Está aqui

Do lixo 'razoável' ao lixo 'positivo'

O que as agências de notação fazem na prática é garantir que a arbitrariedade passe a certeza como que por toque mágico ou de ilusionista.

Soubemos esta semana que a agência de notação Fitch melhorou a perspectiva que tem sobre os títulos de dívida pública portuguesa e que isso abre caminho para que, em breve, deixem de classificar-nos como lixo. Eu que gosto de boas notícias, tenho dificuldade em ver nesta alteração apenas o que nela há de bom.

Trata-se de uma notícia ‘infelizmente positiva’, porque infelizmente ainda continuamos a depender dessas notações como se tivessem algum rigor, e infelizmente também porque elas acabam por influenciar a economia.

As notas que são dadas a Portugal dependem de quatro agências privadas: três norte-americanas (Fitch, Standard & Poor's e Moody's) e uma canadiana (DBRS). São pagas pelos clientes que lhes pedem a nota (sejam empresas ou países) e não têm qualquer credibilidade. Com efeito, estas agências não são inocentes e tiveram interferência directa nos processos que vivemos nos últimos anos. Mesmo antes do colapso financeiro davam notas muito positivas ao Lehman Brothers, o banco que lhe serviu de rastilho. Na União Europeia também não se livram da responsabilidade na forma como tiveram intervenção directa na crise da dívida na Grécia e na consolidação da chamada crise das dívidas soberanas na União Europeia.

Se olharmos para a quarta agência de notação da qual dependemos - a canadiana DBRS - o cenário não muda muito de figura. A diferença é que, neste caso, quem 'manda' nas notas a dar é o Banco Central Europeu.

Obviamente, se há indicadores novos e mais positivos na economia portuguesa, estranho seria que as notas ou a perspetiva sobre essas notas não se alterasse para melhor. A quase total financeirização da economia global tem também esta consequência: vivemos a era do absurdo e trata-se do absurdo como se fosse a coisa mais lógica do mundo. Economias mais fortes ou empresas com mais peso comandam os destinos das restantes e definem o que é a sua credibilidade ou falta dela. O que as agências de notação fazem na prática é garantir que a arbitrariedade passe a certeza como que por toque mágico ou de ilusionista. De tudo isto pouco sobra a não ser um teatro de sombras.

Artigo publicado em “Beira News” a 19 de junho de 2017

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.

Adicionar novo comentário