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Jerónimo Martins tem agido, em Portugal, com total impunidade e privilégio

O Pingo Doce vendeu abaixo do custo no 1º de Maio, para esmagar a concorrência e prejudicar os consumidores no futuro.

Polícias à porta dos supermercados, incidentes entre as pessoas que esperavam horas e horas, filas próprias de uma catástrofe natural. As imagens que ontem invadiram os televisores de todas as casas deram-nos conta de um país em estado de sítio e em estado de privação eminente.

O caos tomou conta do país porque a maior distribuidora do país decidiu oferecer descontos de 50% a quem fizesse compras superiores a 100 euros.

Dos 365 dias do ano, o Pingo Doce não encontrou melhor dia para fazer uma promoção sem precedentes em Portugal do que o feriado do primeiro de maio.

Um dia em que os trabalhadores tinham o seu descanso por garantido, mas em que se viram obrigados não só a trabalhar mais do que em qualquer outro dia, como a fazê-lo em condições indignas que puseram em causa a sua própria segurança e integridade física.

A escolha não foi inocente. Entendamo-nos. Não foi uma promoção publicitária, mas uma ação política para virar consumidores contra trabalhadores. E para marcar um ponto político, em favor da desregulação de horários e condições de trabalho, precisamente no dia do trabalhador.

No momento em que o Governo avança, como nunca, no sentido da desregulação do mercado trabalho, a mensagem foi clara. Os direitos dos trabalhadores são um empecilho para a economia e os interesses dos portugueses. Não são. Os consumidores, quando saem do Pingo Doce também são trabalhadores. E não há promoção que pague, a médio e longo prazo, o que perdem com a diminuição dos seus direitos.

Todos sabemos, e percebemos, que sabe bem poder poupar metade do que se gasta habitualmente na mercearia ou no supermercado. Mais a mais num país que, como nos disse hoje o Eurostat, tem mais 140 mil desempregados desde que o PSD e CDS chegaram ao governo. A reação popular é mais do que compreensível. Ela é, aliás, o sinal mais evidente da depressão económica em que o país se encontra mergulhado.

Podia esta campanha e reação popular ter tido lugar antes da crise social que vivemos? Podia, mas não era a mesma coisa. Nada obrigava a Jerónimo Martins a escolher este dia, ou alguém imagina que esta empresa seria capaz de organizar esta iniciativa no dia de natal?

Não, a força do simbolismo não escapou à distribuidora. Não contente com a desregulação dos horários de trabalho, decidiu invadir o caráter simbólico do primeiro de maio para humilhar e vergar quem entende que, contra a prepotência e repressão, cabe lugar à dignidade do trabalho.

Nada melhor, a este respeito, do que dar a palavra a quem sabe do que fala.

Já parou para pensar por que é que existem descontos? O desconto só existe para se poder baixar um preço que estava caro. Se ele já estivesse barato não eram preciso descontos, não é verdade? E com as promoções é a mesma coisa. O preço sobe e desce, sobe e desce”.

Quem assim explica, de forma simples e direta, como funcionam as promoções é o próprio Pingo Doce, num dos seus anúncios. Que fique pois claro: o que aconteceu ontem não foi uma promoção. Foi sim uma operação ilegal contra a concorrência e para pressionar os fornecedores.

Das duas uma. Ou o Pingo Doce vendeu ontem abaixo do custo, para esmagar a concorrência e prejudicar os consumidores no futuro, ou apresenta margens de lucro de 50% nos outros 364 dias do ano.

Como dizem os ideólogos liberais, tão do agrado do dono da Jerónimo Martins e deste governo, não há almoços grátis. A promoção de ontem vai sair cara, demasiadamente cara, aos consumidores e à economia.

O que a Jerónimo Martins fez foi vender abaixo do preço do custo. E quebrou a lei: porque ou vendeu com prejuízo, o que é ilegal, ou obrigou os seus fornecedores a venderem abaixo do custo, o que também é ilegal.

Perguntemos pois porque arrisca a Jerónimo Martins tal operação ilegal. Simplesmente porque sabe que este governo protege sempre os donos de Portugal. Dissemo-lo quando aqui debatemos a Lei da Concorrência: de nada vale uma lei que não belisca sequer a grande distribuição.

O Governo fechou os olhos. Criou uma plataforma para a autorregulação – a PARCA – que é parca de nome e de resultados. O Ministro da Economia chuta para a Ministra da Agricultura, a Ministra da Agricultura chuta para as calendas. A grande distribuição ri, impune, cada vez mais poderosa.

A prova da ilegalidade ontem cometida pela Jerónimo Martins exige que os fornecedores tenham capacidade para declarar o real custo dos seus produtos. Mas sabemos que a relação com o gigante da distribuição é tudo menos fácil; na Polónia este grupo foi já condenado por dumping de preços e práticas ilegais contra fornecedores.

Em Portugal as práticas repetem-se, vamos sabendo que as campanhas que supostamente promovem os produtos nacionais são, de facto, as campanhas do esmagamento dos produtores nacionais.

A imposição de contratos abusivos, do preço ao prazo de pagamento, passando pelas alterações constantes às condições contratuais tornou-se a regra e não a exceção.

Mas até agora a Jerónimo Martins tem agido, em Portugal, com total impunidade e total privilégio.

O Bloco de Esquerda entregou, hoje mesmo, dois requerimentos para ouvir o ministro da economia e a ministra da agricultura. É preciso ficar claro que o Governo vai garantir todas as condições à ASAE para investigar o sucedido.

O que aconteceu ontem põe a nu a verdadeira natureza deste grupo: humilhação dos consumidores, abuso sobre os trabalhadores, concorrência desleal, esmagamento da produção nacional. Todo o poder, nenhuma responsabilidade. O silêncio do Governo nesta matéria fala mais do que qualquer palavra. É a voz da cumplicidade ativa.

Declaração Política na Assembleia da República, sobre a promoção da Jerónimo Martins - 2 de Maio de 2012

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.

Comentários

Totalmente de acordo. Já tinha estranhado não ver notícias a mencionar a escolha precisa desta data. E lembrei-me até de uns vídeos que os Precários Inflexíveis fizeram há dois anos (?) num dia do trabalhador, precisamente à porta de um supermercado Pingo Doce, em que os consumidores carregados de compras acabavam por assumir a injustiça para a qual estavam a contribuir. Este ano as respostas seriam diferentes...

As chamadas grandes superficies e não só o PINGO DOCE são autênticos eucaliptos que estiolam tudo à sua volta. Creio que nunca passam as respectivas facturas ...apenas quando solicitadas o que faz com praticamente ninguém as exija inclusivé pela morosidade e desconforto que causam. Nã valeria a pena alterar este estado de coisas de molde a que sejam obrigadas a passar sempre de imediato as respectivas facturas e não ser necessária a solicitação da mesma? Talvez fosse possível denunciar esta situação e exigir a alteração deste previlégio... como se os outros não bastassem!

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