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Despedimento massivo na Base das Lajes

Exigimos da administração norte-americana indemnizações excecionais, tanto para os trabalhadores visados, quanto para a economia da Ilha. Exigimos também a declaração da ilha Terceira, por parte do Governo da República, como zona de emergência social.

Os trabalhadores da Base das Lajes estão, hoje, confrontados com o desemprego.

Em cada casa mora, certamente, a amargura, a incerteza e a perspetiva de um futuro negro, sentimentos adensados pelo cenário atual do país e da região, onde o desemprego é uma chaga que todos os dias alastra.

As ondas de choque deste despedimento massivo - fala-se em 400 trabalhadores mas podem ser muitos mais - terão consequências depressivas (ainda hoje não mensuráveis), na economia dos Açores e, em particular, na ilha Terceira.

Independentemente do modus operandi deste processo - que continua no segredo do Governo da República, do Governo Regional e, consequentemente, do PSD e do CDS, como partidos suporte do Governo da República -, uma coisa temos certa: a administração norte-americana já decidiu e comunicou .

Comunicou, em primeira mão, a um ministro da Defesa do Governo da República, o qual, numa atitude subserviente, a comunicou, por sua vez, ao País, através da televisão, mas que não foi capaz de ter uma palavra, sequer, sobre as pessoas que sofreriam as consequências desta decisão.

Esta atitude lamentável do ministro Aguiar Branco só tem paralelo na atitude infame da administração norte-americana, que trata trabalhadores que, afincadamente, deram o seu melhor, como matéria descartável.

Por tudo isto, exigimos da administração norte-americana indemnizações excecionais, tanto para os trabalhadores visados, quanto para a economia da Ilha. Exigimos também a declaração da ilha Terceira, por parte do Governo da República, como zona de emergência social, à semelhança do que já foi assumido no passado, para a península de Setúbal ou o Vale do Ave.

É o mínimo a que estes trabalhadores e a ilha Terceira têm direito.

Mas não chega. A mais do que visível pegada ecológica provocada, ao longo dos anos, pelo funcionamento da Base, tem que ser apagada e os seus custos assumidos pela administração norte-americana.

A situação não se compadece com meros apelos ao bom senso do governo Americano, sobretudo, quando as decisões estão já tomadas.

Mas os sinais de prepotência não ficam por aqui: a administração norte-americana impõe que a Base fique adormecida para, quando lhes interessar, a voltarem a reativar para uma qualquer guerra.

Basta.

É hora de dizer ‘basta’ e cabe-nos a nós, açorianos/as, defender o que é nosso.

O cenário que temos pela frente exige que coloquemos os Açores à frente de casulos ideológicos que impedem o seu desenvolvimento.

Nesse sentido, o primeiro tabu a cair para deixar fluir o pensamento é o de que a posição geoestratégica dos Açores só poderá ter, como única finalidade, o uso militar.

Nada mais falso. Este tipo de conceção levou-nos, aliás, a este desastre eminente e, insistir nele, pode potenciar desastres ainda maiores. Bastarão 30 segundos de vídeo, na internet, associando os Açores a uma qualquer “Guernica”, numa qualquer aldeia do Médio Oriente, para arrasar anos de trabalho e milhões de euros investidos, na venda internacional destas 9 ilhas, como ‘paraísos da natureza’.

A privilegiada posição geográfica dos Açores pode ter valências, economicamente, tão interessantes como: as ciências do mar, as comunicações, os transportes marítimos e/ou aéreos de mercadorias e pessoas, entre outras.

Defender os Açores e preparar o futuro obriga, no imediato, a iniciar os estudos que lancem as bases de futuras utilizações civis das infraestruturas existentes na ilha Terceira, por forma a lançar uma poderosa âncora do desenvolvimento económico desta Região, captando trabalho jovem e qualificado e valorizando a capacidade de trabalho já existente na ilha.

Como é óbvio, este caminho não é compatível com uma base de guerra adormecida, cujo dono poderá ordenar, em qualquer altura: ‘Agora, pára tudo, porque a guerra continua dentro de momentos’.

Por isso, enquanto exigimos este caminho ao Governo da República, exigimos, paralelamente, uma moratória para a total desativação militar desta infraestrutura.

O progresso dos Açores não se compadece com os novos ‘Velhos do Restelo’ que, todos os dias, proclamam que o mundo mudou mas que, para as reais mudanças do mundo, só têm as receitas dos primórdios do Séc. XX. E se o mundo mudou, os Açores também mudaram com ele.

Hoje, o centro de gravidade económico e político do mundo deslocou-se para o Oceano Pacífico e não é mais o Atlântico. Esta é uma verdade insofismável mas, para os tais ‘Velhos do Restelo’, os casulos ideológicos impedem-nos de ver a realidade das mudanças.

Estas preocupações e a previsibilidade de um desastre – hoje, eminente - tem o Bloco de Esquerda/Açores trazido à discussão, nesta Região - tanto nesta Câmara, como mesmo antes de ter representação parlamentar. Os avisos que, constantemente, lançámos sobre a problemática da Base das Lajes, pretendiam impedir este desfecho. Infelizmente, PS, PSD e CDS não nos ouviram, preferindo a chacota sobranceira e virando as costas a uma discussão séria sobre este assunto.

Mas, hoje, é preciso coragem para abrir novos caminhos para o desenvolvimento e progresso dos Açores.

Por todas estas razões, não podemos acompanhar a chuva de projetos de resolução presentes para votação. Acompanhamos a solidariedade que todos prestam aos trabalhadores da Base, mas não podemos acompanhar as saídas votadas ao fracasso.

A defesa dos interesses dos/as Açorianos/as cabe a cada um/a de nós. É hora de agir, de olhar o futuro e não de chorar sobre águas passadas.

Declaração na Assembleia Regional dos Açores, na Horta a 23 de Março de 2012

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda/Açores. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, desde Outubro de 2008.

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