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Mais saúde, menos hipocrisia

A posição do PSD e do CDS sobre matéria científica mais do que estudada é um acto de negação criminosa do direito à saúde a milhares de pessoas.

Negar a realidade é uma das profissões de fé mais antigas do Mundo. Tudo somadinho, ideias claras e organizadas, dados na mão mas que - como que por milagre - não permitem deixar de soletrar um infame a/in/da/sim. A saber que 2+2 são quatro mas a velar a honestidade intelectual com a clemência da santa inquisição dos costumes, a queimar o livro de "matemática para totós" pela soma dos seus interesses. Somar opções, para muitos, é sempre a dividir. O produto, para alguns, é sempre fraco. Ainda que seja terapêutico ou medicinal.

A posição do PSD e do CDS sobre o projecto de lei apresentado pelo Bloco de Esquerda e PAN sobre a canábis medicinal não resulta de um desconhecimento atroz. Não é causada pela incompreensão ou eivada por dúvidas legítimas. A posição do PSD e do CDS sobre matéria científica mais do que estudada é um acto de negação criminosa do direito à saúde a milhares de pessoas. É um panfleto de irracionalidade e má-fé em nome da sua pretensa superioridade moral e costumes. É um tratado de trejeitos histéricos acerca da moral social dos outros, cómico se não fosse triste, preconceituoso, tão clássico como parolo e ultrajante. Hipócrita e ofensivo porque mente. E mente sobre a sua própria casa, ao seu próprio espelho e pela negação dos seus próprios hábitos, apontando aos outros como estereotipias muito do que no conforto da sua privacidade se encara como pequeno desvio recreativo de elite. Já a posição do PCP sobre o projecto de lei sobre a canábis medicinal é tudo isto e muito mais: é uma vergonha.

É muito evidente a razão pela qual estas três forças partidárias têm sido, historicamente, as forças de bloqueio sobre esta matéria na Assembleia da República. Tão preocupados com a saúde pública e com o inferno paliativo dos doentes como alguns órgãos de comunicação da capital, a titular Lisboa, se mostraram preocupados com as pessoas no epicentro do sismo em Arraiolos. Zero na escala. Foi assim em 2018, contra toda a investigação científica produzida, à revelia da Organização Mundial de Saúde, doentes, oncologistas, neurologistas, psicólogos, enfermeiros e demais profissionais da saúde. Foi assim em 2013 e em 2015 quando impediram alterações legislativas propostas pelo BE nesta matéria.

O seguidismo tem v de volta. O caciquismo de última hora contribuiu para eleger um agora candidato a primeiro-ministro mas não chegou para eleger um outro candidato a líder no partido. Rui Rio declarou durante a campanha que não está contra a utilização da canábis para fins medicinais. Pelo contrário, Santana Lopes, em nome dos "valores e princípios da sua organização da sociedade", preferiu a morfina. E antidepressivos, julgo. Agora em sede de especialidade, o PSD pode ter outra substância.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 17 de janeiro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.

Comentários

Este artigo é que não tem base científica e o autor não tem formação para a analisar. O uso médico da canais só tem justificação numa gama pequena de situações, não apresentando, em geral, vantagens sobre outras alternativas medicamentosas a não ser quando há reações a estas.
Desafio o autor a apresentar a evidência médica em que se baseia. Assim, é só discurso ideológico. Se aceitar o desafio, comprometo-me a discuti-la cientificamente com o autor ou com alguém do BE que saiba do assunto. Aliás, há médicos sérios no BE, como os que protestaram contra o afã do BE (leia-se Moisés Ferreira) em prol das "medicinas" alternativas.
Além do mais, não é necessária a legalização para a oferta de medicamentos com canabinoides. basta a aprovação do Infarmed. De facto, o que se pretende abranger legalmente é o autocultivo, com os perigos que muita gente, eu incluído, acha que tem.
sabe-se que o BE defende o uso livre, dito "recreativo" (não percebo de onde vem este nome, outra coisa de novilíngua) da erva, marijuana, liamba, canábis, "whatever". É mais uma das causas fraturantes. Mas então proponham legislação nesse sentido, não pela porta do cavalo.

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