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Da democracia

Não há respostas salvadoras nem governantes providenciais. Muito menos o FMI o será. Mas temos o mais poderoso instrumento da resposta: a democracia.

Nas últimas semanas têm-se multiplicado os apelos a uma suspensão da democracia. Do manifesto dos 47 ilustres aos consensos podres de debate televisivo o discurso repete-se: este é o momento da unanimidade. Nada de divergências, dizem-nos, temos todos de nos unir no caminho único e inevitável da recessão, do FMI. Quem decidiu a inevitabilidade, não nos dizem. Mas nós sabemos.

Um grupo de banqueiros poderoso reuniu-se e disse que precisava do FMI. Foi a sua forma de manifestação e greve; não vieram ao espaço público, que gostam mais do recato do gabinete, e não houve guerra de números quanto à adesão, que os milhões que dominam ninguém contesta. Não se preocuparam muito com a coerência do discurso, com o longo prazo ou com o país. E ninguém lhes fez perguntas incómodas, porque isso seria desagradável.

Dizem-nos que sem banca não sobrevivemos. Será verdade. E sem vida, sobrevivemos? Pedem-nos que cortemos nas vidas porque os mercados o exigem. E que é irresponsável não responder aos mercados. E cortar nas vidas, é responsável? Que sentido tem tudo isto? Afinal, como chegámos até aqui? E como vamos sair daqui? Não será certamente com mais do mesmo.

Não há respostas salvadoras nem governantes providenciais. Muito menos o FMI o será. Mas temos o mais poderoso instrumento da resposta: a democracia. A democracia que se faz no activismo, na rua, no voto, no debate. Se aceitamos que nos momentos difíceis o unanimismo deve substituir o confronto das alternativas, estamos a abdicar do único instrumento que nos pode valer: o poder do povo. Abdicar da democracia foi sempre a pior das decisões nos piores dos momentos. As vidas são nossas, a decisão é nossa.

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.

Comentários

Concordo com tudo que disse à excepção do termo "suspensão da democracia". Na minha perspectiva a "democracia" que temos desde há uns bons anos a esta parte é que é uma democracia suspensa. Democracia não é apenas votar em quem está na assembleia. Democracia é quem está na assembleia saber que precisa respeitar acima de tudo os eleitores que elegeram essa assembleia. Respeitar significa defender os interesses desses eleitores contra o lobby, contra a corrupção, contra a máfia, contra os valores que não têm em consideração esses eleitores. A nossa assembleia tem feito, e continua a fazer cada vez mais o oposto respeitando a máfia do capitalismo sobre a qualidade de vida dos seus eleitores. Se na sua perspectiva o que a Islândia fez foi suspender a democracia, na minha foi finalmente ter uma verdadeira democracia. A democracia que a Islândia está a criar é o exemplo a seguir, não a "democracia" que temos actualmente neste país.
Por me ter ouvido, muito obrigado.

Caro Carlos,

não estamos em desacordo. A democracia não se esgota no voto. E a escolha não é de protagonistas, é de políticas. Se não debatermos alternativas, se nos limitarmos a escolher que protagonistas os vão alternando na implementação das mesmas políticas, não estamos na realidade a escolher.
O que escrevi foi: "A democracia que se faz no activismo, na rua, no voto, no debate. Se aceitamos que nos momentos difíceis o unanimismo deve substituir o confronto das alternativas, estamos a abdicar do único instrumento que nos pode valer: o poder do povo."
Quanto à Islândia, não se suspendeu a democracia. Muito pelo contrário.

PS- Um mecanismo anti-corrupção (estranho que pareça) poderá ser o convite á corrupção efectuado sob mecanismos electronicos digitais estatais completamente imanipuláveis e sob segredo de estado nacional

Concordo integralmente com a Catarina. E digo mais: está na hora do povo ir para as ruas, protestar e mostrar sua indignação e revolta. Um país que fez o 25 de abril não pode nunca curvar-se aos desejos dos banqueiros e das "lideranças" europeias. Assinado: Rui Manoel Pizarro Andrade, de Brasília (Brasil).

Na minha opinião, o povo português tem ainda um défice acentuado no que respeita ao activismo cívico. A revolução de Abril de 1974 pôs fim a quase meio século de ditadura; e antes desta a experiência parlamentar da primeira República foi deplorável.
A classe política deveria reflectir sobre o fenómeno da crescente taxa de abstenção face aos actos eleitorais. As pessoas começam a desacreditar numa democracia demasiadamente formal que tem servido bastas vezes para a criação de um sistema de mordomias por parte dos representantes do povo, o que, por sua vez, constitui um incentivo ao progressivo afastamento entre eleitores e eleitos. Quando estes últimos começarem a sentir fome (verdadeira fome!), as manifestações na rua poderão já não ser tão pacíficas quanto a classe política instalada o deseja.

A expressão usada "suspensão da democracia" está inteiramente correcta dado que há momentos na politica em que se deve parar para pensar. Ora , as melhores ideias provêm de partidos pequenos que não têm voz para lidar com forças economicas implantadas no bloco central que teimam repetidamente a não aceitar qualquer participação da força popular. Existem vários mecanimos e um deles é o referendo , o qual tem sido praticamente abolido da esfera democrática! O que era necessário seria convidar o Povo para referendar propostas que respondessem a problemas como corrupção, tectos salariais, profissionalização da classe politica versus acumulação de interesses. Também deveria ser equacionada a imlementação de mecanismos de participação popular á semlhança do que aocntece em paises como a Suiça(democracia semi-directa), Suécia(demoex-democracia directa municipal) ,e Islãndia.

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