A Espanha não é o Uganda

À afirmação proferida pelo primeiro-ministro espanhol referindo "a Espanha não é o Uganda", o ministro dos negócios estrangeiros do Uganda respondeu "o Uganda não quer ser como a Espanha".

À afirmação proferida pelo primeiro-ministro espanhol referindo "a Espanha não é o Uganda", o ministro dos negócios estrangeiros do Uganda respondeu "o Uganda não quer ser como a Espanha".

Espanha e Itália começam a arder. De Bruxelas, onde tantas vezes a novidade tarda, sabe-se que "a situação é totalmente diferente" da grega ou da portuguesa. De cada vez que a história se repete, vem a mesma farsa. Ministros europeus das finanças apressam-se a dizer frases como: "a Espanha não é a Grécia", "Portugal não é a Grécia", "a Grécia não é a Irlanda"; "a Espanha não é a Irlanda nem Portugal", "a Irlanda não é território grego", "nem a Espanha nem Portugal são a Irlanda", "a Itália não é Espanha" e por aí adiante. No meio desta cacofonia houve apenas uma troca certeira de 'piropos'. À afirmação proferida pelo primeiro-ministro espanhol referindo "a Espanha não é o Uganda", o ministro dos negócios estrangeiros do Uganda respondeu "o Uganda não quer ser como a Espanha".

Algum/a de nós se recorda de, alguma vez, ter ouvido ser proferida uma frase equivalente a "a Alemanha não é a Grécia" ou "a Alemanha não vai pedir o resgate"? Não, e as razões são por demais evidentes. Todos os que afirmam vincadamente que não precisam de resgate acabam por pedi-lo. Todos os que afirmam que são diferentes uns dos outros acabam por adiar uma solução europeia para uma crise que é comum, mas cuja factura tem sido tão desigualmente distribuída.

O que é inaceitável nesta novela de mau gosto é que os problemas são mesmo comuns, mas as respostas europeias são diferentes. Por um lado, para que alguns poucos países continuem a ganhar às custas da sangria de outros. Por outro, porque se inventam pacotes de resgate "a la carte" dependendo se o país em causa pode pôr mais ou menos em risco a missão europeia de salvação do sistema financeiro. Em qualquer dos casos, a receita é a mesma: austeridade em overdose para os povos dos países em dificuldade e remédios curativos para os mercados.

E, numa semana como a que passou, qual foi a proposta mais concreta que Bruxelas apresentou? A criação de um exército europeu comum. Estranho? Não, antes a espuma dos dias. É caso para usar bom português e dizer que com papas e bolos se enganam os tolos.

Se, contra todas as evidências, continuarmos a adiar a solução das políticas crescimento à espera que a austeridade resulte, já não conseguiremos fazer o diagnóstico dos problemas do Euro. Quando muito, faremos a sua autópsia.

Artigo publicado no jornal “As Beiras” a 23 de Junho de 2012


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