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Macron ou o candidato do pós socialismo

Não há diferença de fundo entre a direita de François Fillon e o “nem direita nem esquerda” de Emmanuel Macron, se excluirmos algumas questões de sociedade.

É por demais evidente que o fenómeno Macron é, do princípio ao fim, uma construção político-mediática, tendo a personagem em questão surgido do nada: desconhecido aquando da sua entrada no governo, como secretário-geral adjunto da presidência em 2012, dele saiu em 2016, como ministro da Economia, com um grau de popularidade próximo de zero. É a partir daí que Macron, sózinho, ou Macron com a mulher, começam a ser notícia na comunicação social e nas capas dos tablóides. Numa delas, a fotografia do casal é acompanhada da interrogação/sugestão : um casal a caminho do Eliseu?

A pretexto de dissenções com o governo de François Hollande por este não ter ido demasiado longe nas reformas (entenda-se, no que ao caráter liberticida ou neoliberal das mesmas respeita), a saída do jovem ministro foi realizada com a cumplicidade do presidente francês do qual se destinava a ser, ou o primeiro Ministro se aquele se recandidatasse ao Eliseu, ou o sucessor no caso contrário, o que viria finalmente a acontecer. Desta personagem pouco popular, fabricou-se assim uma virgindade política, de homem independente, anti sistema, nem de direita nem de esquerda, moderno e… revolucionário.

Este retrato do candidato ao Eliseu fabricado pelo aparelho político-mediático, em nada coincide com Emmanuel Macron, filho querido de Hollande e do hollandismo e escolhido como seu sucessor.

Alto funcionário da administração pública antes de se tornar banqueiro de negócios, para depois se transformar em governante, Emmanuel Macron foi, como secretário geral adjunto da presidência num primeiro tempo (2012-2014) e como ministro da Economia num segundo tempo (2014-2016), o inspirador e instigador da política económica de François Hollande: desde o chamado Pacto de Responsabilidade até à célebre Lei Trabalho, passando pelo CICE (crédito de Imposto para a Competitividade e o Emprego) e a Lei Macron, um condensado de medidas de desregulamentação de certos mercados de bens e serviços, do mercado do trabalho e da protecção social, na exacta linha das injunções de reformas estruturais reclamadas pela OCDE, o G20, a Comissão e o Conselho Europeus, ou seja o Capital na sua tentativa de captar mais rendas.

Todas estas medidas de política económica já se traduziram (Pacto de Responsabilidade, CICE) em gigantescas transferências de valor do setor público (orçamento do Estado) para o privado em benefício dos grandes grupos económicos e das multinacionais; no âmbito laboral, foi consagrado um amplo  retrocesso que poderíamos sintetizar dizendo que foi dado um passo de gigante do Direito do Trabalho para o trabalho sem direitos . Se em Portugal a aspiração é destroikar o Código do Trabalho, em França conseguiu-se a proeza de o troikisar sem Troika.

Sobre este ponto de vista, se o quinquénio de François Hollande foi mortífero, foi também histórico e, isto, por duas razões.

Primeiro, porque, pela primeira vez na história da Va República um governo de maioria socialista é objecto de uma tão intensa, duradoura e generalizada contestação; a esta contestação respondeu contrapondo a violência institucional (através da passagem em força das leis sem voto do Parlamento, fazendo uso do célebre artigo 49.3) e do arsenal repressivo ( proibição de manifestações ou mudança constante do seu itinerário, aparato policial, força utilizada contra os manifestantes, detenção de activistas...).

O ponto dois é corolário do primeiro: foi durante este quinquénio que os socialistas franceses deixaram cair por completo a máscara debaixo da qual ainda se íam encapotando; agora, ficou patente perante toda a população francesa que os socialistas podiam fazer exactamente como a direita e, até, ir mais longe do que ela, se necessário.

Se François Hollande foi o Presidente mais impopular da Va República, foi também e, por isso mesmo, um presidente histórico, ao assinar a sentença de morte do partido socialista.

Alguns dirão que a política dos socialistas franceses constituiu mais uma traição a adicionar às sucessivas traições do passado. Cremos poder afirmar, com o economista e filósofo francês Frédéric Lordon, que se trata, pelo contrário, de um acto de fidelidade. A fidelidade ao que o partido socialista francês se tornou desde a sua renúncia definitiva ao socialismo em 1983, dois anos após a tomada de posse do presidente François Miterrand. Esse ano marcou a viragem inexorável do partido socialista, a sua conversão aos mercados financeiros e à desregulamentação, à política do franco forte e da deflação competitiva.

Assim sendo, podemos dizer que o ciclo de abandono do socialismo iniciado por François Miterrand foi definitivamente fechado por François Hollande ao dar o golpe de morte ao socialismo tal como estávamos habituados a entendê-lo.

O seu sucessor é o macronismo, uma tendência indefinida, nem de direita nem de esquerda, desideologizada, como desideologizado é o neoliberalismo que esconde a ideologia atrás da técnica, para reduzir as opções de vida a uma só, a do There is no alternative da Margaret Thatcher e dos seus discípulos.

Não há pois diferença de fundo entre a direita de François Fillon e o “nem direita nem esquerda” de Emmanuel Macron, se excluirmos algumas questões de sociedade. Do ponto de vista das políticas económicas elas são idênticas, distinguindo-se apenas pelo seu carácter brutal de austeridade injectada a dose de cavalo (François Fillon) ou de forma gradual (Emmanuel Macron).

Se as sondagens se confirmarem – e sabemos hoje mais do que nunca o quanto elas nos devem merecer circunspeção – e se a conversão sucessiva a Emmanuel Macron dos mastodontes do partido socialista - que culminou com a do ex-primeiro-ministro Manuel Valls - não provocar um enfraquecimento do candidato pela sua colagem por demais evidente ao governo de Hollande, o candidato que se orgulha de ter sido banqueiro disputará a segunda volta das eleições presidenciais contra Marine Le Pen.

Poderá ganhar as eleições - tal como François Fillon se este ascender ao mesmo lugar - graças à chamada frente republicana, ou voto útil; se tal acontecer, continuaremos confrontados com este paradoxo: o de uma sociedade que, ao escolher o que julga ser o menor mal para fazer barragem à extrema-direita, elege os preconizadores das políticas neoliberais que, ontem como hoje, a fazem inexoravelmente crescer; políticas que empurram para os braços da extrema-direita, a massa cada vez maior dos excluídos que fabricam.

Versão longa de artigo publicado no "Diário de Notícias" a 13 de abril de 2017

Sobre o/a autor(a)

Economista, dirigente do Bloco de Esquerda.

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