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Escola geradora de igualdade e felicidade!

Partindo da intuição de Bernard Shaw quando diz que “a escola é um edifício com quatro paredes e o amanhã dentro dele”, a educação tem de ser pensada como ferramenta com alto potencial de construção da sociedade que preconizamos.

A escola, como espaço público de educação, é o instrumento socioformativo de promoção para a igualdade de oportunidades e inclusão das diversidades. É o garante da preservação de valores sociais, cívicos e culturais identitários de um povo, fieis a uma memória mas projetados num futuro evolutivo. É um dos pilares do exercício da democracia. Mas estas competências da escola só serão atributos plenos, se este for um espaço de mescla das diferenças com direitos de paridade na construção da felicidade coletiva e do gosto pessoal de bem-estar.

A semana passada foi publicado um grande estudo da OMS sobre a adolescência, com o objetivo de avaliar hábitos, consumos, comportamentos, com impacto na saúde física e mental, em diferentes fases de crescimento. Os resultados de Health Behaviour in School-aged Children, baseiam-se nas respostas de mais de 220 mil adolescentes, sendo que em Portugal participaram 6000. Se é notório um cada vez maior apoio das famílias aos jovens portugueses e estes são dos que mais tomam o pequeno-almoço todos os dias e têm consumos de álcool abaixo da média observada noutros países, também é verdade que no nosso país é onde há menos jovens a dizer que gostam muito da escola (só 11% dos rapazes e 14% das raparigas). E quando se pergunta do que é que gostam na escola, as aulas aparecem em último lugar e isto tem sido recorrente. Somos sempre dos piores no gosto pela escola e no sentido do sucesso escolar como afirmação pessoal e profissional. A experiência que se tem com a escola tem um papel crucial no desenvolvimento da autoestima, da conduta comportamental e no bem-estar e equilíbrio intelectual. Segundo os peritos da OMS, os adolescentes que sentem que a escola os apoia estão mais propensos a ter comportamentos positivos e a serem mais saudáveis, assim como a terem níveis de satisfação com a vida mais elevados, menos queixas relacionadas com a saúde e menor prevalência para consumos desenfreados.

Considerando que, após implantação da democracia, temos dos maiores crescimentos de frequência na escola e de formação cívica e académica e que conseguimos ultrapassar barreiras de discriminação económica, é também evidente que continuamos com índices elevados de reprovações e que mantemos reprodução de desigualdades sociais e estereótipos institucionais, como é, por exemplo, o de associar a indisciplina aos alunos de meios económicos mais desfavorecidos, como se fosse uma rotulagem de proveniência. Em Portugal temos a impressão de que a Educação está sempre em reforma e sempre sem uma estratégia para a integração dos desajustados à matriz de referência. Não olhamos com muito agrado para quem vive nas franjas do estipulado. As políticas educativas dos últimos anos consubstanciaram esta alusão e contribuíram para a destituição da escola pública com o intuito de altear a seletividade dos currículos em nome da notabilização académica. Investido na ideologia da rentabilização e da gestão por resultados, tem-se branqueado os verdadeiros problemas e encavalitado a urgência de números em aparentes sucessos estatísticos. Temos assistido ao triunfo da escola-empresa contra a escola-democrática numa consequente redução do espaço público da educação. Centraliza-se o poder em figuras unipessoais, desenvolve-se o princípio da subordinação e do sacrifício acrítico, instala-se a “cultura do diploma” que faz da escola uma mera instituição cujo objetivo é passar certificados obtendo credibilidade em função dos resultados. Esta cultura da produtividade origina a seleção e a exclusão e promove a dualização entre uma escola de elites para o êxito e a dominância e a escola das classes populares para a alfabetização social. Demando e brado, com esperança na atual equipa ministerial, pela inversão da deplorável tendência dos últimos tempos. A democracia é a coabitação das diferenças e a manifestação dos contrários, não tem que ser necessariamente um consenso. A escola é o instrumento mais poderoso para regular e construir a pluralidade. Proclamo uma escola pedagogicamente inclusiva na contraposição a uma sociedade que não acolhe os excluídos, capaz de evidenciar as virtudes da igualdade pela disparidade e da oportunidade pela felicidade.

Como asseveração deste intento, partilho publicamente a gratidão de um sentir memorável que a Escola me proporcionou. No âmbito da iniciativa municipal “Elos da Literatura” assisti na Biblioteca a um desfile majestático de escritores, de poetas, de criadores da palavra, soberbamente representado e declamado pelos alunos. A intermediar esta distinta apresentação, entoavam suaves acordes musicais engalanadas pela graciosidade de uma melodiosa voz. Orgulho e reconhecimento por todos que construíram este momento de educação e formação, e pela escola que assim faz crescer e despertar. Emocionado pela excelência, enalteço a felicidade que me deu a presença.

Artigo publicado no “Jornal de Barcelos”

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Professor

Comentários

Sinceramente, qual o problema em se analisar quantitativamente um fenômeno, no caso, o desempenho escolar? Sem isto, como podemos detectar problemas? Apenas pela nossa sensibilidade? Proceder assim é semear um campo para preconceitos, justamente porque nós somos falíveis e podemos cometer erros de avaliação. Sinceramente, esta retórica de uma contradição entre a "escola-empresa" e a "escola democrática" é profundamente falsa. Não há democracia que se sustente sem uma sólida base econômica, todos sabemos disso e apontar para a melhoria de produtividade de nossos alunos significa mapear nossas falhas para recuperar alunos em dificuldades, não excluí-los. Acho que já passou o tempo (se é que houve algum) em que clichés de esquerda versus o "capitalismo opressor e malvado" acusaram alguma utilidade para a sociedade.

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