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Ganhar na Secretaria

Os representantes do patronato nacional, da indústria à agricultura passando pelo comércio, querem ganhar na secretaria aquilo que, fruto das lutas dos trabalhadores, não conseguiram impor nos códigos de trabalho ou na concertação social.

O trabalhador português, é tão ou mais produtivo de que qualquer um dos outros que existem na Europa, o que tem é que deixar de ter patrões mas sim empresários bem formados, pessoal, cultural e tecnicamente, empresários que apostem no principio de que o trabalhador para além das mãos também tem cabeça, empresários que abdiquem da precariedade, que respeitem o direito dos trabalhadores se organizarem, que ouçam as suas ideias, que distribuam com eles os lucros dessas ideias, empresários que paguem salários que permitam que os seus trabalhadores cheguem ao trabalho sem preocupação com o que deixaram em cima da mesa para a família comer e sem a agonia de cada vez sobrar mais mês no fim do ordenado.

O patronato português, ou os seus representantes estão a aproveitar a crise de que foram em muitos casos co-autores, para se colocarem mais uma vez como classe no lado dos que sempre quiseram ocupar o País mais antigo e independente da Europa.

Como se tal não bastasse, é vê-los qual rodopio, a caminho do altar onde nos querem crucificar, até dia 15 de Maio, ainda os veremos irem de toalhinha e alguidar para a cerimónia do lava-pés à troika que nos impuseram Sócrates & Passos Coelho.

É interessante verificar que vão para lá com a sua sempre assumida posição de dependência, apelam a esta troika que os ajude a crucificar os trabalhadores, querem que seja esta gente quem ordene a alteração da Constituição, de modo a poderem reduzir salários, liberalizar os despedimentos sem justa causa, reduzir as indemnizações por despedimento colectivo ou individual.

Para tudo isto, contam com a colaboração do PSD, o acenar de cabeça de cima para baixo do CDS e a aceitação do PS que nos habituou a dizer não ás propostas do PS com D mas a levá-las à pratica com a capa da chamada esquerda. O PS com as políticas de Sócrates está a colaborar na destruição das tradições da esquerda que concordemos ou não, construiu o sistema social europeu.

Mas voltando à vaca fria, os representantes do patronato nacional, da indústria à agricultura passando pelo comércio, querem ganhar na secretaria aquilo que, fruto das lutas dos trabalhadores, não conseguiram impor nos códigos de trabalho ou na concertação social. Querem mais horário e menos salário, querem descontar menos enquanto pedem sacrifícios aos mesmos de sempre.

Durante anos, aproveitaram todos os subsídios vindos da UE em proveito próprio, montaram empresas onde da empregada doméstica ao mordomo, do cozinheiro ao motorista que leva os filhos ao colégio, do jardineiro da habitação ao tratador do canil, todos fazem parte da folha de ordenados da empresa, e nas despesas das matérias-primas, é ver a massa, o arroz, o feijão, a boa carne de vaca, o cherne e o tamboril junto com o material necessário para a confecção. Por muito e muitas horas que os trabalhadores trabalhem para esta gente, não conseguem pagar as despesas e os abusos, o pessoal indirecto é mais que o directo, a matéria-prima é composta de coisas que nunca entram na empresa, o trabalho é suado e precário, a técnica é tirada das máquinas a vapor, os autómatos, os robots, os computadores para os quais receberam subsídios andam a passear pelas Scuts, auto-estradas ou aviões para os verões do hemisfério sul.

Há excepções, há é verdade, esses não são patrões são empresários e não os vemos a alinhar na pedinchice de flexibilidades impostas, de reduções de salários e ou de impostos, a esses, vimo-los reivindicar menos burocracia, melhores meios de transportes, melhores infra-estruturas, nomeadamente no campo das novas tecnologias, fibra óptica e ETARs nos parques industriais, formação profissional logo no inicio do secundário, melhor e mais rápida justiça civil e ou laboral, etc.

As reivindicações dos representantes patronais à troika, se tidas em consideração, podem destruir o ambiente laboral em muitas destas empresas e lançar no século XIX as relações laborais nas outras.

Compete-nos a nós representantes dos trabalhadores evitar tudo isto procurando a unidade, utilizando a competência e não a ideologia na defesa do emprego, não colocar os interesses partidários acima dos interesses dos trabalhadores, estejam os respectivos partidos na oposição ou no governo.

No que diz respeito aos interesses dos trabalhadores, é muito mais aquilo que nos une que aquilo que nos divide, por isso e para evitar que o patronato retrógrado deste país, ganhe na secretaria aquilo que perdeu com as nossas lutas e dando seguimento à unidade demonstrada na greve geral de 24 de Novembro passado, devemos pressionar desde já as centrais sindicais para lutas conjuntas a começar pelo próximo 1º. de Maio.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Coordenador da CT da Volkswagen AutoEuropa. Deputado municipal no concelho da Moita.

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