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Defender a Madeira?

Defender a Madeira é levá-la à bancarrota? É criar uma dívida para o povo pagar e que serviu sobretudo para enriquecer meia-dúzia? É fazer obras inúteis - novo cais, marina do Lugar de Baixo, cota 500 e outras - e atirar para Lisboa as culpas de não termos um novo hospital?

“Abençoada dívida”, disse Jardim. A dívida trouxe desenvolvimento, criou empregos, estabeleceu novas atividades económicas e gerou riqueza? Enquanto duraram as obras sim, mas depois não! As vias rápidas, os centros cívicos as promenades, por sí só não dão sustento a ninguém, são antes um encargo pois carecem de manutenção. A dívida foi uma embriaguez, criou uma ilusão de riqueza, mas acabada a “festa” veio a ressaca, voltou a pobreza, o desemprego e a emigração. Ah, mas ficaram os ricos da Madeira nova...

O CINM [Centro Internacional de Negócios da Madeira], dá milhões no IRC mas faz perder mais em transferências da Europa e do Estado. Pelo meio deu 50 milhões a um grupo hoteleiro. O PSD queixa-se de discriminação face aos Açores, a culpa é do CINM, que faz o PIB da Madeira parecer mais alto do que é - uma ilusão de riqueza. Defende o CINM, mas queixa-se das suas consequências.

Milhões do SESARAM [Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira] vão parar ao tal grupo hoteleiro para lavar a roupa enquanto a lavandaria do hospital está parada. Outros milhões somem-se em análises e exames requisitados aos privados, porque os equipamentos do hospital não são reparados. E a saúde pública continua a degradar-se e a perder recursos.

O ferry foi escorraçado porque estava a mexer nos interesses do grupo que controla os portos e o transporte por mar, grupo que diz “defender a Madeira”, defende, mas como sua “quinta” privada, coisa que o PSD apoia.

O Estado não apoia a Madeira? Apoiou sempre, com vários perdões de dívida, com meios financeiros, técnicos e humanos nas emergências. A Lei de Meios deu 1.100 milhões, que foram em larga medida desbaratados em reparações no Lugar de Baixo, no novo cais e, mais recentemente nas ribeiras do Funchal, enquanto algumas famílias afetadas continuam sem serem apoiadas.

Diz o PSD que não há dinheiro para as expropriações e projetos do novo hospital, mas então como é que há dinheiro para as vias rápidas e pista de atletismo? O que é mais urgente?

O governo exige o pagamento das dívidas a Lisboa, mas não paga o que deve aos municípios, nem sequer a dívida do IRS que Albuquerque não se cansava de exigir quando estava na CMF, como também não revê o tarifário do depósito do lixo na Meia Serra, como também exigia antes. Um pouco mais de seriedade e coerência.

Defender a Madeira não é defender os novos donos da Madeira que enriqueceram com a dívida que o povo agora tem de pagar, nem é atribuir as culpas a Lisboa para branquear as responsabilidades do governo regional. Defender a Madeira é falar a verdade, para prevenir a repetição dos disparates do passado.

É um truque velho, usado por governantes incompetentes e pouco democráticos, inventar um inimigo externo a quem atribuir as culpas de todos os males. Para o regime de Maduro os culpados dos males da Venezuela são a América e a oposição “traidora da pátria”. Para o PSD a culpa dos males da Madeira é de Lisboa e da oposição regional, “traidora da Autonomia”, são tão iguais.

Os inimigos da Madeira não estão em Lisboa, estão cá dentro, são os novos donos disto tudo que enriquecem com a dívida, com as negociatas do CINM, com as concessões dos portos e das vias rápidas. E o povo enganado, para pagar a dívida e ganhar o seu sustento tem de emigrar, depois de 40 anos de autonomia.

Artigo publicado no DN da Madeira a 27 de dezembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputado do Bloco de Esquerda, eleito pelo círculo da Madeira. Economista, dirigente da Administração Pública.

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