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A cultura são os conteúdos. O resto é paisagem

Os acontecimentos em matéria de cultura dos últimos dias tornam ainda mais urgente algumas perguntas.

Quando falamos de cultura, afinal de que falamos? O que queremos da cultura? A cultura é uma responsabilidade exclusiva do Estado? Queremos partilhá-la com a iniciativa privada? Preocupamo-nos com os produtores ou/e também com os utilizadores? Como é que separamos estes campos, em qual deles vamos reforçar a nossa luta? Faz sentido dizer que estamos de um lado contra o outro?

A cultura, na sua generalidade, era bem melhor destino que a Ajuda para as taxas cobradas aos turistas. Devíamos fazer contas aos milhões que a obra vai consumir

A notícia mais espetacular vai direitinha para a obra faraónica da Ajuda. Las Vegas é mais ou menos assim: enorme, muito néon, repuxos. E os pacóvios a cismar com as maravilhas do dinheiro, um fogacho esmagador. Tudo armação. O Palácio foi construído na viragem do século XVIII para o século XIX, nos arrabaldes da capital. Uma construção opulenta para sossegar os homens face à natureza incontrolável que haviam provado em 1755. Depois, a corte vai para o Brasil, a oportunidade da obra vai-se também, o dinheiro esvaiu-se, os Franceses (e os Ingleses) mandavam no que restava do Reino e a obra ficou inacabada. Agora, duzentos anos depois, quando boa parte das joias reais foi roubada, trancas à porta. Foi decidido acabar o Palácio criando o espaço necessário, dizem, para as guardar. É mesmo preciso criar um cenário tipo Las Vegas-Reno?! Os arquitetos não têm nada a dizer, propostas alternativas?! A meio da colina, dois blocos como torreões…onde fica a harmonia arquitetónica, visual e geográfica?! Não valia a pena um debate público sobre a oportunidade desta reconstrução antes de consumada? Para onde caminha a cidade?

A cultura, na sua generalidade, era bem melhor destino que a Ajuda para as taxas cobradas aos turistas. Devíamos fazer contas aos milhões que a obra vai consumir. Em plena discussão do OE para 2017 deixamos escapar um potencial reforço para equilibrar a verba para a cultura. Autoritarismo e autismo juntaram-se na Ajuda.

Depois, Miró. Por uma vez, um episódio bem gerido. Antes do mais porque a coleção foi resgatada. Depois, com a sua permanência no Porto ganha-se alguma descentralização. Finalmente, o aspeto mais relevante: instalou-se a coleção na Casa de Serralves dando maior utilização (e visibilidade) a um espaço já existente. Parece que foi encomendado outro espaço a Siza Vieira. Ainda é cedo para comentar mas, pelo menos, desta vez existem obras para lá meter dentro. O que, claro, é muito bom porque os museus não se podem justificar pelo traço arquitetónico.

Dispor de lindos edifícios sem conteúdos é como ter encadernações de pele a metro

Dispor de lindos edifícios sem conteúdos é como ter encadernações de pele a metro.

O conteúdo, primeiro; depois, o invólucro. Há uma tendência enorme para privilegiar este em detrimento daquele. Errado, claro.

De repente, a polémica sobre o destino do Forte de Peniche. Situação muito delicada pelo simbolismo do Forte na luta contra o fascismo.

Dificilmente se aceita um resort turístico misturado e paredes meias com um local cheio de memórias a preservar. Só pode ser um equívoco querer juntar a reflexão com o sururu. O Forte não pode ser usufruído por metade. É no conjunto do Forte com a sua proximidade ao mar e afastado da vida que se compreende a história.

O ministério da Cultura não pode tornar-se uma agência de imobiliário patrimonial mesmo debaixo do nosso nariz

Ainda que os espaços não se choquem, a fortaleza só tem uma entrada. E lá vão dois turistas a puxar pela bagagem com rodinhas e uns visitantes de semblante mais carregado, todos calçada fora. Uns virarão à direita, outros à esquerda. Há aqui um não sei quê de mangação. O Forte tem estado muito mal estimado. Resta saber se esta falta de cuidado não foi abrindo caminho ao turismo. Imagine-se um hotelzinho de charme nas alas do Mosteiro de Alcobaça. Ah, pois, sem vista para o mar não é tão bom assim.

O ministério da Cultura não pode tornar-se uma agência de imobiliário patrimonial mesmo debaixo do nosso nariz.

Finalmente, a cereja no topo do bolo. Isto é, na margem do Tejo. Apesar de ousado, espetacular e embora disponha de um passeio público constitui mais uma barreira. Se olharmos com atenção aquela margem, dispostos em fila uns ao lado dos outros, está o Museu de Arte Popular, o Monumento aos Descobrimentos, a Estação Fluvial, o Museu da Eletricidade, o novíssimo MAAT. Um paredão. Então, o Tejo, senhores, o Tejo? Em breve serão necessários dísticos a indicar para que lado fica o rio. Será indispensável carregar as margens do Tejo com mais betão?

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa.

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