Está aqui

A França, nossa vizinha

Foi a emergência de um candidato à esquerda que mudou a paisagem eleitoral francesa, dado que Mélenchon respondeu ao colapso do centro e da direita tradicionais.

Creio que não se consegue encontrar ninguém à esquerda que responda simultaneamente a duas condições: primeira, aceitar a União Europeia como instituição capaz de cumprir a sua promessa; e, segunda, acreditar que é realizável um plano concreto de reforma democrática que corrija as suas contradições. Entendamo-nos antes que me bombardeiem: há por certo muito quem ache que esta União é o destino celestial, é a própria ideia de Europa, que encarna a paz, a prosperidade e até o Estado Social mas, com uma vénia, prefiro não discutir misticismos, tanto mais que até os iluminados se aperceberam, e alguns com quanta amargura, que Merkel e Hollande e Dijsselbloem não são os corifeus angelicais que nos conduzirão ao paraíso. Por isso, a contradição é esta: os que têm fé na União que nos pintaram sabem que não há forma de cumprir tal promessa e que nos afastamos inexoravelmente desse encantamento. Depois do ignóbil acordo com a Turquia sobre os refugiados, depois da austeridade curativa imposta a Portugal e outros países, depois da falência da Grécia, o tempo para a inocência acabou.

É precisamente isso que nos lembra a França na última semana da sua campanha eleitoral. A crise francesa é filha do vazio europeu ou, mais ainda, é o preço de uma política que destroça os regimes a que foi retirada a legitimidade e a capacidade de criar expectativas para a vida das pessoas. No que é porventura o país mais politizado da Europa, onde começaram todas as grandes esperanças e tragédias dos séculos XIX e XX, a disputa resume-se então a isto: o único candidato obediente-europeísta é o homem do centro político, um aventureiro financeiro, Macron; os dois partidos que têm governado sucessivamente parecem estar afastados da disputa, com Hamon, do PS, abaixo dos 10%, e os Republicanos, a direita gaullista tradicional, remando contra a dissolução pelo escândalo; na direita, a candidata forte é Le Pen, dando corpo a um discurso nacionalista de extrema-direita; e o único candidato viável à esquerda, o que mais tem subido nos últimos dias, Mélenchon, é porta-voz da rutura com os tratados europeus e o seu diretório.

Claro que, sendo as sondagens o que são, ninguém pode excluir qualquer cenário e isso também é a mais grave expressão da crise de regime. A segunda volta pode bem vir a ser Macron-Mélenchon, ou Le Pen-Mélenchon, ou Macron-Le Pen. O que também quer dizer que qualquer dos três pode ser presidente dentro de semanas, tendo aliás uma característica em comum, não sabem como formariam maioria de governo depois das eleições legislativas.

Mas note a diferença entre o que hoje se escreve e o que se antevia há uns meses: dizia-se que Juppé iria ganhar juntando a maioria republicana, mesmo que a desdemonizada Le Pen fosse a mais votada na primeira volta, mas ainda assim seria batida e tudo voltaria ao normal. Perante o colapso do centro, a direita solene venceria a extrema-direita arrivista.

Todo esse plano, se era um plano, desabou. De facto, foi a emergência de um candidato à esquerda que mudou a paisagem eleitoral francesa, dado que Mélenchon respondeu ao colapso do centro e da direita tradicionais, mobilizando energias das lutas populares e da identidade nacional em resposta à perseguição que a União move contra as políticas sociais. Ele constitui o único antídoto que enfrenta Le Pen. Creio que é por isso que a sua candidatura cresce tanto nos últimos dias: passou a ser a voz da esquerda social contra o sono da razão. Ora, se as eleições são a única válvula de escape contra a mais opressiva das opressões, o discurso da inevitabilidade do empobrecimento em benefício da plutocracia e da cizânia entre comunidades, temos pela primeira vez uma resposta ao risco da extrema-direita: perdido o centro, é do surgimento de uma nova esquerda que queira ser maioritária que depende a salvação de uma política de bem-estar contra o fanatismo do mal-estar.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 18 de abril de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.

Adicionar novo comentário