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No rescaldo das presidenciais

Mesmo considerando que qualquer um nunca será tão desonroso e tão descabido quanto Cavaco, MRS pode ser mais arriscado porque tem intentos, porventura, mais insidiosos e mais ardilosos.

Ganhou o sr. televisão que há anos a fio nos entra em casa em jeito de doutrina dominical, formatando elites e povo com a futilidade da ocorrência. Ganhou o sr. estratégia que fez o guião, construiu a personagem, encenou o palco e rodou o filme. Ganhou o sr. pregador de política que enxotou a política e os políticos obrigando a sua família partidária a “engolir o sapo”. Ganhou o sr. catavento das mundividências litigáveis apto à autocontradição para produzir opinião. Ganhou o sr. simpatia de plástico com simulada ternura, que exala conversa frugal ao jeito de que mais vale um afeto na mão do que duas dissensões a voar. Ganhou o sr. professor que planificou meticulosamente todos os momentos. Apresentou-se à liça quando já todos o tinham visto na arena. Deixou-se ficar para depois das legislativas quando a solução governativa à esquerda era pressentível. Despiu a farda de comentador de tudo para nada dizer, para com nada se comprometer e com todos poder conciliar. Fez-se idolatrar como mestre da empatia num estilo imperial de passeata pelo país, como que planando sobre o tumulto de um povo estropiado pela austeridade. Desconversou, fez de conta que nada do passado lhe pertencia, programou todos os passos sem Passos e C& ao ponto de fazer com que os imprevistos fossem todos previsíveis. É verdade que Marcelo Rebelo de Sousa é dono da sua própria vitória, só que esta foi construída com alicerces de conversa seca, paredes de embuste luzente e telhado de enleadas opacidades que a qualquer momento revelam conveniências e conivências. Mesmo considerando que qualquer um nunca será tão desonroso e tão descabido quanto Cavaco, MRS pode ser mais arriscado porque tem intentos, porventura, mais insidiosos e mais ardilosos. A ver vamos, compete-nos estar atentos.

Também ganhou o nacional-parolismo do Vitorino Silva. Mesmo efémero, este é também um fenómeno televisivo para entretém da populaça, como cultivo da figura patusca que desperta simpatia pelo desaforo. O povo não é isto e mal de nós quando o símbolo da sociedade civil for o Tino de Rans.

Ganhou a Marisa Matias pela autenticidade com afeto, pela preparação e responsabilidade, pelo acervo de um passado de luta e ideias, pelo debate “sem papas na língua”, pela discussão do que é discutível, pela política com humanismo. Marisa, é um dos rostos da nova geração que querem mudar a forma de fazer política, intervindo pela capacidade e credibilizando pela qualidade e veracidade.

Ganhou o Bloco de Esquerda porque demonstrou que o resultado das legislativas não foi circunstancial, não foi volátil, mas sim a ratificação de uma alternativa credível e desejável para um cada vez maior número de pessoas. É a afirmação de uma base estrutural de eleitorado como marca indelével de uma vontade popular de mudança identificada com esta esquerda.

Empatou Sampaio da Nóvoa porque mesmo não conseguindo os objetivos eleitorais de 2ª volta, trouxe à campanha uma dinâmica de força em crescendo em consonância com a asseveração de um candidato competente e mobilizador.

Perdeu, humilhantemente, Maria de Belém. Candidata de fação, presidente de um partido que não a apoia, com uma campanha atropelada pela inabilidade dos promotores e sufocada pelo passado e incongruências da protagonista. Perda de campo de ação politica, esvaziamento de causas e desmobilização permanente, faziam antever um descalabro. Mas, sinceramente, não seria imaginável, tal vexame eleitoral. Para adornar a tragédia, Maria de Belém desferiu o último ataque ao fazer questão de ser a primeira a anunciar a vitória de Marcelo. Vingança fratricida.

Perdeu o PS porque não soube atempadamente definir estratégia e marcar posição. Deixou-se enredar na teia das lutas internas e acabou, pela primeira vez na história do partido, sem candidato oficial. Improvisou uma demarcação ao mesmo tempo que dissimulava o apoio a Nóvoa acicatando cada vez mais a ala Segurista. Ficou, mais uma vez, a ziguezaguear entre o estar e o fazer de conta que está, para não prestar contas de ter estado. A política exige clareza e afirmação nas decisões. Umas eleições presidenciais são demasiado importantes para se ocultar presenças e se sacudir responsabilidades. Só consigo compreender a tática se por acaso havia algum interesse em que o desfecho eleitoral, fosse o que foi.

Perdeu, afrontosamente, Edgar Silva e o PCP. Mesmo criando a alegoria linguística de que os resultados ficaram aquém do esperado, é certo que nunca a fasquia eleitoral do PC desceu tão baixo, havendo mesmo distritos em que a votação é residual. Enchentes em comícios, grandiosas arruadas, máquina partidária em pleno, candidato bem-aventurado, eleitorado fiel e “ferrinho”. O que correu mal? Todas as explicações estão em aberto e com certeza que o PC as encontrará. O que é estranho, nada admissível e convenhamos indecente, é a insultuosa e sexista “tirada” do secretário-geral quando disse que também podiam arranjar uma candidata engraçadinha. Fica muito mal num partido que sempre lutou pela igualdade de direitos, tem tradição nas lutas feministas e tem nos seus quadros excelentes deputadas e ativistas.

Perdeu o país, porque perdeu a oportunidade de completar o ciclo de mudança para um tempo novo e afirmar uma outra política que efetivamente contribua para a melhoria de qualidade de vida, que todos merecemos.

Num registo local reforço a análise que já fiz aquando das legislativas. Em Barcelos, Marcelo fica 11,5 pontos percentuais acima da média nacional dando uma “banhada” com maioria absolutíssima. Aliás, talvez sintomático do tipo de eleitorado predominante no concelho, o outro candidato que fica acima da média nacional é o Vitorino. Marisa Matias tem um excelente resultado, Sampaio da Nóvoa fica-se pelo honroso e Maria de Belém é arrasada. Os restantes têm votações residuais. Esta tendência de resultados, mesmo entendendo a diferença dos atos eleitorais, deve merecer uma profunda reflexão das forças de esquerda no concelho.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Professor

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