do conservadorismo procuraram, entretanto, desenhar uma falsa dicotomia entre um ‘Sim' moderado e um ‘Sim' radical, tentando desta forma chamar o PS à razão, e, ao mesmo tempo, (im)pressionar o Presidente da República, na esperança de que Cavaco não promulgue, por excesso de esquerdismo, o projecto aprovado no parlamento.

Esta vã campanha tem vindo a público através de anúncios pagos em jornais de referência, em intervenções públicas e em artigos de opinião onde se mostra a natureza desumana de quem se advoga defensor da vida. Vejamos dois exemplos, protagonizados por Bagão Félix (na Antena 1) e Gentil Martins (no Público), ambos na 4ª feira passada (7 de Março).

Ao manifestar-se indignado pela introdução da opção da mulher na realização da IVG, prevista no diploma em discussão, Bagão Félix, enchendo a boca com a palavra liberalização, põe mais uma vez a nu o seu desdém pelas mulheres e pela sua capacidade de escolha.

Já Gentil Martins brinda-nos com um artigo bem ao seu jeito. Começando por agitar Hipócrates e o código deontológico, critica fortemente a opção de impedir os objectores de consciência em participar na consulta de esclarecimento. Mas o pior vem mesmo no último parágrafo do texto, altura em que o autor se atreve a dizer em voz alta aquilo que muitos pensam: nos casos de aborto, a lei actual (e a que será aprovada) é demasiado permissiva. Para este senhor, a mulher violada tem tempo suficiente para, no prazo de dez semanas, decidir.

É a falta de sensibilidade e de humanismo no seu expoente máximo.


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