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O Algodão não engana

Passos Coelho pôs o país a falar do novo imposto sobre o subsídio de Natal e, com isso, conseguiu um quase silêncio sobre um programa de governo que é, no seu todo, de uma violência inaudita.

A hiper-vizibilização de algo é sempre a arte de deixar o resto na penumbra. Passos Coelho sabe-o bem. Pôs o país a falar do novo imposto sobre o subsídio de Natal e, com isso, conseguiu um quase silêncio sobre um programa de governo que é, no seu todo, de uma violência inaudita.

Claro que o saque do 13º mês vale por si mesmo como expressão de violência social. E que a sua ocultação prévia durante a campanha eleitoral mostra quanto as elites dirigentes do PSD prezam realmente a exigência de uma “política de verdade”. Mas onde este programa de governo mostra realmente ao que vem é na desvalorização estratégica do valor do trabalho e na penalização dos mais pobres. O algodão não engana: a flexibilização ainda mais agravada das relações laborais, a redução drástica da contribuição patronal para a segurança social, o embaratecimento dos despedimentos e a desvalorização do subsídio de desemprego, em simultâneo com a intocabilidade fiscal dos rendimentos do capital serão o eixo de desenvolvimento do trabalho afanoso do Governo para mostrar serviço aos credores que mandam. O resto completa a fotografia e radicaliza-lhe as cores: destruição do Serviço Nacional de Saúde através de mega-fusões e de amplitude acrescida para a gestão privada das unidades de saúde, um poder judicial moldado como um simples ajudante lesto de negócios e não como baluarte dos direitos de todos, um sistema educativo que eleva a selecção (de professores e de estudantes) a seu mandamento orientador. Quando o país estiver morto de exaustão, a economia afundada em recessão e incapaz de reganhar o caminho do crescimento, veremos o Governo a proclamar, ufano, que atingimos as metas que nos tínhamos proposto…

Diante de tudo isto, a complacência derrotada da bancada socialista, preenchida por inúmeros ex-governantes, no debate do programa do governo – entremeada com a anedótica “oposição de corredor” dos candidatos a líder – evidencia a condição a que a conduziu o alinhamento com Durão Barroso e com o cartel de bancos nacionais. É a vida – como dizia o outro senhor.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.

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