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Florestas, gravatas pretas e abraços de afecto

Que ninguém espere que as caras pesarosas, as gravatas pretas nos colarinhos brancos dos responsáveis políticos e os abraços e visitas de afectos resolvam mais que o atenuar de uma dor.

Os incêndios de 15 de Outubro passado devastaram as Beiras, não escapando sequer o Pinhal de Leiria na Beira Litoral, mata estatal e de grandes dimensões. Estou certo que as condições meteorológicas foram o principal factor determinante da extensão e gravidade dos incêndios dessa noite. Estava eu nessa noite em Lisboa, e longe de saber o que se estava a passar, comentei com uns convivas que estavam em minha casa, atento o calor e vento que se verificava: “Se Monsanto começa a arder hoje é uma calamidade em Lisboa”.

No dia seguinte desloquei-me a Viseu e o cenário da viagem foi pior do que eu poderia esperar. Cada um de nós, numa perspectiva de “treinador de bancada” tem o seu bode expiatório para os incêndios florestais: os mais simplistas personificam as causas nos incendiários, outros culpam o plantio intensivo de eucaliptos, outros ainda somam-lhe ainda o pinheiro bravo, outros colocam o enfoque na falta de manutenção e limpeza das florestas, outros falam ainda na insuficiência e ineficiência dos meios de combate aos incêndios, outros falam na desertificação do interior e no abandono das terras e bem assim na necessidade de reestruturar a propriedade florestal dominada pelo minifúndio e num cenário mais amplo há quem fale nas alterações climáticas.

No meio de tantas causas apontadas, quem tem afinal razão? Eu diria que todos têm uma parcela de razão, até porque a verdade nem sempre é só uma, apesar do conforto que tal asserção nos traz. E é por isso que a solução a ser encontrada não é só uma e não é nem pode ser simples. Desde que me lembro de ser gente, e já lá vão quase 40 anos que nasci, que ouço falar na problemática dos fogos florestais, pese embora sem que se tenha encontrado uma solução satisfatória para o problema.

Os fogos florestais são um problema nacional que exige a intervenção planificadora do Estado e das autarquias locais, mormente através do planeamento da exploração florestal, assente no estudo e na investigação e no emparcelamento florestal, com vista ao desenvolvimento de uma estratégia aberta aos desafios e ameaças que vão mudando.

Que ninguém espere que as caras pesarosas, as gravatas pretas nos colarinhos brancos dos responsáveis políticos e os abraços e visitas de afectos resolvam mais que o atenuar de uma dor. E que ninguém espere também que a solução para este problema esteja isenta de dores, de combate a interesses instalados ou que esteja inteiramente nas nossas mãos. Mas podemos ainda assim fazer muito, o que levará muito tempo, décadas, o que faz das gravatas pretas e dos abraços de afecto o menos importante – pelo menos assim o espero – do trabalho a fazer depois desta catástrofe.

Artigo publicado no “Jornal do Centro” em 10 de novembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Advogado, ex-vereador a deputado municipal em S. Pedro do Sul, mandatário da candidatura e candidato do Bloco de Esquerda à Assembleia Municipal de Lisboa nas autárquicas 2017. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990

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