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A greve dos médicos e a defesa do SNS

A atual governação da saúde tem desiludido todos aqueles que esperavam como eu que, também na saúde, se operasse uma rotura com a política do anterior governo e isso, em grande medida, não se tem verificado.

A acusação a José Sócrates, as candidaturas de Rui Rio e Pedro Santana Lopes, o Portugal-Suíça e, ainda, os acontecimentos em torno da independência da Catalunha, apagaram quase por completo nos media a importante greve dos médicos do norte e a que se seguirão outras no centro e no sul do país. Mas este não é um assunto menor na política portuguesa, pelo contrário, é indispensável olhar para ele.

Os médicos e os restantes profissionais do SNS têm toda a razão em protestar e lutar por melhores condições de trabalho e remuneração, incluindo obviamente o recurso à greve como se tem verificado ultimamente.

A atual governação da saúde tem desiludido todos aqueles que esperavam como eu que, também na saúde, se operasse uma rotura com a política do anterior governo e isso, em grande medida, não se tem verificado. A continuidade impôs-se quando a defesa e progresso do SNS exigem um corte com o passado.

Os médicos têm três reclamações de que não abdicam: redução de 1900 para 1550 utentes por médico de família, redução de 18 para 12 horas semanais de trabalho no serviço de urgência e redução do trabalho suplementar de 200 para 150 horas anuais.

Julgo que são justas estas reclamações mas, é preciso deixar claro que cada uma delas só vem aumentar as dificuldades de acesso dos utentes aos cuidados do SNS, como é evidente pela significativa redução do trabalho médico de que delas resultará, certamente compensada por mais qualidade em resultado da melhoria das condições em que os médicos passariam a exercer a sua atividade.

Mas sendo as dificuldades de acesso o principal problema sentido pelos utentes na sua relação com o SNS, é absolutamente indispensável avaliar o impacto daquelas reivindicações no SNS e, em particular, no acesso e tempo de espera para os diversos cuidados prestados pelo SNS. E há soluções para isso.

Julgo que os sindicatos ponderam este problema, embora isso tenha pouca tradução no seu discurso, mesmo quando fazem saber que admitem uma solução faseada no tempo. Sendo assim, só por teimosia do governo não se encontra uma solução. E como sabemos a teimosia não resolve coisa alguma, só serve para agravar os problemas...

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.

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