A Linha Verde: o parente pobre do Metro de Lisboa

Mesmo fora das horas de ponta, a redução para 3 carruagens do Metro da linha verde faz com que seja cada vez mais desconfortável andar no transporte público que tem aumentado de preço a cada 6 meses.

Foto de Paulete Matos

Mesmo fora das horas de ponta, a redução para 3 carruagens do Metro da linha verde faz com que seja cada vez mais desconfortável andar no transporte público que tem aumentado de preço a cada 6 meses.

São 19h30 e o cais da estação do Campo Grande está a abarrotar. Entro, a custo, numa carruagem da linha verde, a caminho do Martim Moniz. Com o nariz a 5cm da porta, em cada estação vejo dezenas de pessoas no cais, cansadas e a tentar voltar para casa. Na Alameda, com o cais cheio, um pai e seus dois filhos com as mochilas maiores do que eles , não conseguem entrar. Não há lugar para crianças na linha verde em hora de ponta.

Mesmo fora das horas de ponta, a redução para 3 carruagens do Metro da linha verde faz com que seja cada vez mais desconfortável andar no transporte público que tem aumentado de preço a cada 6 meses. Nada contra a confraternização entre cidadãos urbanos que, por vezes, perdem as relações de vizinhança e de amizade na multidão. Mas forçar as pessoas a se empurrarem para conseguirem entrar numa carruagem de metro é, simplesmente, pisar na sua dignidade.

Na linha verde, onde existem várias correspondências com os comboios da CP e com os barcos que fazem a ligação a Cacilhas, ao Seixal e ao Montijo, viajam diariamente mais de 129 mil pessoas. Já na linha vermelha, onde o metro decidiu manter a circulação com seis carruagens durante o dia, o número de passageiros é menos de metade. É esta a lógica de eficiência do liberalismo deste Governo para os transportes públicos.

Os resultados desta opção política do Governo, imposta indiretamente pela Troika, são dois. Primeiro, a contestação dos utentes, que se queixam de viajar como sardinhas em lata, que, além das queixas formais a entidades como o Provedor de Justiça, também puseram a rodar na net uma petição. Segundo, o resultado que tem também como causa o desemprego, é a redução de 55 mil passageiros/dia nos transportes públicos. A conclusão óbvia é que a austeridade (e o desemprego), com o aumento dos preços e redução da oferta, está a levar a que as pessoas gastem menos em transportes públicos, reduzindo a sua mobilidade numa cidade que é suposta ser de todos e de todas. Ou queremos uma cidade só para os que têm a possibilidade financeira de se mover dentro da cidade?

Para averiguar a situação, o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, visitou as instalações do metro em meados de Abril. Depois de refletir - imenso, suponho - perante os factos óbvios a todos os utentes da linha, disse que o Governo iria dar instruções à Administração do Metro de Lisboa para corrigir os erros de relação entre oferta e procura, com o aumento do “número de circulações na hora de ponta da manhã”com mais 2 carruagens por hora. Portanto, a solução do Governo é deixar tudo na mesma. Hoje, um dia de semana em que há menos estudantes nos transportes públicos por estarem de férias ou em exames, a linha verde continua à pinha.

A espiral de degradação da linha verde e dos transportes públicos em geral, acontece ao mesmo tempo que o programa de privatizações do Governo anda a passos largos. Vamos esperar que aumentem o preço e degradem este serviço público essencial à vida lisboeta para aceitarmos de bom grado a sua privatização, à espera que uma empresa privada gaste menos do que o Estado? A degradação do metro e o aumento do seu preço é uma opção, que não poupa aos contribuintes, muito pelo contrário. Até quando vamos aceitar ser sardinhas enlatadas no metro de Lisboa, pagando cada vez mais?

Foto de Paulete Matos

Comentários

Queixa-se que anda em sardinhas em lata num serviço público completamente capturado pelos grupos de interesse arreigados ao Estado e ineficientes eternos. Depois diz que a culpa é do liberalismo (Liberalismo que nunca existiu, num Estado que arrecada 50% do trabalho dos cidadãos. Cuidado lá com essas noções). Não é preciso fechar-se em leituras de economistas estritamente liberais para saber que a concorrência baixa os preços. Não usa telemóvel?? Já pensou nas operadoras? Pede mais do mesmo, do monopólio estatal que faz de si uma lata de conserva. Depois querem ser levados a sério com este tipo de textos? Tenham piedade. (sim, já sei: o contraditório não é aprovado na vossa caixa de comentários. Cumprimentos!)

Cara Sofia, o contraditório é aprovado e incentivado nos comentários do Esquerda.net. O que não é aprovado são insultos, manifestações xenófobas, calúnias.
Já agora, a sua argumentação não tem pés nem cabeça. Se defende a privatização total dos transportes, para haver a tal concorrência, pode desde já comparar os comboios da ponte, privados da Fertagus, que são muitíssimo mais caros que os da CP. Serviços públicos não servem para obter lucro, por isso são... serviços públicos. Se servissem para dar lucro, apenas estariam disponíveis para a parcela da população que os poderia pagar.

(última)

A existência de lucro é desejável porque só assim estarão disponíveis poupanças para futuros investimentos. E aqui responde-me que não confia nos privados, certo? pois lamento admitir, mas a verdade é que os empresários são feitos da mesma massa dos governantes e não temos anjos vs homens gananciosos. Temos, isso sim, incentivos e importa perceber as falhas de mercado tal como as FALHAS DE GOVERNO.

(continuação)

Volto a dizer: por mim o serviço podia ser público na sua essência, desde que a exploração do serviço estivesse aberta a fornecedores variados e as contratualizações fossem inócuas, em vez de termos esta definição de critérios pelo Estado que dificulta a vida a novos entrantes.

Ao contrário daquilo que costumam preconizar aqui, um serviço público não tem de ser sinónimos de prejuízo. A saúde, a educação, os caminhos de ferro, as estradas...nada disto tem de dar prejuízo. Custa-me particularmente ouvir este discurso porque, embora até concorde com a vossa indignação face à perda de soberania nacional perante o endividamento, vejo como entram em contradição ao desejar alimentar os ineficientes e a conservação destes monopólios.

(continuação)

Se a privatização de uma linha férrea não é viável, por outro lado, a concorrência na exploração por meio das concessões são viáveis e desejáveis! Devemos interrogar-nos então quanto à forma como as concessões são feitas. A regulação do Estado neste aspecto é tudo menos imparcial e não existe verdadeira abertura do mercado transparente. O jogo continua viciado pelos objectivos políticos temporários. Em última instância pagamos sempre nós, a perda de eficiência, tanto pública como privada. A actual fertagus é rentável, prova disso é existirem interessados a querer concorrer contra a fertagus. Talvez esteja a ser rentável demais porque não está sujeita a pressão de rivais.

Fico satisfeita pela aprovação. (Falei daquela forma porque já tinha tido experiências diferentes neste site).

Entretanto, olhando para o caso da Fertagus depara-nos com o problema habitual nestas discussões. Bem sei o que custa um passe da fertagus porque já me custou bastante ter de fazer face a esses preços abusivos. A discussão neste ponto deixa de fazer sentido porque estamos a falar em privatizações "à tuga" que não deixam a verdadeira alocação do custos baixar para níveis racionalizados (tanto para cliente como para o fornecedor). A natureza do próprio serviço tem subjacentes impedimentos que não se colocam, por exemplo, a nível de padarias. Para que fique claro, o que defendo não é a privatização porque ela por si só pode ter os mesmos vícios daquilo que temos agora. O elemento decisivo é a concorrência que coloca o poder de escolha nas mãos dos utentes.

Olá Rodrigo,

Assino em baixo, tal como todos(as) os infelizes utentes do metro, nessas condições.

Cheers

Joana

Submeter um novo comentário

A privacidade deste campo é garantida e o seu conteúdo não será exibido.

  • Web page addresses and e-mail addresses turn into links automatically.
  • Allowed HTML tags: <a> <em> <p> <br> <b> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd> <img> <hr> <i> <border> <embed> <a href> <sup> <img style> <table> <tbody> <tr> <td><div><!--break-->
  • You may embed videos from the following providers . Just add the video URL to your textarea in the place where you would like the video to appear, i.e. http://www.youtube.com/watch?v=pw0jmvdh.
  • Lines and paragraphs break automatically.
  • Insert Flickr images: [flickr-photo:id=230452326,size=s] or [flickr-photoset:id=72157594262419167,size=m].
  • You may use <swf file="song.mp3"> to display Flash files inline
  • Add tooltips to text. Usage [tip:Text to highlight=The tooltip's content]

More information about formatting options

CAPTCHA
Esta questão é necessária para evitar a acção dos robots usados pelos spammers
Image CAPTCHA
Tenha em atenção as letras maiúsculas e minúsculas